sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Liderança serva: A chave da grandeza autêntica

"Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim. ... Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-se da ceia, tirou os vestidos, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. (João 13:1, 3-5)
No clímax do seu ministério com os seus discípulos, num dos momentos finais, sabendo que esta seria a última oportunidade de marcar as vidas daqueles que iriam levar a Sua mensagem para a frente, Jesus podia ter optado por dar um discurso inspirativo—motivá-los a vencer, convencê-los que a vitória era mesmo alcançável. Podia ter dado os últimos conselhos aos seguidores, uma lista de prioridades estratégicas para o futuro do movimento. Podia ter indicado um sucessor na liderança, ou pelo menos definido um processo de sucessão para que nunca houvesse uma questão acerca de quem é que devia ficar à frente dos outros. Mas nenhuma destas coisas Jesus fez. Despiu-se, ajoelhou-se, e lavou os pés dos seus discípulos.
O que mais me incomoda nesta cena é o contraste com o impulso normal dos seguidores de Jesus hoje em dia. Esta lição tão profunda comunicada através de um acto tão simples, aponta para uma igreja que é, na sua essência e na sua prática, uma comunidade de servos, liderada por servos e orientada pelo Espírito de Deus. Em todo o seu ensino sobre o assunto, Jesus só falou da liderança em termos do serviço, do sacrifício e até de morte. Hoje em dia, quando falamos de liderança, a tendência é para falarmos em termos de organogramas, da gestão de recursos, da definição de prioridades e objectivos, da motivação dos seguidores e da coordenação do trabalho. A questão mais urgente é, "quem é o responsável?" É dizer "quem é que manda?" E o que mais queremos evitar é um "vazio de poder," uma falta de um "líder" reconhecido para "dirigir" a obra. Embora tenhamos aprendido a conviver com o desafio da imagem de Jesus a lavar os pés aos discípulos, a capacidade de seguir mesmo o exemplo de Jesus, geralmente, ainda nos escapa. Conciliamos o padrão de Jesus com a prática do nosso tempo e das nossas igrejas, considerando este acto de Jesus um símbolo, um paradoxo, um "ideal" a manter em mente, mas não muito prático na realidade. Mas a pergunta que nos devia incomodar é, será que Jesus, nesta última noite com os seus discípulos, queria apenas dar-lhes uma imagem bonita de um ideal não alcançável? E se Ele pretendesse mesmo que fôssemos servos?
Como é que chegámos até aqui, ao que somos hoje? Há um ano e meio atrás recebemos aqui o missionário e autor Bill Beckham que nos deu uma análise histórica da situação. Reafirmou que o momento de maior desvio na história do Cristianismo foi na "Síntese de Constantino," quando o Cristianismo passou do estatuto de "seita fora-da-lei" para o estatuto de "religião oficial."[1] Naquela altura, a igreja deixou de ser uma comunidade, e passou a ser uma instituição. A organização da igreja passou da simplicidade flexível e adaptável a uma hierarquia paralela á estrutura do império Romano. A função da liderança passou do "pastorear o rebanho" à "gestão da instituição." Seguiram-se também muitos erros doutrinários acerca da natureza da fé e da salvação. Mas os erros doutrinários foram essencialmente ajustes nas crenças para acomodar a nova natureza institucional e hierárquica da igreja. Na época da Reforma do Século XVI, recuperámos muitas das doutrinas que tinham sido perdidas ou corrompidas ao longo dos séculos, mas, em grande medida, mantiveram-se as estruturas e as abordagens à liderança eclesiástica. Nós, os Baptistas, que nos consideramos descendentes (ou pelo menos primos) do ramo mais radical da Reforma, gostaríamos de reclamar que, na nossa reforma, fomos para além dos Protestantes mais tradicionais para uma eclesiologia mais perto da igreja primitiva. Mas, de facto, isso não se verifica ao longo dos anos. A nossa estrutura e estilo de liderança normalmente reflecte mais o âmbito cultural e político em que nos encontramos do que qualquer modelo bíblico. Tendemos a ir buscar as nossas dicas para a gestão da igreja ao mundo da gestão de empresas, mais do que à Bíblia.
Mas mesmo este recurso à gestão empresarial hoje em dia é capaz de nos dirigir novamente ao exemplo de Jesus. Em 1977, Robert K. Greenleaf, um perito na gestão de empresas, publicou uma colectânea de artigos num livro com o título, "Liderança Serva". A conclusão de Greenleaf, fruto da sua reflexão e observação ao fim de uma carreira como consultor organizacional numa das maiores empresas dos Estados Unidos, foi que há uma mudança cultural a acontecer que se verifica nas atitudes e opiniões acerca da autoridade e do poder. Nesta nova ética, a única autoridade que merece a submissão das pessoas é a autoridade reconhecida livremente em resposta à estatura de servo do líder. Aqueles que aceitam este princípio não aceitarão facilmente a autoridade de instituições existentes, diz Greenleaf, mas, ao contrário, responderão apenas àqueles indivíduos eleitos como líderes porque já se provaram como servos. A essência da liderança, segundo Greenleaf, é o desejo de servir aos outros e a uma causa maior que nós próprios.[2]
Dificilmente se pode medir a influência do Greenleaf e das suas ideias no campo da gestão ao longo dos últimos 25 anos. Muitos dos autores mais reconhecidos nesta área consideram-se discípulos do Greenleaf. Ele continua a ser citado, e mesmo quando não é citado, o conceito da liderança serva surge. Num estudo mais empírico, o investigador Jim Collins analisou o funcionamento de 25 empresas que ultrapassaram dramaticamente o empenho da competição nos seus respectivos mercados. A primeira característica em comum que Collins e a sua equipa reconheceram foi o que ele chama "Liderança do Nível 5".[3] Cada uma destas empresas bem sucedidas foi liderada por uma pessoa cuja personalidade combinava uma força extraordinária de vontade profissional e uma qualidade extraordinária de humildade. Estes líderes investem a energia no sucesso dos outros e do empreendimento, acima do sucesso próprio—líderes servos!
Steven Covey, autor do livro "7 Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes," e um dos autores mais influentes no mundo empresarial, comentou no prefácio da edição do 25º aniversário do Greenleaf que o movimento a favor da liderança serva em todo o mundo é o resultado de duas forças poderosas. Primeiro, a globalização dos mercados e da tecnologia cria um ambiente que exige um alto nível de qualidade a um custo reduzido. Estes só podem ser atingidos através da delegação de poder e autoridade nas empresas, o que exige confiança e serviço da parte dos líderes. A segunda força, diz Covey, é a nova descoberta de princípios universais e eternos, e do valor da autoridade moral:
A autoridade moral ganha influência através da aplicação de princípios. O domínio moral atinge-se através do serviço e do contributo. O poder e supremacia moral surgem da humildade, quando o maior de todos se torna o servo de todos. A autoridade moral atinge-se através do sacrifício.[4]
Autores como Covey e Greenleaf utilizam os princípios e, por vezes, até as palavras de Jesus para falar sobre a liderança eficaz no mundo actual. James Hunter, outro autor e consultor de empresas até afirma, num livro secular e dirigido a gestores de empresas, que Jesus foi o líder mais eficaz da história. Baseia a sua conclusão no facto de que, embora houvessem outros líderes contemporâneos com muito mais poder político, a influência de Jesus ultrapassa qualquer um deles, e qualquer outro líder da história. Dois mil milhões de pessoas se consideram Cristãos, dois dos nossos principais feriados (natal e páscoa) comemoram eventos na vida dele e, dois mil anos depois da sua vida, o nosso calendário ainda conta os anos desde o seu nascimento. Se a liderança é a influência, diz Hunter, não há nenhum líder da história que se aproxime a Jesus.[5]
Não sei como o irmão reage, mas quando eu vejo este tipo de afirmações a sair do mundo secular e empresarial, levantam-se várias questões incómodas na minha mente:
Se o sector da nossa sociedade mais virado para o lucro e a competição brutal e fria está a descobrir o poder verdadeiro da liderança serva, como podemos nós, os seguidores de Jesus e herdeiros do reino, continuar a entrar em jogos de poder uns com os outros?
Se empresários estão a descobrir, aos poucos e com muito esforço e pesquisa, os princípios da liderança serva que Jesus propus, como podemos nós, possuidores da revelação divina—chamados, habitados e habilitados pelo Espírito de Deus—não explorar apaixonadamente as riquezas do exemplo de liderança que Jesus nos deu?
Se indústrias inteiras estão a ser transformadas por movimentos descentralizados de serviço e sacrifício, como podemos nós, os comissionados por Jesus para fazer discípulos de todo o mundo, continuar a abordar a nossa tarefa com métodos centralizados, controlados e localizados?
A globalização para o mundo empresarial representa um grande desafio e uma grande oportunidade. A globalização para a Igreja de Cristo representa um grande desafio e uma grande oportunidade. O mundo empresarial está a responder, adaptando-se, ajustando-se e aprendendo que, com uma atitude de serviço e sacrifício, se pode ganhar o mundo. Será que a igreja fará o mesmo? As empresas estão a mudar porque a sua própria sobrevivência está em jogo. As igrejas também podiam dizer o mesmo, mas temos uma razão maior e mais importante. Das últimas imagens que temos do nosso Senhor antes da sua crucificação é a forma de um servo, ajoelhado, com uma bacia e uma toalha, a lavar os pés dos seus discípulos, e a dizer, "É assim que se lidera o meu povo!"

Líderes servos precisam-se...já! Estaremos à altura?

Primeiro queremos saber o que é, e como se realiza a liderança serva....

Seis elementos da liderança serva, vistos não na prática contemporânea da gestão de empresas, mas na vida do líder mais eficaz da história ... em contrapartida com a liderança natural. (Não é uma lista exaustiva, mas é um início.)


I. A Essência da Liderança Serva: Influência (vs. Gestão)

Quando Jesus abordou os seus futuros discípulos à beira do mar, ou no campo, ou à mesa de cobrança de impostos, a proposta que ele lhes dava não era um contracto formal com clausulas que comprometiam o discípulo a seguir as orientações do mestre, a obedecer em qualquer lugar a qualquer hora qualquer mandado que Ele lhes desse. Ao contrário, o convite era sempre o mesmo, e sempre muito simples: "Siga-me". E a caminhada que eles começavam naquela altura não lhes levou a um programa sistemático de formação, nem a um percurso sistemático de carreira. Foi uma caminhada em que a influência de Jesus nas vidas deles era cada dia maior e mais poderosa.

Um dos primeiros erros que se comete no pensamento acerca da liderança é que a liderança é, no fundo, a gestão das pessoas. De facto, a gestão é algo que não se faz com as pessoas. Podemos gerir recursos. Podemos gerir projectos. Podemos gerir imobiliária. Mas quem tenta gerir pessoas está a lidar apenas com a pessoa do pescoço para baixo …as mãos, os pés, as actividades e talvez, até as palavras. Mas a mente e o coração não pertencem ao gestor.

A liderança verdadeira é bem mais do que isso. A liderança verdadeira é influência. É a capacidade de motivar e inspirar as pessoas a darem-se corpo, mente e alma a uma causa que consideram digno do maior sacrifício. Foi esta a liderança de Jesus, e é a liderança que nós temos de exercer.

Bill Hybels afirma que a igreja é a organização que depende mais da liderança verdadeira que qualquer organização no mundo.[6] Dependemos dos recursos que as pessoas oferecem da livre vontade. Se as pessoas não têm a vontade de aparecerem, nada acontece. Não há contractos nem obrigações. Tudo que acontece depende da nossa influência com as pessoas. O líder Cristão que vê a sua função principalmente como uma função de gestão, mais cedo ou mais tarde acaba por estar a gerir o ar.

A liderança serva é, na sua essência, influência.


II. O Recurso da Liderança Serva: A Autoridade (vs. Poder)

Outra distinção que devemos fazer é entre os conceitos da autoridade e de poder. James Hunter fornece definições úteis destes dois conceitos:

Poder: A capacidade de forçar alguém, através da coerção, para cumprir a minha vontade, mesmo que eles não queiram, por causa da minha posição ou força superior.

Autoridade: A habilidade de conseguir que as pessoas cumpram a minha vontade, sem coerção, por causa da minha influência pessoal.[7]

Na época de Jesus, havia muitas pessoas com mais poder aparente para a coerção do que ele próprio. Os governantes tinham o poder militar e político. Os fariseus tinham o poder cultural. Os Sacerdotes tinham o poder religioso. Todos estes tinham o poder da coerção por causa das posições, ou ofícios, que eles ocupavam. Mas, o que não tinham era a autoridade que fluía da influência das suas vidas.

