sexta-feira, 25 de julho de 2008

Livro para ler online do Pastor Lourenço Stélio Rega



segunda-feira, 21 de julho de 2008

As Desculpas de Moisés

Tentando Fugir da Responsabilidade
Por Dennis Allan
Moisés nasceu num momento crítico. O povo dele, os descendentes de Abraão escolhidos para receber grandes promessas, estava sofrendo terrivelmente. Os egípcios dominavam os hebreus com tirania, e até matavam os filhos recém-nascidos para controlar o crescimento da nação escrava. A mãe de Moisés escondeu o próprio filho e, depois, deixou que ele fosse adotado por uma princesa do Egito.
Moisés viu a injustiça e tentou defender seu povo. Ele matou um egípcio que espancava um dos hebreus, imaginando que o povo lhe daria apoio. Mas, o povo medroso não entendeu o que Moisés queria fazer, e ele tinha que fugir do Egito. Dos 40 aos 80 anos de idade, ele ficou longe do Egito, servindo como humilde pastor de ovelhas. Neste tempo, ele casou e teve filhos. Talvez ele conseguiu esquecer um pouco do sofrimento dos parentes no Egito. Até um dia, quando Deus apareceu no Monte Sinai, numa moita que ardia mas não se queimava. Deus mandou que Moisés descesse para o Egito para livrar o povo da escravidão.

Moisés, com 40 anos de idade e com todo o vigor físico e o desejo ardente de ajudar os parentes, não conseguiu fazer nada. Agora, com 80 anos, vai fazer o que? Vai entrar na presença do rei do país mais poderoso do mundo e exigir a libertação de milhões de escravos? Moisés se considerava um libertador pouco provável, e começou a oferecer suas desculpas ao Senhor. Vamos examinar as cinco desculpas que ele deu, e a maneira que Deus respondeu a cada uma. O relato se econtra em Êxodo 3 e 4.

ì Quem sou eu?
"Então, disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?" (3:11). Que convite para uma pregação positiva! Dá para ouvir alguns pastores, hoje em dia, fazendo belas pregações elogiando tal pobre sujeito que não reconhece sua força interior. "Você é alguém", diriam para Moisés. "Com pensamentos positivos, você pode realizar seus sonhos." Mas esses pastores não estão pregando a palavra do Deus que chamou Moisés. Deus não elogiou Moisés. Ele não fez algum Grande discurso para mostrar que Moisés era alguém. Deus, implicitamente, concordou com Moisés. É verdade. Você não é ninguém.  Mas eu sou o Criador do universo e "Eu serei contigo" (3:12).

Muitas pessoas recusam cumprir os papéis que Deus lhes tem dado, porque se julgam incapazes. Olham para outras pessoas mais talentosas e acham desculpas por não fazer a vontade de Deus. O fato é que sempre encontraremos ao nosso redor pessoas mais inteligentes, mais fortes, mais eloqüentes e mais conhecidas. Mas, Deus nunca usou tais qualidades para medir seus servos. Ele não quer pessoas auto-confiantes, mas pessoas que confiam nele. Se você tende a fugir da responsabilidade porque não é ninguém, está olhando na direção errada. Pare de olhar no espelho para ver suas limitações, e comece a olhar para Deus Todo-Poderoso.

í O que direi?
Deus respondeu à primeira desculpa, e Moisés já ofereceu a segunda. Tudo bem, eu vou lá para falar com o povo sobre a libertação, e else vão perguntar para mim. Vão querer saber o Nome do Deus que me enviou. O que eu direi para else? (3:13).

Os egípcios serviam muitos deuses, e os hebreus foram corrompidos pela influência deles (veja Josué 24:14). Para alguém chegar no meio deles e dizer que "Deus me mandou" seria uma mensagem vaga. Ao mesmo tempo, Deus já tinha se identificado para Moisés (3:6). Da mesma maneira que Deus USA muitas descrições de is nos outros livros da Bíblia, ele usou várias neste capítulo. Além de ser o Deus de Abraão, Isaque, Jacó e do pai de Moisés (3:6), ele se descreve como "Eu Sou o Que Eu Sou" (3:14). Esta descrição, a mesma usada por Jesus em João 8:24 e 58, é uma afirmação da eternidade de Deus. Ele é, e sempre existia. Mais ainda, Deus usou o Nome traduzido na maioria das Bíblias atuais com maiúsculos: S
ENHOR. Este Nome vem do tetragrama, ou Nome de quatro letras (YHWH). Sem vogais, ninguém sabe a pronuncia correta deste Nome (alguns sugerem Javé). Alguns séculos depois de Moisés, os judeus acrescentaram vogais e começaram pronunciar o Nome como "Jeová". A tradução grega do Antigo Testamento USA a palavra "Kyrios" que é traduzida em nossas Bíblias como "Senhor".

