terça-feira, 19 de agosto de 2014

O líder e os traços vitais de um relacionamento saudável

Oswaldo Luiz Gomes Jacob

Há muita gente na liderança em nossas igrejas com um grau enorme de dificuldade na área de relacionamento.
Seja por causa da timidez; seja em função de traumas do passado; com uma porção de preconceitos e atitudes egoístas; com um temperamento explosivo, pavio curto, sem o mínimo de paciência; gente que critica negativamente, que possui uma postura ácida; pessoas com uma insatisfação crônica; gente que murmura, pragueja; que age com falsidade, dissimulação, relacionando-se hipocritamente.
Todas essas tendências e práticas pertencem à natureza de Adão, que herdamos em nossa constituição humana, pecaminosa e perversa. Jeremias trouxe da parte de Deus o seguinte diagnóstico do nosso coração ou da nossa natureza: "O coração é enganoso e incurável, mais que todas as coisas; quem pode conhecê-lo? Eu, o Senhor, examino a mente e provo o coração, para retribuir a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações" (Jr 17.9,10).
Tiago, inspirado pelo Espírito Santo, líder da Igreja em Jerusalém, nos dá uma exortação preciosa: "Meus amados irmãos, tende certeza disto: todo homem deve estar pronto para ouvir, ser tardio para falar e tardio para se irar. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus" (Tg 1.19,20). A confrontação do apóstolo aqui é muito eficaz. Funciona mesmo. Creio que ele aprendeu a lidar melhor com as pessoas no exercício da sua liderança. Ele coloca muito bem aqui os três traços vitais de um relacionamento saudável: Amor, humildade e mansidão. Então, o amor tem disposição para ouvir o próximo; a humildade sabe esperar o momento para falar e a mansidão não reage negativamente. Jesus era assim. Em todo o Seu riquíssimo ministério, sendo Ele o nosso modelo de liderança, teve atitudes e atos marcados pelo amor, pela humildade e pela mansidão. Deixou muito claro que o Seu amor era incomparável (João 15.13,14) e que devemos aprender dEle que é manso e humilde de coração (Mt 11.29).
O amor, reparte conosco o apóstolo Paulo, "tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta" (1 Co 13.4-8). O amor supera preconceitos, diferenças, temperamentos, egoísmo, timidez e quaisquer outros sentimentos que não estão em Cristo Jesus. O amor supera todas as barreiras e fossos estabelecidos pelo homem. O amor perdoa, abençoa, encoraja, compreende, aceita e coopera. No amor não há extratos, níveis sociais e econômicos. A linguagem do amor é a da aceitação, do perdão e da festa. O amor ouve, espera e descansa nAquele que tudo pode (Fil 4.13). No amor não há medo. A linguagem do amor é a da coragem, franqueza, legitimidade e coerência.

No verdadeiro amor não há máscaras. O amor olha nos olhos e diz a verdade pura e simples. A humildade, por sua vez, significa que reconheço a minha pequenez, minhas limitações como líder e que sou pó. Como dizia o padre Antonio Vieira, somos pó em pé. Fomos alcançados pela graça. Perdoados por um pecado que não podíamos cobrir e resgatar. Jesus nos libertou a todos pelo Seu sangue derramado na cruz. O Seu poder se aperfeiçoa em nossa fraqueza, debilidade. A humildade é o oposto da arrogância. Devemos reconhecer sempre as nossas mazelas. Jesus foi humilde de coração (Mt 11.29). Por isso, a humildade sabe ouvir, esperar e descansar. Na humildade considero o outro superior a mim mesmo. A humildade é uma grande benção de Deus nos relacionamentos. Esta foi a orientação sábia de Paulo aos irmãos em Filipos (2.5-8). A humildade é a linguagem da igualdade. Todos nos encontramos no mesmo nível - o da cruz.
A mansidão é o terceiro traço vital nos relacionamentos de um líder. Ser manso é submeter todos os meus direitos ao Senhor. Depositar a minha pretensa reputação aos Seus pés. Jesus sempre foi manso. A mansidão é uma atitude da pessoa regenerada, salva pela graça de Deus em Cristo Jesus. Ela nos aponta para a não-reação negativa, para o caminhar a segunda milha, para o sofrer em silêncio e abençoar os que nos perseguem. Significa vivermos em paz com os outros (Rm 12.18). Então, a mansidão aprende a ouvir, esperar e descansar. Estevão, diante do sofrimento, foi manso. Ele possuía o caráter de Cristo, o caráter do Cordeiro que foi para o matadouro mudo, sem abrir a Sua boca. O profeta Isaías fala claramente acerca desta verdade: "Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a boca; como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como ovelha muda diante dos seus tosquiadores, ele não abriu a boca" (Is 53.7).
Que esses traços vitais estejam em nós como líderes e nos nossos relacionamentos. Que o Senhor Jesus Cristo domine completamente as nossas relações a partir do nosso coração. Que a Sua paz seja o árbitro em nossos corações e sejamos agradecidos (Col 3.15). Louvemos a Deus, dignifiquemos o Seu grandioso nome, pelos nossos irmãos aos quais servimos na liderança. Não respondamos ao agravo. Reconheçamos as nossas profundas limitações, falhas e os nossos defeitos. Então, sejamos prontos para ouvir; tardios para falar e tardios para se irar. A justiça de Deus vai agir na vida dos líderes que vivem o amor, a humildade e a mansidão à semelhança de Jesus, nosso Salvador e Senhor.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com