Jesus, um mestre pobre e itinerante, sem posição nem ofício algum, conseguiu mobilizar multidões de seguidores, muitos dos quais chegaram a entregar a própria vida ao seu serviço, sem qualquer recurso ao poder coercivo. As pessoas cumpriam a sua vontade por causa da autoridade, e não por causa do poder.

É um erro muito grave assumir que, na obra do Senhor, podemos funcionar a partir de poder que decorre da posição. A liderança serva não recorre ao poder. O seu recurso principal é a autoridade que tem as suas raízes na influência pessoal.

III. A Agenda da Liderança Serva: As Pessoas! (vs. Projectos)

Uma das características do ministério de Jesus que mais me incomoda é a aparente e total ausência de projectos. Jesus não deixou nenhuma associação registada no Registo Nacional de Pessoas Colectivas, não colocou nem um tijolo em cima de outro num projecto de construção, não fundou nenhuma instituição, não escreveu nenhum panfleto para expor os seus pensamentos e não organizou, nem revisou, nenhum currículo para a formação de líderes. Ele tinha, sim uma missão a cumprir—e cumpriu! Ele tinha uma mensagem a proclamar—e proclamou. Mas o único projecto que ele alguma vez anunciou foi o projecto que prometeu realizar na chamada dos seus discípulos: Sigam-me, e eu farei de vós pescadores de homens! A agenda de Jesus era sempre pessoas.

E quando Ele nos comissionou, não nos enviou para o mundo com a tarefa de fundar instituições, ou de construir templos, ou de organizar associações. Enviou-nos com um só projecto: Ide, e fazei discípulos de todas as nações. A agenda da liderança serva é pessoas.

Uma agenda centrada nas pessoas terá, necessariamente, pelo menos duas características distintas. Primeiro, o impulso motivador será o amor. Não estamos a falar de carinho, nem de amizade, nem de sentimentos fortes a favor de outra pessoa. Este amor é a opção consciente a favor das necessidades daqueles que estou a liderar. Este amor busca o sucesso dos liderados acima do sucesso do líder. Coloca os outros sempre em primeiro lugar. A segunda característica necessária quando a agenda é pessoas é a prioridade dada aos relacionamentos. É impressionante como Jesus, com tantas tarefas exigentes e com uma missão tão importante, tinha sempre a disponibilidade de ouvir e responder à pessoa que estava à sua frente em qualquer momento. Esta qualidade só era possível porque Jesus não apenas colocava as pessoas na sua agenda. A sua agenda era mesmo as pessoas!

A nossa tendência normal é de dizer, "vamos responder às necessidades das pessoas com projectos". Mas o que acontece muitas vezes é que os projectos acabam por ficar com o primeiro lugar, e as pessoas ficam em segundo plano. A agenda da liderança serva é pessoas!

IV. O Princípio Organizacional da Liderança Serva: Delegação (vs. Controlo)

Agora precisarei de esclarecer uma questão de vocabulário. A palavra que tenho em mente quando falo de "delegação" é uma palavra para a qual ainda não encontrei equivalente em Português. Mesmo os livros escritos em Português por Portugueses tendem a usar a palavra Inglesa para se referir ao conceito que nós chamamos "Empowerment." Implica não apenas a delegação de tarefas, mas também a delegação de autoridade, a delegação de capacidade de tomar decisões, a delegação dos recursos, a delegação do poder. Este é o princípio organizacional que Steven Covey disse que a globalização está a exigir de nós. Um princípio que requer confiança, paciência e graça, e que, penso eu, é uma qualidade indispensável da liderança serva.

Em Mateus 10, Quando Jesus enviou os 70 para proclamar a mensagem do Reino dos Céus, como é que ele organizou o empreendimento? Criou uma estrutura hierárquica com vice presidentes e gestores intermediários para assegurar que quem teria a opção final em cada decisão seria ele próprio? Estabeleceu um sistema de comunicação que facilitasse os discípulos ao enfrentarem qualquer decisão de natureza estratégica ou prática, e que assim pudessem buscar a autorização do líder? Fez um sistema de comissões e conselhos para deliberar sobre cada assunto para que houvesse sempre consenso? Não fez nenhuma destas coisas. Deu-lhes orientações específicas daquilo que deviam fazer, e enviou-os, dois a dois, para cumprir a missão, voltando depois para partilhar o que tinha acontecido. Porque é que Jesus não criou um sistema mais eficaz de controlo de qualidade da obra? Penso que podemos apontar para, pelo menos, duas razões: Primeiro, ele sabia que, ao fim de três anos, a obra estaria nas mãos desses discípulos. Tinham de aprender rapidamente a tomar as decisões necessárias para a obra andar para frente. Portanto, Jesus nunca criou um sistema que exigia que pedissem autorização. O controlo estava nas mãos dos discípulos, seguindo as suas orientações gerais e, mais tarde, as orientações do Espírito Santo. Segunda razão, o objectivo de Jesus não era uma organização bem controlada. Era, sim, um movimento explosivo. E um movimento explosivo não pode acontecer num ambiente de controlo institucional.

Portanto, Jesus delegou, tanto as tarefas, como a autoridade, o poder, os recursos e as decisões aos seus discípulos. Com orientações gerais? Sim! Com a prestação final das contas? Claro! Mas a obra estava nas mãos dos seguidores. Nem sempre correu bem. Mas quando surgiam problemas que eles não podiam resolver, ele lidava com a situação com graça, aproveitando a oportunidade para ensinar mais uma lição importante.

O mundo de hoje em dia fornece grandes oportunidades para o crescimento explosivo do Reino. Mas isso só acontecerá se estivermos dispostos a pôr em prática o princípio organizacional da liderança serva: Abrir mão do controlo, confiar nos seguidores e no Espirito Santo e delegar tarefas, poder, autoridade, recursos e decisões.

V. O Alvo da Liderança Serva: Transformar (vs. Vencer)

É interessante reparar que, quando Jesus falava do impacto do Reino dos Céus no mundo, não usava imagens de guerra ou de conquista. Usava imagens da agricultura (grau de mostarda) ou da cozinha (fermento). O movimento que Jesus liderou não foi nunca um ataque frontal. Foi sim uma presença subversiva, um ingrediente transformador, uma força irresistível que acabou por transformar a sociedade inteira sem batalhas nem confrontos.

Este princípio teve algumas consequências muito práticas na estratégia da liderança de Jesus. Ele não facilitava a entrada das pessoas, e não impedia a saída. Mesmo ao nível pessoal, o objectivo dele não era de vencer, mas, sim, de transformar. O mancebo rico teria sido uma grande conquista, mas Jesus dificultou-lhe o caminho de tal maneira que virou as costas e foi-se embora triste. Outros que o queriam seguir foram confrontados com obstáculos como a pobreza (o filho do homem não tem onde se deitar), o compromisso a longo prazo (quem olhar para trás não é digno...), a quebra da família (que os mortos enterrem os mortos ...). E quando a multidão se tornava grande demais, Jesus pregava um sermão tão duro e exigente que a maioria desistia do caminho. Porquê? Porque Ele só queria investir naqueles que podiam dizer, "Deixar de te seguir? Para onde iríamos? Tu é que tens as palavras da vida!"

O alvo de Jesus não era a conquista. Era, sim, a transformação. Buscava aqueles que estavam mesmo desesperados, prontos para entregar a vida, e investia-se neles, para que chegassem a ser a semente de mostarda que chegou a ser uma árvore enorme, ou o fermento que transformou o pão inteiro.

VI. O Fim da Liderança Serva: O Sacrifício (vs. Lucro, conforto, fama, etc.)

Quando Jesus tinha acabado de lavar os pés dos discípulos, levantou-se do chão, vestiu-se, saiu daquela sala e daquele convívio caloroso, e entregou a sua vida numa rude cruz. A liderança serva não promete conforto, fama, facilidade de vida. Quando seguir-mos o caminho de Jesus mesmo até ao fim, chegaremos sempre à cruz. O fim da liderança serva é o sacrifício.

Uma das coisas que se verifica na história das missões é o facto de que, em cada época de avanço dramático no movimento moderno de missões, o avanço foi sempre acompanhado por um movimento estudantil...uma geração de jovens dispostos a dar tudo pela causa de Cristo no mundo. Em 1716, um jovem estudante de Halle, chamado Nicola von Zinzendorf formou um grupo de alunos chamado a "Ordem do Grão de Mostarda," com a visão de levar o evangelho ao mundo. Mais tarde, este compromisso levou-o a liderar o movimento dos Morávios, que foram, a grande preço e sacrifício, levando a mensagem de Cristo a terras que ainda não conheciam o nome de Jesus. Em Suriname, por exemplo 75 dos primeiros 160 missionários morreram no espaço de dois anos devido a doenças. Mas continuaram a avançar, custasse o que custasse. A liderança serva marcou a diferença, mas pagaram um alto preço.

Irmãos, creio de todo o meu coração que temos perante nós, hoje em dia, uma geração que terá a oportunidade, as condições e a disposição de realizar a grande comissão numa medida que o mundo ainda não viu. E quando penso nos anos que me restam para servir o Senhor neste mundo, a única coisa que quero ser é um recurso para esta geração. É esta a nossa missão como escola. É esta a chamada urgente de Deus para os nossos dias.

Mas, o que temos de ser, e o que termos de produzir são líderes servos. Líderes que vão para além da mera gestão de recursos para ter uma influência profunda no mundo à sua volta. Líderes que não funcionam a partir do poder da sua posição, mas da autoridade do seu carácter. Líderes cuja agenda e projecto principal não são instituições, edifícios e organizações, mas pessoas, criaturas de Deus, que se encontram no dia a dia, mas que também se encontrarão na eternidade. Líderes que sabem abrir mão do controlo dos seguidores para que o ministério se possa multiplicar. Líderes cujo alvo não é apenas vencer, mas, sim, ver a transformação do mundo pela graça e pelo espírito de Deus. Líderes comprometidos a percorrer o caminho todo, sabendo que só se chegará à alegria da glória através do sofrimento da cruz.

Nem todos os nossos alunos serão pastores. Mas o nosso objectivo como escola deve ser que todos sejam líderes servos!

[1] Muitas destas ideias são apresentadas no seu livro, The Second Reformation: Reshaping the Church for the 21st Century, (Houston:Touch Publications, 1995). Outro livro que inclui uma discussão interessante sobre o assunto é Wolfgang Simson, Casas Que Transformam o Mundo: Igrejas nos Lares (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2001).

[2] Robert K. Greenleaf, ServantLeadership: A Journey into the Nature of Legitimate Power & Greatness (Mahwah, NJ: Paulist Press, 2002), 24.

[3] Jim Collins, Good to Great (New York: Harper Collins, 2001), 16-24)

[4]Steven Covey. "Forword" in Robert K. Greenleaf, ServantLeadership: A Journey into the Nature of Legitimate Power & Greatness (Mahwah, NJ: Paulist Press, 1977), 11.

[5] James C. Hunter, The Servant: A Simple Story About the True Essence of Leadership (New York: Crown Business, 1998), 77.

[6] Bill Hybels, Courageous Leadership (Grand Rapids: Zondervan, 2002), 24-25.