Algumas pessoas hoje, incluindo as Testemunhas de Jeová, têm insistido que "Jeová" ou alguma forma semelhante é o único Nome de Deus, e que devemos usar este Nome exclusivamente. Usam passagens como Êxodo 3:15 ("este é o meu Nome eternamente"). Algumas observações na Bíblia mostram claramente que Deus não estava dizendo que os servos dele usassem este Nome como a única maneira de falar sobre Deus. Outras passagens usam diversos nomes ou descrições de Deus, mostrando seu poder, sua eternidade, etc. Um versículo é suficiente para provar o erro da doutrina de "um único nome" para Deus. Amós 5:27 diz: "...diz o S
ENHOR, cujo nome é Deus dos Exércitos". Se o próprio SENHOR  (YHWH) diz que seu nome é Deus (Elohim) dos Exércitos, nenhum homem tem direito de proibir o uso de descrições bíblicas de Deus. Para tirar qualquer dúvida, podemos ver o exemplo de Jesus. Ele citou, várias vezes, a tradução grega do Velho Testamento, que usa a palavra Kyrios (Senhor) no lugar de YHWH. (Por exemplo, ele cita a Septuaginta, que usa a palavra Kyrios, em Marcos 12:11). Mais uma observação nos ajudará: o nome YHWH não aplica somente a Deus Pai, como alguns falsos mestres sugerem. Mateus 3:3 fala sobre o papel de João Batista em preparar o caminho de Jesus, e cita Isaías 40:3. YHWH (Javé ou Jeová) de Isaías 40:3 é Jesus!

A resposta do Senhor a Moisés não foi dada para sugerir que haveria apenas um nome oficial de Deus. O Deus eterno e soberano queria se destacar dos falsos deuses adorados pelos egípcios e até pelos próprios hebreus.

î Eles não crerão
A terceira desculpa de Moisés mostra que ele continua preocupado com sua própria credibilidade. Eles não crerão na minha palavra, ele diz (4:1). Deus reconheceu que esta preocupação era válida, e ofereceu três sinais para confirmar a palavra de Moisés (4:2-9). O bordão se virou em serpente, a mão se tornou leprosa e a água tirada do rio se tornou em sangue. Esta é a primeira vez na Bíblia que Deus concedeu ao homem o poder para realizar milagres. O propósito dos milagres é bem explicado pelo contexto: para confirmar a palavra falada. Quando Elias e Eliseu introduziram a época de profecia do Velho Testamento, realizaram milagres. Quando Jesus e os apóstolos introduziram o evangelho, operaram vários sinais. Os milagres deles tinham o mesmo propósito: "...confirmando a palavra por meio de sinais..." (Marcos 16:20); "... a salvação, ... tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo..." (Hebreus 2:3-4). Quando Deus mandou pessoas com novas revelações, ele confirmou a palavra com sinais milagrosos.

ï Eu nunca fui eloqüente
Moisés ainda não foi convencido (4:10). Mesmo depois de ver os sinais, ele tinha dúvida! Parece que ele não conseguiu entender que o mensageiro não é ninguém. É a mensagem que importa. Sobre esta desculpa de Moisés, podemos observar:
ì Que não tinha base em fato. Estêvão, comentando sobre os primeiros anos da vida de Moisés, disse que ele "foi educado em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras" (Atos 7:22). í Que não tinha importância. Mesmo se Moisés havia esquecido tudo que já aprendeu e não se achava eloqüente, foi o Senhor que fez a boca do homem (4:11). O mesmo Deus que concedeu dons miraculosos para Moisés, o mesmo que fez o universo, o mesmo que escolheu o povo de Israel e o mesmo que apareceu na sarça ardente fez a boca do homem. Deus controlaria a língua de Moisés para comunicar o que ele queria.