A Ética do Reino de Deus

Rodolfo Garcia Montosa

Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças. Ame os outros como você ama a você mesmo.
(Marcos 12.28-34).

Todos os dias tomamos diversas decisões em nossas vidas. Toda decisão por uma determinada opção em detrimento de outra acontece com base em nosso conjunto de crenças e valores do que pensamos ser certo, ou errado. A isso chamamos de ética. A palavra “ética” vem do grego ethos que significa modo de ser, caráter, comportamento e inclui hábitos, costumes e práticas. A ética não nos faz entrar no reino de Deus, mas o reino apresenta uma ética própria e bem definida. Dentre muitos padrões éticos exigidos na Bíblia, Jesus apresenta um resumo de três principais pilares da ética do reino de Deus.
O primeiro pilar diz respeito à ética para com Deus. Aqui está o comportamento mais importante apresentado por Jesus recitando o Pentateuco (Dt 6.5). O comportamento citado é de amarmos o Senhor com tudo o que temos e somos em primeiro lugar. De fato, o temor ao Senhor é o princípio de toda a sabedoria para se viver (Jó 28.28; Sl 111.10; 112.1; Pv 1.7; 9.10; Ec 12.13). O comportamento correto diante de Deus precede e dirige nosso comportamento perante tudo o que ele criou, quer sejam pessoas ou toda a natureza.
Outro importante pilar diz respeito à ética para comigo mesmo. De um lado, vemos muitas pessoas que não se amam, não se cuidam, agridem-se a si mesmas com palavras ou fisicamente. Em extremos, recusam cuidarem de si mesmas até nos aspectos mais elementares de higiene e aparência. Por outro lado, vemos muitas pessoas que se cuidam com tanta intensidade como se fossem os únicos seres humanos sobre a face da terra. Vão ao extremo da vaidade e da busca insaciável da estética e do bem estar. Mas, amor próprio, segundo a ética do Reino, deve ser equilibrado. O primeiro fundamento para o equilíbrio do amor próprio está na compreensão e aceitação do grande amor que o Pai Celestial tem por mim (Jo 15.16; 1 Jo 4.10 e 19). Quando entendemos a profundidade do amor do Senhor por nós somos libertos de todo desamor próprio. O outro fundamento é que devo amar a mim mesmo na mesma intensidade que amo ao próximo. Quando compreendemos que a ética do reino inclui o outro no mesmo nível que o amor próprio, somos libertos de uma vida egoísta, hedonista e utilitária em relação aos outros.
Por último, temos a ética para com o outro. As relações sociais são muito desafiadoras para o comportamento ético. De um lado, implica em não fazer ao outro o que não gostaríamos que o outro fizesse conosco. Por outro lado, significafazer ao outro o que queremos que o outro faça a nós. Alguns verbos são tão poderosos quanto desafiadores: perdoar, ouvir, tolerar, apreciar, suportar, abençoar, respeitar, submeter-se, compartilhar, dentre muitos outros. Na verdade, inúmeros são os textos bíblicos que trazem o padrão ético do reino de Deus para nosso comportamento em relação às outras pessoas (At 4.32; Rm 15.1; 1 Co 13.7; Gl 6.2; Ef 4.2,3; 5.1-2; Fp 2.3; 1 Ts 5.14; 2 Tm 2.24-26; Tt 3.2).
O padrão ético do reino de Deus pode ser visto e estudado na vida de Jesus. Não só falou, mas viveu integralmente o padrão ético do reino. Uma pergunta muito simples que poderia nos ajudar a encontrar o comportamento ideal em cada circunstância, segundo a ética do reino de Deus, seria: em meu lugar que faria Jesus?