[7] James. C Hunter, The Servant, 30.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Lições aprendidas com o planejamento estratégico

Lourenço Stelio Rega

Desde a juventude sempre atuei na gestão, seja de projetos, de organizações ou departamentos. Logo cedo aprendi que se algo precisa ser feito, é preciso investir em seu preparo. Minha primeira experiência nesta área foi quando, aos 17 anos, tive de assumir a direção de uma Escola Bíblica Dominical – com a antiga nomenclatura de superintendente da EBD. Descobri que tinha de prever as atividades que precisavam ocorrer de modo a ajustar a agenda dos eventos. Assim, sem saber os nomes corretos das “coisas” do planejamento, percebi que sem cronograma e previsão pouco poderia alcançar.
Depois notei que quem “tocava” a EBD, de fato, eram os professores, e desta forma descobri o sentido de equipe, mesmo sem saber que existia essa palavra. Aí procurei entender como o professor trabalhava. Descobri a Pedagogia e a Didática (gostei tanto que até hoje estou “embriagado” por isto no magistério teológico). Tentei encontrar alguém que pudesse “capacitar” (palavra inexistente naquela época no meio evangélico) os professores. Não achei ninguém. Mergulhei em livros educacionais e comecei a preparar textos para ajudá-los a exercer o seu papel. Na época não tinha xérox, então eu consegui um mimeógrafo a tinta manual, isto é, tinha de “bater” à máquina o estêncil, prender debaixo de uma tela, colocar tinta preta em cima da tela, colocar o papel sulfite embaixo e depois passar um “rodinho” para espalhar a tinta. Cada cópia era produzida artesanalmente. Como eu tinha trabalhado em gráfica como tipógrafo, aquilo era simples de fazer. Depois comprei um mimeógrafo a álcool, um dos primeiros de minha cidade.
Eu marcava (a palavra “agendar” era desconhecida) as reuniões com os professores antecipadamente, preparava tudo antes das reuniões e reconfirmava a sua presença alguns dias antes da reunião. Os resultados começaram a aparecer e o pessoal percebia que tudo estava funcionando e se sentia motivado a vir nas reuniões. Criamos também programas de recuperação a alunos desistentes, campanhas, eventos, etc.
As pessoas passaram a acreditar no meu trabalho e um efeito colateral disso tudo é que, se algo tinha de ser feito, eu era escolhido para liderar. Comecei a me sobrecarregar com tanta atividade que tive de aprender a gerir o meu tempo pessoal e descobri que o líder de equipe precisa antes ser líder de sua própria vida. No fundo trabalhava tanto para a obra de Deus que estava esquecendo do Deus da obra. Aí descobri que o líder, além de gerir a sua própria vida, precisa estabelecer prioridades para si mesmo, começando de seu relacionamento com Deus, consigo mesmo, com seu matrimônio, com sua família e depois, finalmente, com suas atividades. Nesta época eu já estava casado e com dois filhos.
Depois de quase 40 anos passados daquela minha primeira experiência de “gestor educacional” numa simples e pequena igreja onde era, na época, o interior de São Paulo, hoje já me vejo em fase de planejamento da aposentadoria. Posso dizer, no entanto, que ainda tenho fortes traços de personalidade “workahoolic” em meu sangue, tendo em vista a hipertenacidade que se tornou um estilo de vida. Um filho casado, dois no caminho, esposa que pode voltar a estudar, agora me transformaram em consultor de planejamento de suas vidas.
Tem sido gostoso e agradável olhar para trás e ver como Deus foi construindo tudo isto, especialmente quando estou em meu cantinho de sossego no alto das montanhas mineiras e vendo lá embaixo o vale e as montanhas ao longo do horizonte, sempre tendo em mente que tudo foi construído por Deus com detalhes de um planejamento minucioso e cuidadoso.
A verdade é que, toda tecnologia, vocabulário e ferramenta sobre planejamento, eu acabei adquirindo há cerca de 20 anos atrás, portanto, fazia planejamento estratégico sem saber que aquilo era isso mesmo. Se não tinha um recurso ou ferramenta para usar, pois os livros eram raros, eu ficava acordado até tarde ou acordava mais cedo para inventar, adaptar, datilografar (depois digitar), até mesmo porque era “pecado” usar livros seculares (“do mundo”) para o planejamento na igreja. Criei diversos inventários, um até para ajudar as pessoas a verem o seu nível de espiritualidade (imagine só isso, e feito na década de 80!), depois veio o inventário de dons (que já foi até publicado sem a citação de minha autoria) e tantas outras ferramentas.
O período, diríamos, técnico e científico sobre o planejamento em meu ministério veio antes de minha ida para pastorear na Ilha de Vitória, quando eu e o Ed René Kivitz ainda tínhamos tempo de “trocar figurinhas” sobre as descobertas em planejamento. Ele estava começando o seu pastoreio na IBAB, naquela época ainda na Rua Clélia. Foi uma época de grande aprendizagem juntos. Fui para Vitória e lá encontrei uma pessoa fenomenal em termos de amizade e de planejamento que me influenciou muito – Almir Cordeiro Júnior. Ele me ensinou a tecnologia do planejamento estratégico que uso até hoje e o famoso mapa conceitual das fases do planejamento estratégico.
Em resumo, Deus criou o mundo e para isto se valeu de um intrincado planejamento em que as coisas criadas vinham em sua devida hora. Depois de tudo pronto ele transferiu a Adão e Eva a gestão da natureza criada. Assim a primeira atividade humana foi o gerenciamento.
O planejamento estratégico nada mais é do que a reflexão antecipada sobre o que precisamos e desejamos fazer e a busca dos meios para alcançar isso, dentro de um prazo estabelecido. Sem o planejamento antecipado vamos depender de quem argumenta melhor, de quem tem mais poder ou de quem tem a chave do cofre (frase do Ed René).
Para elaborar o planejamento estratégico temos de seguir as suas fases. Antes de tudo será preciso estabelecer para nossa organização a sua natureza (razão de ser e missão), a sua filosofia (normas/doutrinas e valores/prioridades), avaliar o seu entorno em busca do público-alvo a ser atendido ou âmbito de atuação. Somente depois vem a visão de futuro que almejamos.
Na área empresarial a visão geralmente poderá vir antes de tudo, mas no campo eclesiástico, ela vem depois, pois a natureza e filosofia da igreja são pré-estabelecidas na Bíblia. Aí temos condições de estabelecer os objetivos que precisamos cumprir para alcançar o fim esperado. Dos objetivos estabelecemos as estratégias, depois as metas mensuráveis e as ações setoriais. Em seguida será preciso levantar os recursos necessários e a viabilidade financeira. Tudo ok até agora? Então se temos recursos, se os objetivos são viáveis para que a visão se estabeleça, colocamos mãos à obra partindo para as atividades (permanentes) e os projetos (temporais). Dentro de períodos pré-estabelecidos temos de avaliar as atividades e os projetos para saber se estão no rumo certo e vamos ver se será preciso replanejar a visão, os objetivos e assim por diante num processo de ativo feedback.
É simples assim! Simples que nada, quem lidera precisa ter o mapa de tudo na mão e saber envolver a equipe. Assim você aprende que planejamento estratégico sem gestão estratégica transforma o próprio planejamento numa bela peça literária. E nem falamos em ciclo de vida dos projetos. Aqui eu teria de lembrar do amigo, já falecido, Darcy Dusilek que me ensinou sobre a famosa curva sigmóide do ciclo de vida. Mas isso fica para outra hora.

Publicado originalmente em Instituto Jetro

domingo, 19 de dezembro de 2010

Planejamento estratégico: problemas e soluções

Estávamos numa reunião avaliando o planejamento de um período de trabalho. Um líder avaliou que o planejamento não foi eficaz e que precisaria melhorar. Ainda nesta reunião questionamos: como teria sido o período sem o planejamento? Realmente teria dificultado a organização e a realização das tarefas.
O planejamento estratégico é uma maneira de organizar as atividades da igreja que tem buscado caminhos para propiciar a sua importância e a proposta de fazer diferença na sociedade. Isto porque a sua identidade tem sido colocada à prova pelo ambiente em que atua. Às vezes, a igreja se ocupa com as múltiplas atividades e não consegue dar suporte às necessidades das pessoas. Outras vezes, constata-se que a liderança é sempre a mesma, ou centralizada, ou ainda o obreiro está sozinho.

Consideremos três pontos:

1. O ideal e a realidade
O ideal seria que cada organização, grupo e líder tivessem o seu planejamento e que tudo acontecesse como previsto. No entanto, a realidade nem sempre é esta, e existem perigos:

a) quando a organização deixa a razão para qual existe, quando ela deixa de cumprir o propósito de Deus como porta-voz da mensagem da salvação;
b) quando não se tem planejamento, facilmente se decide pela comunidade e contenta-se em reunir pessoas num mesmo lugar ou numa mesma tarefa. Quanto mais, melhor!;
c) normalmente são as questões pessoais que dificultam a organização e o gerenciamento de recursos pessoais e financeiros;
d) a institucionalização e a formalização da organização é um processo natural e corre-se o risco de perder o vigor e a missão pela qual existe. A rotina e a mesmice tornam-se a marca;
e) quando se faz o planejamento e este vale para sempre. Considerando a experiência de José (Gênesis) e Neemias, percebe-se que eles tinham alvos definidos, com propósitos, capazes de realizar e avaliar.

O planejamento estratégico está em constante avaliação e mudança. Quando alcança o alvo proposto, existe uma nova oportunidade a ser planejada. Ele é dinâmico.

2. O resultado e a crise do voluntariado
A organização e o planejamento da igreja cristã correm o risco de serem avaliados pelo resultado, pela técnica e pelo profissionalismo. Desta forma, compete-se com o capitalismo, que se esmera por centrar a sua atenção justamente no resultado e no lucro.
O capitalismo pós-moderno trata de ocupar todo o tempo da pessoa, fazendo com que as pessoas não tenham mais tempo. Além disto, que não façam nada sem serem pagas por isto. Gera a crise do servo e do voluntariado.
As pessoas se tornam incapazes de representar coerentemente o seu presente e de conceber as estratégias para produção de uma estratégia diferente. Geram sentimentos de incapacidade, impotência e insubmissão diante dos desafios nas mais diferentes esferas da vida cotidiana.

3. Os recursos e as oportunidades
A pós-modernidade desafia as igrejas cristãs – que pretendem ser “viveiros” de comunidade terapêutica – a planejarem, estruturarem e desenvolverem ações que:

a) possibilitem a participação de pessoas que não preenchem as expectativas da “boa ordem do espetáculo”, mas que podem desenvolver uma atividade no planejamento;
b) possibilitem que cada um, individualmente – seja na estrutura da instituição, na prática culto-litúrgica ou na presença da sociedade – possa viver uma das dimensões intrínsecas do “templo do Espírito Santo”: o privilégio e o direito de cada membro individualmente ser “mão”, “pé” ou “olho”, apesar de em conjunto construírem um só corpo (1ª Co 12);
c) considerem positivamente a tendência pós-moderna;
d) privilegiem e/ou construam técnicas e instrumentos que possibilitem trabalhar a realidade;
e) contribuam para a recuperação do ponto de complementaridade.

A grande dificuldade continua sendo como envolver as pessoas na organização da comunidade. Por isto, a necessidade da criação de pequenos grupos e uma comunidade terapêutica que serve.
O planejamento estratégico possibilita o espaço para a pessoa ter o seu envolvimento e a sua necessidade atendida. A pessoa que se sente atraída é aquela que tem alguma identificação com a organização, normalmente ocupada com uma tarefa.
Desta forma, o planejamento estratégico pode abrir caminhos que possibilitam o desenvolvimento da organização de forma que cumpra a sua missão com eficácia. Que ela seja terapêutica para a pessoa, para a família, comunidade e sociedade, capaz de valorizar o líder e a organização.
Atualmente, o planejamento é o caminho que potencializa os recursos que estão à disposição. Mesmo sendo poucos. Dará a perspectiva de desenvolvimento e disposição para buscar dinamismo e autenticidade organizacional e gerencial. Importa como aplicar os recursos que se tem. Porque onde acontece a semeadura e o plantio, mais cedo ou mais tarde, acontecerá a colheita (Is 55.10-11).
Planejamento é um caminho e não um ponto de chegada. É um olhar para o alvo. Onde o resultado é a gratidão do dever cumprido. “Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes fora ordenado, devem dizer: Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever” (Lc 17.10)

Publicado originalmente em Instituto Jetro

sábado, 18 de dezembro de 2010

Planejamento estratégico para iniciantes

Washington Zucoloto

A sensibilidade de entender o que Deus quer e desafiar pessoas para realizar o projeto dEle!

Cada igreja tem sua forma particular de “administrar” seus projetos e suas atividades. Num Brasil com tantas complexidades eclesiásticas, não é minha intenção fixar uma regra. Desejo apenas dividir com você o que aprendi ao longo dos anos atuando no mundo corporativo e também em diversas denominações.
Acima de tudo, creio que a disposição de coração e a obediência à Deus é a “condição” mais poderosa que existe para transformar vidas e motivar uma igreja. O Planejamento Estratégico (PE) poderá ajudar a organizar melhor as ações que Deus quer de cada um de nós.
O desafio deste texto é responder algumas inquietações que podem ainda existir no coração de muitos líderes cristãos na utilização do PE.

- O que deve fazer e por onde deve começar uma igreja que nunca desenvolveu um PE?
- Quem deve se envolver? Todas as áreas/ministérios devem ser consideradas?
- Que roteiro deve ser seguido?