Ainda hoje, os homens tendem a supervalorizar a eloqüência. Enfatizam a homilética ao invés de ensinar como estudar e entender as Escrituras. Em muitos púlpitos, a embalagem se tornou mais importante do que o produto.

Paulo recusou valorizar a eloqüência acima do conteúdo: "Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando_vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus" (1 Coríntios 2:1-5).

Observamos a mesma coisa quando estudamos as qualificações de obreiros na igreja (presbíteros, diáconos, etc.). Deus quer homens com conhecimento que mostram obediência nas suas vidas (1 Timóteo 3:1-13; Tito 1:5-9; Atos 6:3). Os homens querem homens que têm sido formados em seminários e institutos de teologia. Vamos seguir a sabedoria de Deus ou a dos homens?

ð Envie aquele que hás de enviar, menos a mim!
Pode ser que as primeiras "desculpas" de Moisés mostraram uma preocupão válida sobre sua própria capacidade. Assim, Deus respondeu a cada objeção que ele ofereceu. Mas, agora, ele ultrapassou o limite. Moisés não tinha mais motivo para recusar, mas ainda não queria assumir a grande responsabilidade de tirar o povo do Egito. Quando Moisés pediu que Deus enviasse outro, o Senhor se irou contra ele. Ele resumiu todas as outras respostas, dizendo que tinha o bordão, que Arão iria com ele, etc. e mandou que Moisés fosse.

É natural se sentir inadequado para as responsabilidades da vida. Muitos homens não se sentem capazes de ser bons maridos e pais. Muitas mulheres não querem assumir a grande responsabilidade de ser donas de casa e mães dedicadas. Muitos cristãos têm medo de ensinar a palavra de Deus, de corrigir um irmão ou de ajudar com os problemas dos outros. Mas, nem sempre dá para fugir! Às vezes, somos as pessoas indicadas para determinados trabalhos. O pai de família tem que protegê-la. A mãe de filhos tem que cuidar deles. Os pastores de igrejas têm que alimentar e proteger as ovelhas.

E se fugirmos da responsabilidade que Deus tem nos dado? A ira do Senhor se acendeu contra Moisés. Será que ele ficará contente conosco, se recusamos fazer a vontade dele?

Conclusão: Moisés obedeceu!

Depois de todas as desculpas, Moisés fez o que Deus pediu. Ele era um servo fiel na casa do Senhor (Hebreus 3:5), e ainda é um bom exemplo para nós. Às vezes, somos tentados fugir de alguma responsabilidade. Daqui para frente, vamos procurar ser servos fiéis, fazendo tudo que Deus pede de nós. O poder não está em nós, porque realmente não somos ninguém. O poder está em Deus. Precisamos aprender o que Paulo aprendeu: "tudo posso naquele que me fortalece" (Filipenses 4:13).

sábado, 5 de julho de 2008

Liberdade com responsabilidade: Ética Cristã nos escritos de São Paulo*

*Por Pe. Darci Luiz Marin, ssp
Sacerdote paulino, mestre em teologia moral pela Academia Alfonsiana de Roma.

São Paulo lança as bases para a ética da vida cristã nascente. No alvorecer do cristianismo, a originalidade da proposta desenvolvida pelo apóstolo Paulo consistiu em aliar a liberdade à responsabilidade: "tudo me é permitido, mas nem tudo convém" (1Cor 6,12).

Todos os seres humanos prezam a liberdade, tendo sido criados para ela. Para não diminui-la ou até destruí-la, no entanto, requer-se que se viva com responsabilidade. Essa foi a grande intuição de São Paulo, defendida em suas cartas dirigidas às primeiras comunidades cristãs.

Em tempos mais recentes, o Vaticano II resgatou essa intuição, sobretudo, com a Gaudium et Spes, atribuindo grande valor às consciências das pessoas: "a consciência é o sacrário das pessoas" (GS 16).

Permeando a ética de São Paulo é possível encontrar um grande desafio lançado a todo ser humano: saber discernir quais são os melhores caminhos a serem percorridos no dia-a-dia. É assim que a pessoa se realiza e edifica o mundo à sua volta.

Em tempos de pensamento fraco e de relativismo, onde até o amor (síntese da mensagem cristã) é tido como líquido, é mais do que oportuno revisitar as intuições éticas que nos foram legadas pelo apóstolo São Paulo.