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site www.institutojetro.com

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Chamados para sermos íntegros, não perfeitos!


José Roberto Cristofani

O tema da "perfeição cristã" foi amplamente discutido por John Wesley.
Em um longo tratado Wesley apresentou a tese, as questões dela derivadas e as respostas às objeções feitas sobre o assunto. Basicamente, Wesley defendeu a ideia de que o cristão pode e deve buscar a perfeição pelo processo de santificação. Ele cria que se uma pessoa pudesse ficar um minuto sem pecar, ela poderia ficar dois, depois três e assim por diante. Ressalto, entretanto, que a questão, como apresentada por Wesley, é bem mais complexa e profunda do que apresentada aqui. Por hora basta colocá-la assim.
Muitos aspectos desta ideia wesleyana ainda são correntes nos dias de hoje no meio cristão. Bem como muitos questionamentos sobre se é possível nos tornarmos perfeitos ou não. O debate prossegue.
Para o nosso propósito aqui, é suficiente destacar o estreito vínculo que foi estabelecido entre "perfeição" e "pecado". Este vínculo reduziu a questão ao seu aspecto teológico, apenas. Em tese, ser perfeito é estar sem pecado. Será mesmo possível alguém chegar a tal estado de "perfeição"? A discussão não tem fim.

Retradução da palavra perfeito
"Completo serás para com o Senhor teu Deus". Dt 18:13. Ao retraduzir o texto de Deuteronômio 18.13 encontro pistas valiosas para uma nova abordagem do texto. A retradução deste versículo abre uma janela de novas possibilidades para iluminar um caminho possível. Vejamos:

"Completo serás para com o Senhor teu Deus"
A diferença é enorme. Entre "perfeito" (que não tem defeitos; ideal; impecável) e "completo" (que contém todos os elementos necessários; inteiro, acabado) existe uma grande diferença, mesmo em português.
Outras traduções possíveis para a palavra hebraica (tamim) usada no texto de Deuteronômio 18.13 seguem abaixo:
You must walk blamelessly before the Lord your God. (Você deve andar sem culpa diante do Senhor seu Deus.) The Living Bible
You must remain completely loyal to the Lord your God. (Você deve permanecer completamente leal ao Senhor seu Deus.) NRSV
Serás íntegro para con Jehovah tu Dios. (Será íntegro para com Jeová teu Deus.) RVA
Sé íntegro en tu trato con el Señor, tu Dios; (Seja íntegro em seu trato com o Senhor teu Deus;) Biblia del Peregrino
You must be "wholehearted" with the Lord your God. (Você deve ser "completa e sinceramente devotado, determinado, entusiasmado, marcado pelo completo compromisso, livre de toda reserva e hesitação" com o Senhor seu Deus.) Tanakh
O foco dessas traduções do vocábulo "tamim" gira ao redor do campo semântico de: lealdade, integridade, sinceridade. Ademais, a mesma palavra "tamim" é usada para descrever anos completos (Gênesis 47.18); sacrifícios de animais saudáveis (Levítico 22.21-22); inteireza do galho da videira (Ezequiel 15.5); discurso verdadeiro (Amós 5.10); construções terminadas (1 Reis 6.22); cumprimento da destruição do povo (Números 14.33).
Como podemos ver, os indicativos do uso deste termo apontam sempre para a ideia de completude, algo inteiro, aquilo que tem todas as partes e nada falta. Sendo utilizado para diversos âmbitos da vida, tais como: o calendário, as práticas religiosas, os objetos, a comunicação, o trabalho, o conflito etc.
Com esta compreensão em mente, podemos entender melhor como algumas pessoas no Primeiro Testamento foram consideradas "perfeitas", isto é, "completas". São exemplos: Noé (Gênesis 6.9 - Eis a história de Noé. Noé era homem justo (tsadiq) e íntegro (tamim) entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.); Abrão (Gênesis 17.1 - Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito (tamim).); Davi (2 Samuel 22.24 - Também fui inculpável (tamim) para com ele e me guardei da iniquidade.).
Também temos Jó que é chamado de "íntegro" (Jó 1.1 - Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro (tam) e reto, temente a Deus e que se desviava do mal.). Obviamente que aqui é usada outra palavra "tam". Mas ela é sinônima de "tamim" e "tom" (que significa "integridade").
É importante observar que tanto Noé como Abrão, Davi e Jó, entre outros, não eram "perfeitos" em qualquer sentido. Porém, foram "completos" em seus relacionamentos com o Senhor e com as pessoas da sua geração.
Portanto, traduzo "tamim" em Deuteronômio 18.13 por "Completo" resgatando o sentido de integralidade do ser humano. Recolocando, assim, a exigência bíblica dentro da sua semântica original, a saber, que a pessoa deve relacionar-se com o Senhor de forma íntegra.
"Sede vós completos como completo é o vosso Pai celeste" Mt 5:48
A versão Almeida Revista e Atualizada traduz o texto de Mateus 5.48 da seguinte maneira:
"Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste."
O vocábulo em questão é "teleios", traduzido, aqui, por "perfeito". Opção adotada pela grande maioria das versões em diversas línguas. Por exemplo:
Vós, portanto, sereis perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste. TEB
Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês. NVI
Sed pues perfectos como vuestro Padre del cielo es perfecto. (Sede, pois, perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito. Biblia del Peregrino
A palavra "teleios" significa algo completo, indivisível. Aquilo que tem a totalidade como seu componente principal. É o contrário de parcial ou de limitado. É a medida das coisas cheias, completas, inteiras.
Quando usamos o termo "teleios" para pessoas, queremos indicar que a mesma é madura, desenvolvida. Sendo contrária a imaturidade, a palavra é usada para descrever pessoas espiritualmente maduras. Desenvolvidas inteiramente, completamente preparadas e prontas para relacionamentos e ações responsáveis. O Segundo Testamento faz uso de "teleios" em diversas ocasiões. As passagens mais relevantes, para o nosso propósito, são:
Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito (teleios), vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. (Mateus 19.21)
Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados (teleios); não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; (1 Coríntios 2.6)
Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos (teleios). (1 Coríntios 14.20)
Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita (teleios) varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Efésios 4.13)
Saúda-vos Epafras, que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós nas orações, para que vos conserveis perfeitos (teleios) e plenamente convictos em toda a vontade de Deus. (Colossenses 4.12)
Mas o alimento sólido é para os adultos (teleios), para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal. (Hebreus 5:14)
Ora, a perseverança deve ter ação completa (teleios), para que sejais perfeitos (teleios) e íntegros (holokleros), em nada deficientes. (Tiago 1.4). Aqui "íntegros" traduz "holokleros", sinônimo de "teleios".
Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito (teleios) varão, capaz de refrear também todo o corpo. (Tiago 3.2)
Como podemos ver pelos exemplos transcritos, o campo semântico de "teleios" é bastante similar ao de "tamim". Fala-se, nos textos, sobre completude, indivisibilidade, integridade, inteireza etc.
Assim, ao traduzir Deuteronômio 18.13 por "Completo serás para com o Senhor teu Deus" e Mateus 5.48 por "Sedes completos como é completo o vosso Pai celeste.", quero expressar a compreensão de que não se trata de "perfeição cristã" ou de qualquer outra espécie de perfeição. Mas expressa a integralidade do ser humano diante de Deus e de seus semelhantes.
Portanto, o que os textos bíblicos enfatizam é um estado permanente de desenvolvimento e aprendizagem dos valores do Reino de Deus e da busca pela maturidade pessoal íntegra.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com

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