Permita-me fazer algumas perguntas que considero fundamentais para iniciarmos nosso “bate-papo”: Você liderou alguma construção ou reforma no templo nos últimos 5 anos ou qualquer outro projeto? Qual sua opinião sobre o envolvimento das pessoas, além do financeiro? O que faltou? O que poderia ser melhor?
Possivelmente, pela experiência ao longo dos anos, você respondeu que faltou PLANEJAMENTO ou ter dividido melhor as tarefas!
Enfim... Agora, você precisa pensar em como desenvolver melhor os próximos projetos ou, se estiver no meio dele, em mudar algumas atitudes para liderar melhor os desafios que estão pela frente.
Vou compartilhar com você 4 dicas de como iniciar, desenvolver e finalizar um planejamento, de forma estratégica, para que os resultados sejam mais motivadores e participativos.
Resultado numérico é uma conseqüência natural da qualidade do planejamento e da disposição das pessoas em realizar a vontade de Deus! (Vide Neemias).
Sem COMPROMETIMENTO não há planejamento que tire as pessoas de casa para realizar um projeto!

Dica 1: Saber onde você vai pisar!
Antes de realizar qualquer projeto, conheça seu público-alvo. Quem Deus mostrou, em oração ou pela Visão dada por Ele, que sua igreja pode e precisa alcançar? Como conhecer melhor as pessoas que serão alcançadas pelo projeto?
Você pode realizar algumas reuniões com seus lideres e nestes encontros conseguir informações valiosas através do próprio conhecimento deles. Faça isso! Depois me conte como irá mudar sua percepção inicial e os novos rumos para o projeto.

Dica extra: Eleja uma pessoa para anotar todos os pontos relevantes da reunião e lidere este encontro fazendo perguntas chaves para os participantes. As perguntas precisam ir de encontro ao projeto que pretende realizar com eles.

Dica 2: Use a razão dada por Deus!
Reúna todos os dados coletados nos encontros que vocês realizaram e classifique-os de uma forma mais organizada. Como organizar: Se seu projeto envolverá crianças. Qual a idade média delas? Moram com seus pais? Frequentam a igreja? Etc... Se seu projeto envolve universitários. Eles moram próximos da igreja? Tem alguma religião?

Dica extra: Esta fase exige um pouco de paciência e uma pequena habilidade em organizar os dados. Peça ajuda se não for sua “praia” lidar com números e gráficos simples. Para isto você não precisa de tecnologia nem comprar um computador para sua igreja!
Usar os números não extingue o Espírito. Eles apenas ajudam a organizar e entender melhor o que Deus falou que precisamos fazer! (Vide Neemias)

Dica 3: Analisar os pontos fortes, os fracos, as oportunidades e possíveis ameaças para o projeto.
Chegou a hora de olhar para o que vocês prepararam na dica 2 e transformar tudo isto em Estratégias e Metas bem claras. Vou dar um exemplo:
Nos dados coletados, foi constatado que a maioria das crianças no seu bairro moram com os pais. Isto pode ser uma OPORTUNIDADE para que outro projeto seja realizado em conjunto. Isto irá gerar várias ESTRATÉGIAS e AÇÕES para que a igreja se aproxime destes pais, com a graça de Deus!

Dica extra: Ameaça pode ser uma chuva que poderá cair na tarde que você planejou o evento ao ar livre e você terá que pensar num “plano B” se isto acontecer. Considere que tem irmão expulsando a chuva no dia do evento enquanto, à alguns quilômetros da igreja, outro orando para cair a mesma chuva para sustentar a família, que depende da colheita do feijão e do arroz!

Dica 4: Pessoas certas nas atividades certas!
Depois que você reuniu todas as informações que precisava com os encontros acima, agora é hora de sentar com uma equipe que tem uma noção básica de planejamento para elaborar as ações necessárias dentro do projeto.
Você não precisa de grandes mestres na área de planejamento. Uma pessoa organizada e que tenha liderança pode lhe auxiliar nisto.

Dicas extras:
- Faça uma lista de atividades claras e organize por responsáveis e prazos.
- Desafie as pessoas a se envolverem no projeto de acordo com seus dons e ministérios. Este processo é motivador!
- Convide-as pessoalmente e apresenta-as à Igreja como participantes e/ou líderes de cada atividade dentro do projeto. Isto valoriza e gera comprometimento!
- Acompanhe como gestor e delegue todas as atividades. Não perca o foco!
- Ore com as pessoas desanimadas e não pare a obra dando ouvidos aos que querem atrapalhar o projeto. (Vide Neemias)
- Depois de concluído o projeto, reconheça todos os envolvidos diretos e indiretos de forma que se sintam motivados a contribuírem com outros desafios. Sabendo que o que realizaram foi para a honra e glória de Deus!

Antes de iniciar, ore, como fez Neemias. Copiar projetos, simplesmente para dizer que temos, pode ser um equívoco missionário. Deus tem o melhor para cada um!
Os desafios e as oportunidades podem estar diante dos nossos olhos. Acredite! Recomendo que oremos de olhos abertos! Sempre dobramos nossos joelhos prometendo MELHORAR a cada ano, não é mesmo?!
Uma última pergunta: Estamos melhorando?

Dica extra: Que tal fazermos do dia de hoje o mesmo que fazemos todo dia 31 de dezembro? Orar e pedir a Deus agora mesmo sabedoria para utilizar o PE?!

Publicado originalmente em: Instituto Jetro

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Construindo um Novo Templo

Sidney Nunes

"E aqueles que estão longe virão, e ajudarão a edificar o Templo do Senhor; e vos sabereis que o Senhor dos exércitos me tem enviado a vós; e isso sucedera se diligentemente obedecerdes à voz do Senhor vosso Deus." Zacarias: 6:15

Notamos vários líderes com certa angústia para iniciar a construção de um Novo Templo, pois, por um lado eles conhecem a real situação financeira que limita as suas igrejas, e também os fardos de custos que serão repassados a todos os membros da congregação.
Eu e minha família já nos envolvemos em duas grandes construções de Novos Templos em nossa jornada evangélica, além de acompanhar, participamos ativamente das dificuldades de todos nessa batalha da construção.
Passamos abaixo pequenas dicas administrativas e sugestões de como proceder para o início da construção de um Novo Templo.

Formar comissão para Acompanhamento da Construção
Formar uma comissão de no mínimo dez membros da igreja que serão responsáveis pelo acompanhamento da construção da igreja. A sugestão é que nesta comissão sejam inseridos os membros da igreja com certo conhecimento em construção civil: Engenheiros, Mestre de Obras, Pedreiros, Colaboradores, etc.
Sugerimos sempre a realização de mutirões na igreja relacionados à construção, isso criará um grande amor entre os irmãos para com o novo projeto e a possibilidade de sua inclusão nele.
Antes de iniciar todo o projeto da construção, verifique se na igreja existem irmãos que tenham empresas no ramo de Construção Civil e ou Engenheiros, para que a empresa do mesmo ou o profissional seja consultado antes do início do processo.

Formar comissão de recebimento de valores para a construção
Formar uma comissão de no mínimo cinco membros da igreja que serão responsáveis pelo recebimento e repasse do mesmo ao tesoureiro da igreja. A sugestão é que esta comissão seja mesclada de pessoas simples (porém de conhecimento contábil) e de pessoas renomadas por causa de seu trabalho e índole na sociedade.
Esses recebimentos poderão ser controlados por carnê impresso (boleto bancário) com os valores que cada membro e/ou colaborador pretende contribuir mensalmente para a construção.
A igreja deverá abrir uma conta corrente exclusiva para a construção do novo templo em banco de fácil acesso aos membros. (Caso algum colaborador queira efetuar depósito direto no banco).
Também poderá criar um envelope para ofertas específicas para a construção.

Culto da Pedra Fundamental
O culto da Pedra Fundamental poderá acontecer com apresentação do louvor, uma ministração do pastor titular explanando sobre a visão que recebeu e que foi acolhida pelos líderes e membros da Igreja, neste desafio de construir. Ele ou o administrador da Igreja poderá em poucas palavras relembrar dos detalhes até este momento e como todos da igreja estão engajados para a construção.
Isto será um marco histórico para a igreja e para a cidade, por isso pode-se divulgar o culto nos meios de comunicação e convidar algumas autoridades municipais para que estejam presentes.
Durante este culto, em um momento simbólico, será colocada uma pedra com uma placa no terreno onde será construída a futura Igreja (com os dizeres: Pedra fundamental, o nome da Igreja e a data do culto).
A comissão de acompanhamento da obra deverá montar uma barraca sobre o Projeto da Construção. Neste espaço o engenheiro do projeto deverá explicar todos os detalhes da construção juntamente com o pastor titular/presidente.
As pessoas presentes terão à disposição materiais publicitários criados para explanar sobre a construção e também a maneira que poderão colaborar na arrecadação dos fundos para ela.
A comissão da construção já formada poderá iniciar o recebimento das doações e valores destinados para a construção, incentivando as pessoas para pegarem os carnês para colaboração futura.
Também poderão ser colocadas, por exemplo, várias barracas para que as pessoas adquirem os objetos doados pelos membros da igreja para ajudar na arrecadação de fundos.
Organizar material publicitário para arrecadação de fundos para a construção

Algumas sugestões de objetos que podem ser expostos nas barracas no dia do culto e em todos os cultos da igreja, em todas as congregações que fazem parte da igreja:
- Camisetas com desenho da futura construção e outros desenhos/frases cristãs.
- Desenho em quadro de vários tamanhos da construção.
- Adesivos com desenho da construção (Colabore com a construção da igreja)
- Canecas, canetas com desenho da construção.
- Tijolos tipo miniaturas com o desenho ou frases da construção.

Obs.: Esses produtos não poderão ser comercializados com valores elevados, para que todos os membros possam adquiri-los, abençoar e serem abençoados.

Todos os veículos de comunicação da Igreja deverão contar com um espaço de prestação de contas e apresentação dos relatórios sobre o andamento da construção. Poderá também, criar uma página na web para a construção onde constem os relatórios detalhados com fotos e planilhas dos custos atualizadas periodicamente.

Estas são apenas algumas dicas.

Sabemos que essa tarefa não será fácil, mas, pela determinação do pastor e de sua liderança haverá vitória em nome de Jesus.
Basta ouvir a Deus, ter fé, determinação, planejamento e ação. Já deu tudo certo!

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site http://www.institutojetro.com/ e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Líderes não são maiores do que a graça de Deus

"Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia".