1. Passagens éticas relevantes nas cartas de Paulo

O mais antigo escrito do Novo Testamento, 1Tessalonicenses é uma carta de exortação ética. O apóstolo Paulo lembra que a vida cristã constitui-se em espera ativa do Senhor. Através de linguagem bastante emotiva, São Paulo lembra seus laços de fraternidade para com os que abraçaram a mensagem de Jesus Cristo, recomendando-lhes a não abandonar o que haviam aprendido dele. Tal recomendação era endereçada a cristãos que viviam em ambiente bastante laxismo ético, de modo particular no que se referia à vida sexual. Ora, a adesão à mensagem de Jesus Cristo implica em compreender de maneira nova a si mesmo, aos outros e às relações humanas. Há, nessa passagem de 1 Tessalonicenses, defesa ao respeito do próprio corpo e ao corpo das outras pessoas (cf. 1Ts 4).

Outra carta que traz precioso ensinamento, em ótica cristã, é 1Coríntios: "Quando lemos essa carta, vemos logo que Paulo usa algumas das mesmas espécies de apelos morais que em 1Ts. A maneira de ele introduzir esses apelos mostra que as semelhanças não nascem só dos hábitos do mesmo autor, mas também do fato de Paulo e seus colaboradores ensinarem crenças e normas semelhantes a novos cristãos nos dois lugares" (1).

Os destinatários de 1Cor encontram nessa carta importantes balizas éticas de como agir em situações concretas. Paulo valoriza a liberdade, mas aconselha a prudência: "tomai cuidado para que a vossa liberdade não se torne ocasião de queda para os fracos" (1Cor 8,9). A recomendação é a de que se mantenha sempre a sadia humildade perante as outras pessoas. Liberdade, sim! Responsabilidade, também!

Nessa carta encontramos grande incentivo ético à generosidade: "Ninguém procure satisfazer seus próprios interesses, mas aos do próximo" (1Cor 10,24). Essa linha de conduta foi bastante sublinhada em encontros do Episcopado Latino-americano. Bastaria lembrar, por exemplo, Puebla 31-39 (feições concretíssimas, nas quais deveríamos reconhecer as feições sofredoras de Cristo), Santo Domingo 178 (descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor), Aparecida 407-430 (rostos sofredores que doem em nós).

Nas origens da teologia cristã deparamos com o apóstolo Paulo, que tem a grande lucidez de traduzir e testemunhar em concreto o cerne da mensagem de Jesus Cristo: "este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (cf. Jo 15,12). No pedido à generosidade presente em 1Cor temos a tradução concreta do mandamento maior deixado por Jesus.

Outra carta de Paulo, verdadeiro hino de louvor à liberdade humana, é endereçada aos Gálatas: "É para a liberdade que Cristo nos libertou" (Gl 5,1). A liberdade é um dos elementos éticos fundamentais do ser humano. São Paulo acentua e valoriza essa dimensão constitutiva do ser humano. Por outro lado, chama atenção que determinados comportamentos desencadeados pelo próprio ser humano podem torná-lo escravo. Alerta, então, para a vigilância. Somente quem é vigilante mantém sólida sua liberdade e nela cresce.

2. Fazer o que convém

O apóstolo Paulo codifica a originalidade da mensagem ética de Jesus destinada particularmente aos cristãos -- mas também a todas as pessoas de boa vontade: "tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" (1Cor 6,12; 10,23). No contexto daquilo que Paulo escreve é possível deduzir o que convém, especialmente aos cristãos: tudo o que congrega, edifica e tece a vida das pessoas. Agir desse modo é a recomendação!

É preciso, então, discernimento. O texto capital é o seguinte: "E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, e fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito" (Rm 12,2). A esse respeito, o grande mestre da teologia moral contemporânea, Bernhard Häring afirmou: "Para Paulo, a partir do momento em que consentiu em viver segundo as exigências do batismo, o crente está capacitado a descobrir por si mesmo a vontade de Deus no cotidiano de sua vida. E assim chegamos a um dos filões éticos mais importantes de Paulo, o tema do discernimento... O cristão tem de descobrir e realizar aquilo que a vontade de Deus lhe propõe no aqui e agora da situação" (2).

Qual é a encruzilhada para assumir esse novo estilo de vida, por parte de quem abraça a fé cristã?