Por Geremias do Couto

Ah, se todos nós, que somos considerados líderes, tirássemos as nossas máscaras e vivêssemos o discipulado em sua forma simples e bíblica. Ah, se abríssemos mão de certos caprichos, vaidades, presunção, arrogância, orgulho, farisaísmo, ostentação e viéssemos para a planície. Quanto ganhariamos! E a igreja também! Não generalizo, mas uso a linguagem da inclusão ao pensar que muitos de nós estamos de fato incorrendo nessa gravíssima falha. Sei que o desenvolvimento pessoal é parte do nosso crescimento. Mas considerar tudo o que conquistamos como esterco (tem lá o seu valor) é um dos princípios da vida cristã.
O que está em cena, aqui, não são as nossas conquistas em si mesmas, mas o pedestal, a glória humana, a fantasia, a hipocrisia, o aplauso e a consequente perda de referenciais. Achar que somos tudo, quando, na verdade, nada somos. Ou passar uma falsa humildade, que, no fundo, pretende que as pessoas olhem para nós e digam: "vocês são mesmo os tais!" Esse é o cerne. Quantas vezes pregamos e, ao final, nos sentimos frustrados, quando as pessoas não nos procuram para "elogiar" a nossa pregação! Quantas vezes chegamos de propósito atrasados ao culto para que a assistência nos olhe com admiração e, se não pode falar alto, pelo menos pense ou cochiche: "Está chegando o pregador!" Esse é o ponto.
Infelizmente, trazemos para a nossa realidade da fé um pouco (ou muito?) da herança católica que faz o povo olhar para os seus líderes como infalíveis. Estes, por sua vez, vestimos a farda com muita facilidade. A partir disso, passamos a ser os reis da cocada preta (sem racismo, por favor. Pode ser branca também!). Até na forma de andar, gesticular ou fazer alguns trejeitos, expomos a aura da infalibilidade que tanto massageia o nosso ego. Não conseguimos ser simples, e, se tentamos aparentar simplicidade, fazemos de maneira tão afetada que logo transparece a prepotência. Como neste conhecido bordão: "Fulano é tão humilde que tem orgulho da sua humildade".
Só que a casa cai. Não há arrogância que dure para sempre. De tempos em tempos, para a nossa tristeza (e também aprendizado), surge uma nova notícia, dando conta do fracasso de um líder, que muitos o tinham como o grande referencial e o tratavam, não com o respeito que todos merecem, mas com idolatrada veneração. Podemos chegar a este ponto, quando perdemos os nossos limites. Quando achamos que não temos de prestar contas a ninguém. Quando nos colocamos no pedestal acima dos "simples mortais". Quando não nos reconhecemos como o principal dos pecadores, à semelhança de Paulo. Quando deixamos de olhar as "nossas justiças como trapos da imundícia". Quando achamos que somos maiores do que a graça de Deus. Quando o pecado torna-se apenas um detalhe que não nos importa em nosso dia a dia. Quando, por confiar em nossa autossuficiência, não buscamos ajuda em nossos momentos de fragilidade.
Creio que Deus permite a exposição de alguns dentre nós, trazendo à tona todos os apetrechos escondidos no seu coração, para que o povo perca essa visão "divinizada" da liderança, e nós, que somos tidos em tal condição, possamos humildemente dizer como João Batista: "É necessário que ele cresça e que eu diminua", ou como Paulo: "Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" Ao contemplarmos tais situações, por outro lado, nossa atitude deveria ser a de vestir-nos de sacos e assentar sobre as cinzas para chorar os nossos pecados pessoais e coletivos, orar pela restauração de quem está sendo tratado pelo Senhor e, com inteireza de coração, nos expormos aos braços amoráveis do Pai para deixar de ser sustentados pelas nossas próprias pernas.
Líderes são necessários na igreja desde os primeiros dias do Cristianismo. Atos dos Apóstolos descreve a sua existência. As epístolas tratam de forma clara o assunto. Mas não formam casta especial. Privilegiada. Com alguns galões que possam distingui-los dos demais crentes em sua relação com Deus. Não são pequenos deuses para ser glorificados pelos homens. São modelos, inclusive na fraqueza, para que possam pelo exemplo mostrar aos que lideram, no mesmo nível, que só pela graça - unicamente e apenas pela graça - sem qualquer outro privilégio, podem superar as falhas e buscar a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. E aí todos saberão que ninguém é melhor do que ninguém ou ocupa lugar especial à direita ou a esquerda do trono de Deus.
Somos humanos, fracos, faliveis, necessitados, dependentes, incapazes em nós mesmos, para os quais o Senhor, que enfrentou todas as nossas fraquezas em sua humanidade, pode dizer: "A minha graça te basta".

Geremias do Couto

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Liderança e as marcas da integridade

Por Ronaldo Lidório

Se deseja conhecer a integridade de um líder, observe os detalhes. Conheça-o na informalidade do lar, no trato com amigos chegados, na conversa ao telefone. O conceito bíblico de sermos fiéis no pouco para sermos colocados no muito pressupõe grau de dificuldade e detalhamento. O pouco nos prova como também nos expõe. É, portanto, no pouco, nos detalhes da vida, que podemos diagnosticar nossas carências e limitações, e ali aprender com o Mestre. Como bem aplicou Platão, filósofo grego: “Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa”. A informalidade nos expõe com maior frequência pois nos encontra em estado de expontaneidade.

Um dos desafios mais difíceis que enfrentamos desde nossos primeiros pais é a tradução de nossos valores espirituais e morais para atitudes espirituais e morais em nossa vida diária. Permitam-me listar aqui, dentre tantas atitudes que buscam a construção de um caráter íntegro, algumas que observo de extrema colaboração neste sentido.

Calar-se

Vivemos em uma socidade onde o simbolismo é elemento definidor das relações humanas. Assim, valorizamos a comuicação verbal, os discursos, as respostas bem colocadas, o jogo de palavras. Se por um lado isto colabora para desenvolver uma comunicação mais ativa, por outro tem nos levado a esquecer o valor do silêncio.

A integridade de um líder é testada na adversidade e uma das atitudes mais comuns perante a adversidade relacional é o confronto. Frequentemente falamos quando deveríamos nos calar, especialmente em contextos ministeriais onde as críticas nos bastidores ganham a nossa atenção e somos levados a reagir de forma desproporcional, desnecessária ou mesmo inapropriada.

Certamente há momentos de falar, fazer-se ouvir. Mas reconheço que os homens de Deus que tenho conhecido buscavam mais o silêncio do que o confronto verbal perante as adversidades, e faziam a obra de Deus.

Um dos grandes investimentos que podemos fazer em relação ao outro é justamente ouvi-lo. Lincoln dizia que, ao dialogar com alguém gastava um terço do tempo pensando no que falar e dois terços pensando no que o outro falava.

A maior dificuldade para se ouvir é quando não é preciso ouvir. Penso aqui em uma figura de autoridade que, em sua presente função, seja um professor, um chefe, um líder de equipe ou um pastor, não precisaria ouvir e poderia tão somente falar. Talvez um dos maiores e mais frequentes erros.

Não negociar a verdade

Provérbios 12:19 nos diz que “O lábio verdadeiro permanece para sempre; mas a língua mentirosa apenas por um momento”. Há certos valores que precisam estar sempre presentes em nossas vidas, relacionamento e processos de liderança. Um deles é não negociar a verdade. Isto inclui, de forma especial, a manipulação da verdade. Refiro-me ao evitamento ou maquiagem da verdade para se contornar um problema ou se beneficar de um resultado.

Quando a Palavra nos ensina que a posição do crente, o seu falar, deve ser “sim sim, não não” o que se advoga não é uma atitude de extremos: ou sim ou não. O assunto aqui é a verdade: dizer sim quando for sim e não quando for não. No cenário do genuino cristianismo a verdade não pode ser negociada e ela é um dos grandes blocos que constrói uma vida íntegra.

Abraham Lincoln foi um dos estadistas mais atacados em toda a história dos Estados Unidos da América. Recebeu título de desonesto, corrupto, incapaz, mentiroso e adúltero. O Illinois State Register referia-se a ele como o “político mais desonesto da história americana”. Quando aconselhado a negociar benefícios para os donos dos grandes jornais a fim de que sua imagem fosse poupada, Lincoln respondeu: “Quando deixar este escritório gostaria de sair com um amigo fiel ao meu lado. Minha consciência” .

Ao falar sobre a verdade de forma mais objetiva (o que é verdadeiro), posso dar-lhe a entender, erroneamente, que esta é a única forma de verdade que importa. Há uma verdade subjetiva a qual também devemos valorizar. Trata-se da verdade volitiva, ou seja, os motivos que nos levam a agir e reagir. Os motivos que nos levam a fazer algo ou deixar de fazer. A falar e calar. Tais verdades motivacionais precisam ser obervadas de perto pois elas representam o atual estado de nosso coração. Muitos líderes podem desenvolver realizações corretas por motivações erradas.

A integridade, que não negocia a verdade seja objetiva ou subjetiva, alimenta um caráter mais parecido com Cristo.

Assumir a responsabilidade

Quando nos posicionamos ao lado da verdade normalmente somos chamados a assumir responsabilidades, seja pela irredutível defesa de algo que no senso comum poderia passar desapercebido, seja por falhas e pecados em nossas vidas que precisam ser confrontados, perdoados e abandonados.

Segundo o escritor francês François La Rochefoucauld quase todas as nossas falhas são mais perdoáveis do que os métodos que concebemos para escondê-las. Uma vida íntegra leva em consideração a possibilidade da falha, do pecado e da queda. Ou seja, precisamos assumir a responsabilidade perante nossas atitudes a fim de mantermos a integridade espiritual e moral. E esta é uma das lições mais difíceis de serem aprendidas. O caminho aparentemente mais curto no caso de uma queda - a negação do pecado e sua responsabilidade sobre ele - não é de fato curto pois não nos leva onde Deus nos quer.

Permita-me endereçar líderes que possuem grande dificuldade de pedir perdão de maneira verbal e clara, ou de voltar atrás em decisões tomadas mesmo quando francamente equivocadas. Esta postura provém de um coração soberbo. Uma soberba que lhe faz pensar (mesmo que não de forma gráfica) sobre a sua superioridade. Talvez nutrida pelo seu conhecimento, ou sua posição de liderança, ou sua função de destaque, seus ganhos e merecimentos. Perceba, porém, que este é o caminho de morte. Seu coração, ao negar procurar o outro e falar: errei, perdoa-me, se lança em uma rota de colisão com o temor do Senhor e a sabedoria, o entendimento de que somos todos igualmente dependentes da graça de Cristo para viver.

Há também aqueles que, para reconhecerem um erro e assumirem a responsabilidade o fazem sob protesto e acusações. Refiro-me aos que, perante seu próprio pecado, racionalizam que o outro também pecou, ou é um agressor maior, que não foi leal ou submisso. Grande erro. Estas razões não passam de sombras nas quais tentam esconder seus próprios corações da humildade necessária para o quebrantamento.

Leon Tolstoi sabia que “todos pensam em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo ” atestando que é sempre mais fácil falar sobre os problemas universais do que sobre o pecado do coração. E Wertheimer escreveu que “somente depois de as termos praticado é que as faltas nos mostram quão facilmente as poderíamos ter evitado ”.

Nenhum de nós está isento da possibilidade do erro. Uma das admiráveis atitudes de Davi foi justamente assumir integralmente a sua responsabilidade quando Natan, após falar sobre um que roubara a única ovelhinha do vizinho, afirmou: “este homem és tu” . Davi não deu desculpas. Não racionalizou dizendo: outros fizeram pior do que eu. Nem mesmo tentou explicar suas motivações. Caiu de joelhos e colocou-se nas mãos de Deus. O coração de Davi dizia: “sou responsável”, e este tornou-se o homem segundo o coração de Deus.

Que Deus nos ajude a administrar o orgulho e a vergonha, também a humilhação, a fim de assumirmos a responsabilidade pelo pecado e seguirmos em frente no perdão transformador do Senhor.

Aprender com os erros


Precisamos compreender que integridade não é uma atitude medida pela ausência de erros, mas pela decisão em não repeti-los.

Quando assumimos responsabilidades o fazemos também em relação aos nossos erros. Precisamos compreender que integridade é um hábito que se ganha na rotina diária quando procuramos agir de forma pura e justa, e mesmo quando isto não acontece, devemos aprender com nossos erros.

Para que assim caminhemos será preciso, primeiramente, desmistificá-los. Dale Carnegie escreveu, na década de 50, o livro Como Evitar Preocupações e Começar a Viver . Neste livro Carnegie ensina que devemos deixar o medo de encarar os nossos erros. Devemos analisá-los e compreendê-los. Ele usa William James para nos ensinar que a aceitação do que aconteceu é o primeiro passo para se vencer as conseqüências de qualquer infortúnio.

Pensando em líderes devemos compreender o que muito bem foi colocado por Kevin Cashman ao expor que a habilidade que temos de crescer como líderes é limitada pela habilidade de crescermos como pessoas. Jamais devemos distinguir nossa função de liderança (mesmo porque é passageira) de nossa identidade pessoal. Um grande engano em época de empreendedorismo é um auto investimento no perfil de liderança. Não que isto não seja efetivo, porém é passageiro. Investir tempo, forças e energia para se qualificar como um bom líder pode lhe privar de investir tempo, forças e energia para crescer como pessoa e crente. Como líder posso dar-me ao luxo de seguir em frente mesmo tendo cometido erros, porém como pessoa e cristão meus erros, após pratica-los, se tornam minha melhor oportunidade de conserto e crescimento.

Para aprendermos com nossos erros é necessário leva-los a sério. Um temperamento explosivo não é apenas um temperamento forte mas algo que machuca pessoas, entristece o Espírito Santo pela falta de domínio próprio e nos pretere de vivermos mais tranquilos com nossas próprias reações. A crítica não é apenas uma questão de objetividade, ou ser direto, como muitas vezes justificamos. A crítica compulsiva é um agente do diabo para a destruição da vida alheia. Um desencorajamento que pode marcar uma pessoa pelo resto de sua vida além de um mecanismo que faz o coração do crítico adoecer com a amargura. Não conheço pessoas críticas felizes.

C.S.Lewis nos ensina que “quando um homem se torna melhor, compreende cada vez mais claramente o mal que ainda existe em si. Quando um homem se torna pior, percebe cada vez menos a sua própria maldade” . Para aprendermos com nossos erros é necessário leva-los a sério, conversar com o Pai sobre eles, pedir forças para mudarmos e amadurecermos, crescermos um pouco mais.

Cuidar do seu coração

O Senhor sonda nosso coração, portanto é nossa imagem interna, e não externa, que precisa de maior cuidado. Em dias de ufanismo e triunfalismo somos levados a procurar sempre o que nos destaca, ou destaca o nosso trabalho. Um grave engano visto que o Senhor não sonda nossos relatórios mas sim nossos corações. Dr Augustus Nicodemus, profundo expositor da Palavra, afirma que Deus não nos chama para termos sucesso sempre mas sim para sermos fiéis.

Compreender a marcante diferença entre caráter e reputação não pressupõe que faremos uma escolha legítima. É preciso estar disposto a priorizar a verdade. Abraham Lincoln gostava de afirmar que “caráter é como uma árvore e reputação a sombra. A sombra é o que nós pensamos sobre isto. A árvore é a realidade” .

Muitas vezes confundimos inteligência, conhecimento e sabedoria. Podemos aplicar as palavras “a inteligência é uma espada ... o caráter a empunhadeira”, de Bodenstedt, dizendo que é o caráter que delineará a sabedoria no agir. Outras vezes confundimos temperamento brando com bom caráter. Ao contrário, como disse Pierre Azaïz, “o caráter é a esperança do temperamento”. Um temperamento brando, quieto ou mais vagaroso pode dar a impressão de domínio próprio e esconder as paixões mais carnais.

Ele nos “sonda e nos conhece” e julga-nos com exatidão, pesa a nossa alma e categoriza todos os nossos sentimentos mais profundos. Você é quem Deus diz que você é. Convictos desta verdade é preciso crescer. Não priorize o crescimento da sua reputação, ministério ou carreira. São por demais importantes, porém transitórios. Priorize o crescimento do seu caráter e vida com o Pai. Escolha a melhor parte.

Publicado em Liderança e Integridade

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Gestão na igreja de Atos

Humildade e obediência à voz do Espírito de Deus

Por Rodolfo Montosa

Era um daqueles dias de grande agitação na Igreja que crescia. Muitas curas e milagres eram seguidos por generosas doações, transformando tudo em comum aos pés dos apóstolos. Embora aqueles recursos não fossem o objetivo da Igreja que nascia e se multiplicava, eram, no entanto, conseqüências da intensidade da presença do Espírito Santo, da comunhão dos santos e do amor que comandava os corações. O fato é que tais recursos permitiam um amplo atendimento aos necessitados.
Mas, naquele dia em especial, as divergências apareceram nas reclamações dos judeus de fala grega porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento em favor dos judeus de fala hebraica. Problemas à vista: o sistema de distribuição de alimentos não estava atendendo a todos, instalando um sentimento de injustiça, intensificando os conflitos. Por conta disso, houve a convocação de uma grande Assembléia entre todos os discípulos, coordenada pelos doze apóstolos, quando, enfim, chegaram à brilhante conclusão de que precisavam transferir a gestão financeira a sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Ao delegarem essa tarefa, focariam seus esforços à oração e ao ministério. Que humildade exigiu esse reconhecimento de investirem outros para a função de gestão!
Esses gestores não eram meros gestores, como tenderíamos a ver com olhos mais limitados a conceitos de administração mal compreendidos. Estamos falando, aqui, de uma estirpe de gestores gerados pelo Espírito de Deus, cheios da graça e do poder de Deus, homens capacitados para realizar grandes maravilhas e sinais entre o povo. Estirpe semelhante a José, Daniel e tantos outros ungidos para governar as finanças e recursos do reino de Deus. Pessoas levantadas em uma vida de santidade, cuja sabedoria e Espírito com que falavam não podiam ser resistidos. Pessoas comprometidas com Jesus, seu reino e seus valores.

Acertaram os apóstolos e os gestores
Os apóstolos acertaram por reconhecerem que não tinham dons para tratar dos assuntos, por compreenderem que sua missão poderia ser sacrificada, por discernirem que seu foco estava ligado ao pastoreamento das ovelhas, ao ensino da Palavra e às orações, por saberem escolher pessoas qualificadas e com o coração voltado à nova função que se criava, tudo na direção do Espírito Santo.
Os gestores acertaram por promoverem uma justa distribuição dos recursos que lhes eram confiados, por exercerem sua função de mordomia com eficácia e amor, por fazerem tudo com muita fé, sendo instrumentos de Deus para a operação de maravilhas, por desempenharem seu papel com primazia e cumprirem sua missão, tudo na direção do Espírito de Deus.
Encabeçando a lista dos sete gestores, encontramos o nome de Estêvão. Acusado à custa de testemunhas subornadas, foi intensamente ousado e cheio de sabedoria em seu discurso que o levaria à morte. Seus assassinos o agrediram pela ignorância e pela manifestação de um coração mau e cheio de pecado. Não podiam negar seu dom de zerar a fome, promover bem-estar, trazer paz e distribuir o que havia sido multiplicado.
Com este exemplo em mente, podemos olhar para a Igreja nos dias de hoje e refletirmos um pouco. A Igreja nunca teve tantos recursos financeiros, imóveis e pessoas como tem hoje em dia. Contudo, a fome está ao nosso redor. No Brasil, estima-se que 23 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de indigência, o que equivale dizer que 13% da população tem renda inferior ao valor de uma cesta de alimentos que permita a ingestão mínima de calorias diárias, ou seja, passam fome. Não é sem-razão que existem 170.000 detentos em 512 prisões representando um dos 10 maiores sistemas penais do mundo, que cresce, aproximadamente, 6% ao ano.
Precisamos de “apóstolos” (leia-se pastores) que reconheçam suas limitações e focos ministeriais e que valorizem o ministério dos gestores. Precisamos de gestores dispostos a darem suas vidas e talentos a serviço do reino de Deus, pois, afinal, o primeiro mártir da fé foi um gestor! Assim que a história de gestão foi escrita nos primeiros dias da Igreja em Atos: pessoas integradas exercendo seus dons e talentos a serviço do reino de Deus.

O autor é diretor do Instituto Jetro. www.institutojetro.com

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Princípios de um bom governo na igreja

Por Rodolfo Montosa

Jesus gerou a Igreja-organismo. E a Igreja-organismo, por sua vez, produziu a Igreja-organização. E fez isso para poder operar, expressar-se, viver em seu contexto e geração. A Igreja-organização deve promover e estimular a Igreja-organismo, pois foi criada exclusivamente para isso. A história nos ensina, contudo, que a tendência natural da Igreja-organização é buscar seus próprios interesses, dissociando-se da Igreja-organismo. A Igreja-organismo constrói sua autoridade na fé, no sangue muitas vezes derramado de seus mártires, nos carismas e na unidade da comunidade. Ao constituir, com as melhores intenções, a Igreja-organização, dota-a de poder. Então, a Igreja-instituição (ou Igreja-organização) passa a exercer o poder recebido, esquecendo-se, muitas vezes, que esse poder não é seu originalmente: “A lógica do poder é querer mais poder, conservar-se, preservar-se, entrar em compromissos e, caso corra risco, fazer concessões para sobreviver”. Assim caminha a Igreja-organização em busca de sua própria autonomia, pois nela existe a semente e o instinto de sobrevivência. Insubordina-se, por natureza, sempre que não for submetida a forças que a obriguem a se render à Igreja-organismo. Corre todos os riscos que a própria humanidade corre de se corromper, desviar-se de sua finalidade e se distanciar de seu Criador.

É possível que o governo da Igreja possa se defender de si mesmo? É possível construir mecanismos de blindagem da inclinação natural à corrupção? É possível assegurar que a Igreja-organização cumpra fielmente sua missão em submissão à Igreja-organismo?

Em primeiro lugar, existe um ambiente estranhamente favorável para a depuração de todo o tipo de corrupção no governo da Igreja. Esse ambiente é a perseguição. Durante todo tipo de perseguição na história da Igreja, e não é diferente nos dias de hoje, somente permaneceram (nem sempre vivos) aqueles que verdadeiramente pertenciam à Igreja-organismo. A marca dos líderes investidos na posição de governo da Igreja perseguida é semelhante ao dos dias de Atos. Assim como Estêvão, colocado na posição de governo da Igreja, martirizado por sua fé, “a autoridade destas pessoas vem pela vivência exemplar do mistério de Cristo e não pelo poder sacro de que foram investidas”.

Mas o ambiente de liberdade (muitas vezes, enganosa liberdade, como nos dias da institucionalização da Igreja por Constantino) exige práticas e princípios que, ao menos, tentam mitigar esse risco de perversão e devassidão. Alguns princípios podem, sim, ajudar no difícil desafio de governar a Igreja-organização no foco da Igreja-organismo, tais como: liderança partilhada, flexibilidade, transparência, eqüidade, prestação de contas, cumprimento das leis e ética.

O princípio da flexibilidade

“Desde os tempos de Jesus, a liderança tinha de ser partilhada”. E Jesus demonstrou isso quando enviou os apóstolos, de dois em dois, para proclamar o evangelho. Fundaram novas Igrejas, constituíram grupos de líderes, chamados “anciãos” (porque eram membros mais antigos), ou “bispos” (literalmente, “os que supervisionam”), ou “diáconos” (que significa “servos”). O título não importava, mas, sim, a tarefa — supervisão e serviço. Sempre grupos de pessoas. Toda a centralização excessiva aumenta o risco de desvio da Igreja-organização. A Bíblia ensina claramente que os dons do Espírito Santo são distribuídos, o que justifica que o governo deve incluir e compartilhar o poder.

“Sobre o tipo de governo que uma Igreja deve adotar, a Bíblia ensina princípios e não padrões”, por mais que alguns queiram insistir que são padrões as estruturas X,Y ou Z ou os cargos e funções A, B ou C. Por essa razão, assim como as soluções foram acontecendo ao longo da Igreja neotestamentária (p. ex.: Estêvão), o governo da Igreja deve ser flexível o suficiente e as estruturas, os códigos e os mecanismos de decisão surgirem como solução para as questões de seu tempo e, quando necessário, serem transformados, para que os novos desafios sejam atendidos. Na prática observada, entretanto, “as estruturas das igrejas têm, repetidamente, aprisionado a Igreja, assim como os contêineres, que inibem a fermentação, podem matar a vida do vinho — e ninguém pode sentir o aroma e o sabor”. A Igreja-organização deve servir e se adaptar às necessidades da Igreja-organismo, não o contrário.

O princípio da transparência


Outro importante princípio no governo da Igreja deve ser a transparência. Os líderes são chamados, assim como todos os cristãos, para andar na verdade, na luz, para fugir do que é obscuro, oculto, escuso. A coerência chama à existência a transparência. A transparência deve estar presente na vida pessoal, nos relacionamentos, na vida financeira e, é claro, na vida ministerial. Nesta última, ser um líder transparente é satisfazer às diferentes necessidades de informação dos diversos públicos com os quais a Igreja se relaciona, dentro de sua denominação, entre os diversos líderes internos, entre seus participantes e na comunidade em que está inserida. Um governo transparente tem apoio espiritual por meio da oração, desperta a confiança daqueles que estão à sua volta e mostra sua dependência do Espírito Santo.

O princípio da eqüidade

O princípio da eqüidade se refere ao tratamento justo e equânime entre os líderes e os diversos níveis de estrutura de governo. Na verdade, a eqüidade está entre as práticas de boa governança que mais pode estimular o bom funcionamento do trabalho. Isso porque, pela eqüidade, é possível despertar nas pessoas o sentimento de que todos, independente da função que desempenham, têm a mesma importância para o resultado final da missão. Entre os problemas para colocar a eqüidade em prática, inclusive na igreja, estão as preferências pessoais e o nível de afetividade para com determinadas pessoas ou, até mesmo, para com algumas áreas de atuação. Dois textos bíblicos inspiram o tema: “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tg 2.1) e “Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores” (Tg 2.9).