Isso se dá por ocasião do sacramento do batismo. Quem se dispõe a assumir o sacramento do batismo está se comprometendo a percorrer os caminhos propostos por Jesus e a abraçar fielmente o seu evangelho (cf. Rm 6,1-12). O indicativo proposto por Jesus, passa a ser um imperativo para o batizado. "Pela fé e o batismo, o crente se incorpora a Cristo, mas o cristão tem de se apropriar dessa realidade através de sua obediência ativa. Assim, a justificação batismal acarreta conseqüências éticas reais para a vida do crente" (3).

3. Importância da consciência

Ao longo do século passado, não obstante as duas grandes guerras mundiais, houve um grande desenvolvimento do mundo moderno. Esse contexto trouxe estímulo à corrente ética personalista, defensora dos indivíduos. Também a teologia moral deixou-se alcançar por esse modo de pensar. Com a convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II por parte de João XXIII, ao final dos anos 50, tudo estava posto para que também a instituição oficial da Igreja católica desse uma resposta em consonância com "os sinais dos tempos".

Tal resposta deu-se com a Gaudium et Spes. Há passagem relevante, nesse sentido, que afirma: "A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Graças à consciência, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do próximo..." (GS 16). Vê-se aí a enorme importância dada pelo Concílio Vaticano II às decisões individuais das pessoas (4). Até então, o que trazia tranqüilidade moral às pessoas de fé era o seguimento à normativa. O importante era "enquadrar-se" nas leis. O que vigorava era a heteronomia moral. De agora em diante, as leis passam a funcionar como importantes subsídios, mas nunca como elementos decisórios às pessoas. A última palavra é sempre dada pela pessoa, em consonância com seu contexto vital, seu desenvolvimento psíquico e sua situação particular. O que passa a vigorar é a defesa de autonomia moral.

E Gaudium et Spes prossegue: "... Não raro, porém, acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito de pecar" (GS 16). Admite-se claramente que o julgamento moral de uma pessoa, no ponto de vista teológico, não pode ser feito a todos do mesmo modo. Cada um tem seu próprio estágio de vida, que deve ser respeitado. Por outro lado, há também a lembrança de que todos os seres humanos têm o dever de se aprofundar ao longo de toda a vida para aperfeiçoar a voz de sua própria consciência. Nada de acomodação! Nessa decisão conciliar, renova-se a essência da mensagem ética de São Paulo: liberdade com responsabilidade! O Vaticano II atualiza o que o apóstolo Paulo recomendou em Romanos 12,2.

E quem não adere à fé cristã pode ser salvo?

Paulo tem palavras de esperança também a essa pessoas: "Os pagãos não têm Lei. Mas, embora não a tenham, se eles fazem espontaneamente o que a Lei manda, eles próprios são Lei para si mesmos. Eles assim mostram que os preceitos da Lei estão escritos em seus corações" (Rm 2,14s). A proposta de Jesus está aberta a todos! O que importa moralmente é agir segundo a voz da própria consciência, tendo sempre presente que enquanto se vive há a obrigação de aperfeiçoar essa voz, em consonância com o querer de Deus para o presente histórico de cada pessoa.

4. Compromisso com o outro

A teologia e a pastoral da América Latina das últimas décadas abriram novas perspectivas também para a ética fundamental. Do personalismo defensor da autonomia do ser humano, passou-se a defender a solidariedade compassiva. Diante de tanto sofrimento e carência de milhões de seres humanos, levantou-se o grito profético de muitas pessoas.

O apóstolo Paulo estimula essa proposta de sensibilidade compassiva e atuante perante o rosto do outro: "Ainda que eu falasse línguas, a dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como bronze que soa... Agora, portanto, permanecem fé, esperança e caridade. A maior delas, porém, é a caridade" (1Cor 13, 1;13).

Os ventos eclesiais pelos quais passamos não são nada animadores. Prefere-se percorrer caminhos mais suaves, acompanhados de letras de melodias menos transformadoras das desigualdades existentes. Em parte, isso se deve também à cultura das imagens na qual nos encontramos, "que trocou a reflexão pela emoção, o espírito crítico pelo espetáculo animado" (5). Essa cultura estimula o individualismo, desarticulando iniciativas éticas dos que procuram se organizar para atender às necessidades dos outros. De qualquer modo, sempre há quem continue a acreditar no valor permanente da caridade compassiva.