O princípio da prestação de contas

Estamos diante de mais um importante princípio para um bom governo: a prestação de contas. Em Lucas 16, Jesus conta mais uma parábola para despertar seus ouvintes quanto à necessidade da prestação de contas. Para o rico senhor da parábola, a prestação de contas era um pré-requisito, uma prática que deveria ser natural e contínua. Caso contrário, desabilitaria o mordomo a permanecer no cargo. Na prática, a prestação de contas serve para conferir se os mordomos que servem na Casa de Deus têm a visão afinada com a do seu Senhor. Representa, acima de tudo, segurança, tanto para quem presta contas como para quem recebe a prestação de contas. Isso porque, caso o mordomo planeje executar o serviço de outra maneira que não aquela estipulada (ou seja, fora da visão), há tempo para que o erro seja evitado.

A prestação de contas nada mais é que o relatório periódico feito por parte dos agentes de governança a quem os elegeu, nomeou e/ou contratou. É algo difícil de se cumprir, pois incorre em avaliação e exposição. Poucos são aqueles que gostam ou aceitam ser avaliados. A prestação de contas deve ser periódica, ter os critérios definidos e comparados com períodos anteriores e envolver números (critérios objetivos) e histórias (critérios subjetivos). Ela ajuda o líder a se proteger de si mesmo, atentando para o fato de que quase todos, conscientemente ou não, têm uma inclinação a ser manipulador, ou seja, “alguém que explora, usa e controla a si mesmo e os outros como ‘coisas’, de forma que cause o próprio fracasso”.

O princípio do cumprimento às leis

Faz-se necessário enfatizar que um bom governo da Igreja deve cumprir as leis do país em que está inserido. Alguns líderes acreditam que, por fazerem parte do povo de Deus, estão acima das leis dos homens, típica soberba da Igreja-organização em processo de corrupção pelo poder. Para cumprir as leis, um líder deve observar, de maneira preventiva e perspicaz, as implicações legais de todas as decisões tomadas e transações realizadas em sua igreja. Afinal, como Paulo escreveu aos irmãos da Igreja de Corinto, “zelamos do que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens” (2Co 8.21). Perante o Sistema Jurídico brasileiro, o “não cumprir por ignorância” não é válido, por isso, é melhor se precaver buscando uma boa assessoria legal. Isso é ser responsável.

O princípio ético

Um último princípio para um bom governo é a ética. É a definição dos valores que regem o comportamento dos integrantes da Igreja-organização em seus relacionamentos internos e externos. Nos aspectos internos, podem-se abordar as interações dos componentes da Igreja-organização com seus pares, autoridades estabelecidas, outros departamentos ou ministérios internos. Nos aspectos externos, podem-se estabelecer as interações com pessoas e órgãos públicos, fornecedores de bens e serviços, meio ambiente, outras igrejas, sindicatos e associações e partidos políticos. Para melhor compreensão deste princípio, vale diferenciar o que é ético, o que é moral e o que é legal.

“Ética se relaciona ao ambiente mais imediato da organização ou da igreja, como seus padrões de comportamento, política, valores, relacionamentos e tomada de decisões. Já moralidade, baseia-se num padrão absoluto — a Bíblia. Por último, legalidade se refere a uma lei codificada”.

De maneira simples, se alguma coisa é ilegal, é porque está violando a lei. Se é imoral, é porque não está em conformidade com algum padrão bíblico. Se é antiético, é porque está em desacordo com práticas e padrões aceitos na comunidade mais próxima. A Igreja-organização pode viver diversas situações resultantes da combinação desses fatores. Por exemplo, situações ilegais, mas que não são imorais. Situações éticas, mas ilegais. Situações imorais, porém, eticamente aceitas na comunidade.

Esses são apenas alguns exemplos. O alvo da Igreja-organização é alinhar seus padrões éticos aos valores morais bíblicos e à lei codificada que a rege perante as autoridades públicas.

Notas:

1 BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder, p.91.
2 Ibid., p. 87.
3 KEELEY, Robin (org.). Fundamentos da teologia cristã, p. 274.
4 RYRIE, Charles C.. Teologia Básica, p. 467.
5 SNYDER, Howard A. e RUNYON, Daniel. Decoding the Church, p. 61.
6 DUNNAM, Maxie e HERBERTSON, Gary. The manipulator and the Church, p. 83.
7 BIEHL, Bobb e ENGSTROM, Ted. The effective board member, p.9.

O autor é diretor do Instituto Jetro.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Igreja - Realidade espiritual e organizacional

Por Rodolfo Montosa

Temos percebido uma constante e crescente tensão entre dois extremos na liderança cristã-evangélica. De um lado, aqueles que passo a chamar de “profetas espiritualistas”, porque, em nome da essência relacional do evangelho, da sublimidade da missão, da profundidade existencial do conteúdo bíblico e da adoração contemplativa, sacam seu arsenal verborrágico contra toda e qualquer expressão organizacional da Igreja, fixando-se, obcecadamente, em comparação inexata e parcial com empresas de mercado. Do outro lado, aqueles que passo a chamar de “líderes pragmáticos”, porque em nome do reino de Deus, da carência dos necessitados, do cumprimento de seu chamamento e de sua própria visão, voltam-se, alucinadamente, para a obtenção de resultados objetivos em seus ministérios, ignorando, por completo, a crítica dos primeiros ou qualquer outro tipo de reflexão teológico-bíblica, por considerarem iniciativas desse tipo absoluta perda de tempo. Quem, afinal, está certo? Simultaneamente, os dois e nenhum. Sendo assim, passemos a algumas questões.

Crentes são clientes? Congregação é uma franquia? Pregação é marketing? Apelo é fechamento de vendas? Aconselhamento, ensino e orações são serviços prestados? E o que dizer do dízimo, seria o pagamento pelos serviços? Contudo, têm empregados, recolhem encargos, têm CNPJ, fazem sua contabilidade, têm fluxo financeiro constante de recebimentos e pagamentos, acumulam patrimônio, realizam assembléias, fazem prestação de contas, localizam-se em um endereço estratégico, estão na lista telefônica, contratam, destratam e muito mais. O que é isso, então? Simultaneamente, a realidade espiritual e organizacional da Igreja.

Na realidade espiritual, tudo está centrado em Cristo: sua morte sacrificial, sua ressurreição, seu perdão, nosso arrependimento, nossa confissão, a reconciliação, o reaprendizado, a transformação, a constatação externa da mudança interior, o testemunho, a divulgação dessa graça, a permanente renúncia, o crescimento espiritual, o relacionamento renovado com Deus e com o próximo.

Na realidade organizacional, tudo está centrado nas pessoas: a regularidade dos encontros, seu conteúdo, o atendimento das necessidades, a formação educacional, o local, o horário, o programa, o som, as cadeiras, a decoração, os compromissos financeiros conseqüentes, os desafios para alcançar outros, a mobilização para fora, o senso do ir, do fazer acontecer, do se importar.

O grande desafio para todos, então, é conciliar essas duas realidades concomitantes. Não se levantar contra uma, como forma de exaltar a outra. Muito menos focalizar uma e ignorar a outra. Buscar as motivações santas e íntegras do coração na melhor excelência e destreza das mãos.

Se os espiritualistas insistirem em ignorar a realidade organizacional da Igreja, agindo inconseqüentemente, sem buscar resultados para o reino de Deus, por favor, renunciem seus salários, doem o patrimônio acumulado, dispensem os empregados, rasguem as atas, abandonem os programas de ensino, as liturgias programadas, os planos futuros, etc. Estão convidados à frustração ministerial. Mas não se esqueçam de apagar as luzes no final.

Se os pragmáticos insistirem em ignorar a realidade espiritual da Igreja, agindo sem temor e santidade, por favor, aproveitem ao máximo tudo o que arrecadarem, insuflem-se ao extremo do prazer da autopromoção, pois, naquele dia, muitos dirão a Jesus: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? Então, Ele lhes dirá claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal!’”.

Aos que buscam o cumprimento integral de seu chamamento, mesmo sabendo da permanente tensão dessas realidades, busquem com alegria e com o coração o ministério de pastor, aprendendo e reaprendendo conforme os dons do Espírito distribuídos na Igreja, liderando e conduzindo com excelência. Entendam a importância da equipe que complementa e viabiliza a continuidade da missão. Respeitem as leis naturais do organismo e da organização. Tenham piedade e competência. Contemplem-se na adoração e atuem com responsabilidade social. Sejam servos e mordomos. Manejem bem a Palavra da Verdade e administrem as finanças com prudência e inteligência. Tenham toda a iniciativa no servir e toda a dependência de Deus no liderar. Vivam com sabedoria e intensidade as realidades espiritual e organizacional da Igreja.

O autor é diretor do Instituto Jetro.

domingo, 12 de setembro de 2010

Impacto da Pós-Modernidade na Liturgia Cristã

Escrito por Alessandro Rocha

Pós-Modernidade, então, é sujeito e objeto num processo dialético de construção da sociedade. É uma espécie de líquido amniótico que nutre a sociedade na gestação de novos valores, ou de novos posicionamentos frente a valores antigos. O que estaria incólume neste processo de construção e reconstrução cultural? Que instituição poderia se apresentar como supra-histórica a fim de reivindicar uma intocabilidade da cultura em seus valores e conceitos? Uma resposta séria, sob qualquer ponto de vista, deve ser que nenhuma instituição passa por uma virada cultural sem que seus conteúdos e formas sejam discutidos, remodelados, ou então, drasticamente modificados.
Nossa intenção ao constatar a amplitude de penetração social da Pós-Modernidade, não é de analisá-la nas diversas instituições que formam a sociedade, mas antes, de sedimentar nossa reflexão sobre uma instituição que historicamente pretenciona status de intocabilidade dado seu caráter e peculiaridade transcendentes. Nem mesmo tomaremos todos os elementos da religião em nossa análise, deter-nos-emos naquele que julgamos ser o reflexo evidente da teologia latente do cristianismo, a saber, a liturgia. Nossa tese, portanto, não toma a liturgia como mero conjunto de elementos celebrativos, mas como “realidade teologal e não apenas antropológica, social, histórica ou lingüística. Portanto, o fazer da ciência litúrgica é um fazer teológico: procura compreender, analisar, ordenar logicamente os dados da Revelação, reinterpretá-los a partir de cada novo momento ou situação histórica”.[1]
Portanto ao falarmos de impacto da Pós-Modernidade sobre a liturgia cristã estamos, ao mesmo tempo, falando de um impacto sobre a própria teologia, que é em última análise, a forma como esta tradição religiosa se enxerga na sociedade em que se encontra. Falar da liturgia cristã na Pós-modernidade consiste, portanto, em olhar para as relações que as igrejas estabelecem com seus fiéis e vice-versa.
Historicamente o significado da liturgia advem da prestação de serviços; segundo Hermisten Maia P. Costa[2] este significado passou por uma evolução em quatro etapas: liturgia como serviço prestado voluntariamente à pátria, serviço obrigatório ao Estado, serviços de qualquer natureza e, por fim serviço religioso prestado por sacerdotes a divindades. É-nos possível dizer, a partir da própria história da liturgia, que sua lógica subjacente é a prestação de serviço. O que nos propomos então é esclarecer como a Pós-Modernidade influenciou esta prestação. Isto é, como o deslocamento do eixo Teocêntrico para o Antropocêntrico influenciou na mudança de sujeitos no processo litúrgico.
Buscaremos evidenciar nossa tese propondo que a quarta etapa do processo de evolução da liturgia (serviço religioso) acompanhou o deslocamento do eixo acima citado. Com isto a liturgia que antes era serviço prestado a Deus, agora é serviço que Ele presta aos homens por intermédio das igrejas. Para evidenciarmos esta mudança tomaremos duas características da Pós-Modernidade que se encontram fortemente presentes na liturgia cristã, quer das igrejas neopentecostais (que não sofreram impacto da Pós-Modernidade, pois são “filhas” dela), quer das históricas tradicionais ou pentecostais. Estas características são a mercantilização (fora do mercado não há salvação)[3] e, a funcionalidade como critério teológico que alimenta a lógica do consumismo.

1- Funcionalidade como Critério Teológico: Elemento de legitimação do consumo.