Em meio ao crepúsculo do dever de um mundo hiperindividualista (6), também há lugar para iniciativas de pessoas mais ousadas. "Ousar é mover-se e agir com destemor. Ousar é desprender-se do lugar onde se está. Ousar é desamarrar-se, é lançar-se, é atirar-se a um projeto. É atitude corajosa, é ímpeto arriscado... Ousar é promover a dignidade da pessoa humana que está sendo violentada pela crueldade e envergonhada pela miséria. Ousar é abrir clareiras que permitem enxergar horizontes fecundos para o futuro da humanidade" (7).

Essa perspectiva da ousadia de abrir-se para a alteridade, exige desprendimento: "O caráter misterioso da experiência de Deus é um importante elemento de seu poder de sedução... Essa sedução 'altera' radicalmente o homem: expropriando-o da segurança de todas as normalidades pessoais ou sociais, da possibilidade de prever o futuro e planejar o presente, arrastando-o para algo que parece ser loucura insana aos olhos do mundo... Ao viver e sofrer essa entrega e suas conseqüências, no entanto, o homem percebe que o que é loucura para o mundo é sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,18ss)... é perceber, como o apaixonado Paulo de Tarso, ter 'perdido' até mesmo a própria identidade para reencontrá-la, renovada, cristificada, no rosto de amor que o possui e o habita por inteiro" (8).

5. Tempo de indiferentismo

Nos últimos anos, alastra-se mundo afora determinada cultura defensora do indiferentismo. Livros que defendem o ateísmo são bastante veiculados. Se à nossa volta a imensa maioria das pessoas afirmam crer, na prática vive-se infantilismo na fé. Essa postura reflete-se também na moral cristã. Declarações oficiais da Igreja são relativizadas ou ignoradas até mesmo por pessoas que têm prática religiosa com certa regularidade. A superficialidade religiosa reflete-se na superficialidade dos comportamentos morais.

Em instâncias que se auto-denominam científicas, há defesa de mão única à ciência. Somente ela bastaria para a vida e o progresso do ser humano. Essa postura já conquistou muitos corações e mentes, mas sem deixá-los satisfeitos.

É a fé em Deus que humaniza o ser humano. Lançar bases em volta desse princípio ajuda o ser humano a ter esperanças num mundo melhor para mais gente. Uma sociedade só é sólida se os membros que a formam forem portadores de valores sólidos. Para isso é necessária a preocupação com os valores éticos que oxigenam a vida da sociedade.

Mesmo em meio a uma cultura que propaga o indiferentismo, é possível construir pontes de resistência. As propostas que nos vêm do apóstolo Paulo são importantes alavancas para o fortalecimento da caminhada. Partindo de tais propostas torna-se menos árdua a missão de testemunhar a Boa Nova de Jesus Cristo no hoje da história. Que este ano paulino nos anime a assumir esse desafio!

Notas:

(1) Meeks, Wayne, O mundo moral dos primeiros cristãos, São Paulo, Paulus, 1996, p. 120.
(2) Häring, B., Práxis Cristã (moral fundamental), Vol. 1, São Paulo, Paulus, 1983, p. 51.
(3) Idem, p. 52s.
(4) Cf. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (Série Documentos da Igreja -- Vol. 1), São Paulo, Paulus, 2001, p. 556.
(5) Lipovetsky, Gilles, A sociedade da decepção, Barueri (SP), Manole, 2007, p. 57.
(6) Expressões defendidas por Lipovetsky, G., em várias de suas obras, entre as quais: Le crépuscule du devoir, Paris, Gallimard, 1992; O império do efêmero, São Paulo, Companhia das Letras, 1989; Os tempos hipermodernos, São Paulo, Barcarolla, 2004; A era do vazio, Barueri(SP), Manole, 2006.
(7) Arduini, Juvenal, Antropologia -- Ousar para reinventar a humanidade, São Paulo, Paulus, 2002, p. 40.
(8) Bingemer, Maria Clara L., Alteridade e vulnerabilidade, São Paulo, Loyola, 1993, pp. 82; 84. Ver também M. Bolda da Silva, Rosto e Alteridade -- pressupostos de ética comunitária, São Paulo, Paulus, 1995.

Adital

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