A Pós-Modernidade, como expressão cultural, pode ser evidenciada em diversos segmentos da sociedade e praticamente na totalidade dos seus elementos. No entanto há uma expressão que lhe é bastante peculiar, sobretudo em comparação com a Modernidade. A Modernidade era embalada por certa utopia (dimensão do ideológico) que unia os homens em torno de causas, sendo elas legítimas ou não. A crise da Modernidade, que proporia sua superação, tem como marca principal o deslocamento desta lógica social para uma outra individual.[4]
Este deslocamento de eixo pode ser explicado a partir do deslocamento do núcleo deste sistema. A Modernidade somava o resquício do teocentrismo (mais acentuado no Pré-Modernismo) com o antropocentrismo ideológico (que pretendia a evolução da raça humana). Na Pós-Modernidade o que vemos é um antropocentrismo com acentuado traço de “mercadocentrismo” voraz e extremamente descartável. Como em todas as outras épocas essas mudanças não são manifestações isoladas nem mesmo abstrações acadêmicas, elas são elementos presentes em todas as práticas sociais e, por vezes, pautam-nas.
Mas onde esse deslocamento provoca a tirania da funcionalidade e o domínio do consumo? Se pensarmos de forma global notaremos que na Modernidade as ações eram coletivas, os ideais eram a longo prazo, os bens disponíveis estavam mais equanimente franqueados, e a prática religiosa não era particularizada nem na presença institucional, nem mesmo na possibilidade da devoção pessoal. Todos estes elementos propunham uma relação mais estável do ser humano com o mundo, onde os sistemas proporcionavam certezas duráveis que uma vez assimiladas dificilmente seriam substituídas, não possibilitando então o consumismo de nenhuma espécie.
Com o advento da Pós-Modernidade esta ordem global e, por decorrência a local, foi duramente invertida: não há ideologia, não há sonho global, não há sistemas seguros e portanto não há segurança em sistemas. O ser humano passa a se relacionar com a lógica da instabilidade ontológica, onde o ser não é se não tem. Essa nova ordem que J. B. Libâneo chama de darwinismo social e econômico[5], exige de mulheres e homens a funcionalidade acima de tudo. Produzir mais do que realmente é necessário, gerar uma necessidade por possuir além daquilo que é preciso, reconhecer as pessoas por sua performance neste processo, essa é a lógica global vigente.
Essas mudanças e deslocamentos nos alcançam por intermédio do processo de comunicação midiático e interpessoal. Uma vez que o assimilamos passamos a reproduzi-los. Isso se dá da mesma forma com a religião, só que com um dado novo. Na religião as questões transitórias são revestidas, por seus interlocutores, de caráter sacro. Retomando a especificidade da nossa tese central, diríamos que o cristianismo em geral e sua liturgia em particular, uma vez tendo assimilado essa nova lógica, é por ela mais influenciado do que as demais instituições.
A contundência desta afirmação surge da análise do impacto que a Pós-Modernidade impingiu sobre a liturgia cristã, a ponto de transformá-la em praticamente quase toda a sua totalidade. Como já dissemos, notar esse impacto no neopentecostalismo seria um pleonasmo, visto que ele é fruto direto desta mudança cultural. Portanto, percebemos que onde mais se evidencia esse impacto é no cristianismo histórico, que vem se dobrando sistematicamente à tirania da funcionalidade e do consumo. Se não vejamos: o que é o movimento de crescimento da igreja? Qual o fator de motivação deste crescimento? Quais elementos da teologia servem mais particularmente à expansão proposta por ele?
Aqui tocamos no cerne da nossa discussão. Não nos resta dúvida que é através da liturgia, como realidade teologal e comunicacional, que o cristianismo é alcançado pelos valores externos, e é também por meio dela que ele os internaliza. A liturgia é veículo autorizado de comunicação de verdades. O que é dito num culto tem uma menor probabilidade de ser filtrado pelo sistema crítico de cada pessoa. Esse dado faz dela um instrumento muito perigoso, sobretudo quando lhe falta um tônus crítico e ela se alia à Pós-Modernidade festiva[6], isto é, quando ela passa a legitimar a ordem política do darwinismo social e do consumismo desenfreado.
Pensando então no cristianismo histórico diríamos que sua liturgia, em nome do crescimento a todo custo, está intimamente ligada ao deslocamento social, político e econômico pelo qual passou a Pós-Modernidade. O movimento de crescimento da igreja é um símbolo desse processo, nele a tirania da funcionalidade, que é elevada de conseqüência necessária para a vida da igreja em fator absoluto onde se verifica a plausibilidade deste ou daquela teologia. Isto toca diretamente na liturgia na medida em que é por meio dela que se dá o processo subliminar de convencimento. O culto não é serviço prestado a Deus, mas exatamente o contrário. Para que a igreja cresça os homens precisam ser atendidos em suas necessidades sentidas.
O livro “Celebrando o Amor de Deus” da série Desenvolvimento Natural da Igreja (expressão mais consistente entre os movimentos de crescimento) propõe textualmente o seguinte: “se as pessoas só vêm por obrigação, e não porque estão entusiasmadas, então estamos fazendo algo muito errado, pois no culto não somos nós que servimos a Deus, mas é Deus quem serve a nós. Isto significa que quando eu sair do culto preciso me sentir melhor do que quando entrei”[7]. Percebemos, portanto, que o fator de motivação é o bem estar individual que uma vez atendido pode redundar em crescimento numérico. Esse bem estar precisa ser sentido dominicalmente e, é exatamente aí que percebemos o consumismo sagrado. “Vou ao culto buscar a minha bênção” diriam alguns, “se não a encontro aqui a busco ali”. Para melhor atender a esses clientes os pastores, padres e líderes fazem de tudo para aperfeiçoarem sua performance. As igrejas e os púlpitos se transformam em teatros onde os textos representados devem agradar à platéia pagante, e também em mercado onde bens de consumo (bênçãos) são barganhados[8].
É, sem dúvida, a lógica do mercado pautando a prática religiosa. Por outro lado, esta relação onde as pessoas desejam ser atendidas, serve à criação de sujeitos religiosos que acabam por conduzir suas próprias escolhas. O fato de alguém sair de uma comunidade religiosa que não lhe atende mais pode ser o resultado de um processo de autonomia onde esta pessoa se tornou sujeito de sua própria história. Contudo este efeito é uma ação indireta da religião, pois sua maior ênfase, neste caso, não está na autonomia e sim no individualismo.

2 - Um Novo Rosto Para a Igreja... Clientela ou Comunidade?

Essa condição ambígua em que a Igreja se encontra na pós-modernidade, além de gestar um novo sujeito religioso, por decorrência, gesta também uma outra forma de ser Igreja. Esse processo de gênese é, como já dissemos, ambíguo, mas também dialético. O pastor ou animador entregasse à performance como critério de avaliação de seu ministério, mas também a comunidade eclesial aspira pelo espetáculo fugaz.
Toda essa prática pastoral não pode ser entendida em sua profundidade senão se olhada desde a perspectiva do freqüentador da Igreja. ou por outras palavras, o púlpito deve ser visto também a partir do “banco da Igreja”.
Ao contemplarmos estas duas visões, percebemos um terrível processo de retroalimentação, no qual. Uma prática pastoral, motivada por uma lógica econômica de fundo, vai gerar uma clientela religiosa e não uma comunidade. Esta, por sua vez, vai alimentar aquela prática pastoral. Pretender determinar o que gerou este processo, seria mais ou menos retomar aquela discussão infantil, quanto, a saber, quem veio primeiro a galinha ou o ovo. Podemos dizer que essa prática pastoral e esta clientela religiosa são fenômenos concomitantes e estão inseparavelmente ligados desde sua origem.
Com o surgimento dessa clientela religiosa percebemos deslocamentos que se desenvolovem como se segue.

2.1 – Da busca da verdade para o desejo místico da experiência.

Vivemos hoje uma cultura da sensação onde é verdadeiro o que se sente, onde a emoção é a mola propulsora das relações. Em tempos de pós-modernidade o tom é dado pelo místico, experienciado concretamente na experiência.
Essa centralidade da experiência está estampada nas diversas denominações do cristianismo brasileiro (não só dele), sobretudo naquelas que assumem conscientemente os elementos de certa espiritualidade neopentecostal ou carismática.
Não é sem razão que a espiritualidade gestada nesses grupos/movimentos não contempla o silêncio e a meditação como alguns de seus elementos formadores. Os cultos acontecem à base de adrenalina, fazendo de seus participantes verdadeiros “indiana Jones da fé”, aventureiros ávidos por sensações.
Neste reino das emoções, o trono está reservado para a experiência mística (que se confunde, e faz confundir, com misticismo). Ela se torna não somente o alvo e o centro de toda a espiritualidade, como também um dos principias alicerces a partir dos quais toda essa clientela religiosa vive. A busca da experiência com o sobrenatural e a posse de certos códigos de linguagem, identifica esses movimentos tanto com o gnosticismo tardio, quanto com as religiões de mistério greco-romanas.
A própria escolha da comunidade que se vai “freqüentar”, passa pela capacidade que esta tem de satisfazer certo conjunto de anseios e demandas. O trânsito acelerado entre as mais diversas comunidades e grupos de oração é inevitável. Quando o poço das experiências vai se esvaziando, busca-se um outro ainda mais borbulhante. É como alguém que se sente num deserto, sofrendo a sequidão existencial, que vendo um oásis, abandona instintivamente o seu quase vazio cantil.
Busca-se desesperadamente a experiência coma verdade sem se preocupar muito com ela. Importa usufruir emocionalmente da verdade sem se comprometer com as implicações dela decorrentes, pois a experiência se torna a grande verdade.

2.2 – Da conversão profunda para o consumismo superficial.

A conseqüência mais óbvia e imediata desse enfraquecimento do desejo de se buscar a verdade para o prazer obsessivo da experiência, dá-se no âmbito da conversão.

O compromisso último dessa clientela religiosa é com a satisfação da sua necessidade, seja ela de ordem material, espiritual ou emocional. Busca-se a igreja para consumir o que ela tem para oferecer, como se entra numa loja para comprar aquilo que se precisa e se vai embora sem se deixar afetar por nada que essa loja represente. Assim se comporta essa freguesia religiosa. Consome oração, mas não se dispõe a orar. Consome alegria, mas não se dispõe a construir a alegria do outro. Consome Jesus, mas não se quer comprometer com seu caminho. Consome-se tudo, mas não se abre para a conversão. Transforman-se realidades espirituais em objeto de consumo existencial.
Esta perspectiva consumista se contrapõe ao conceito bíblico de conversão. A conversão traz para a vida de quem é atingido por ela, não somente uma experiência, mais uma relação com Deus, consigo e com o outro capaz de estruturar a vida. A conversão cristã e as implicações dela decorrentes formam o alicerce do ser humano. Esta é pelo menos a perspectiva cristã a cerca da existência humana. Quem busca a conversão nesses termos, encontra a solidez de um encontro.
Neste consumismo religioso, os consumidores são guiados por uma necessidade de satisfação egoísta exatamente análoga à do consumismo pós-moderno. Por ser assim, correm o mesmo risco da apatia e da indiferença religiosa. No fundo, estamos presenciando um deslocamento que vai do sólido para o frágil do concreto para o fugaz.
No compasso de espera próprio de quem se encontra no centro desse processo cultural chamado pós-modernidade, por isso mesmo com todas as dificuldades de estabelecer um juízo crítico de valor, aguardamos apreensivos, essa constituição de novos sujeitos e coletividades onde se dá a celebração da fé cristã.

Conclusão.
Embora o impacto da Pós-Modernidade na liturgia cristã tenha proporcionado alguns bens, tais como a flexibilização inclusiva, a dinamização da comunicação da Palavra, a autonomia do sujeito e sua postura como quem precisa receber algo – e esses bens devem ser aceitos e cultivados – o impacto negativo, por vezes, eclipsa estes avanços e precisa ser rejeitado, não descartando os elementos positivos, antes, os incorporando a fim de viabilizar com melhor eficácia a comunicação do Evangelho.
Na lógica da funcionalidade e do consumismo a prática litúrgica cristã (sobretudo de traço neopentecostal e carismático) tem se mostrado como uma relação entre consumidores e empreendedores. O lado positivo é que os dois são sujeitos, o dado inaceitável é que o produto-objeto desta relação comercial seja o próprio Deus e suas coisas.

Alessandro Rocha
Doutorando em teologia na PUC – Rio de Janeiro
Pastor auxiliar da Segunda Igreja Batista de Petrópolis

Bibliografia

[1] BUYST, Ione. Como Estudar Liturgia. São Paulo. Paulinas. 1989. Pg.26.

[2] C. F. COSTA, Hermisten M. P. Teologia do Culto. Belo Horizonte. CEP. Pg 14-15.

[3] C F. SUNG, Jung Mo. Neoliberalismo como Religião Econômica. PUC/SP. 1998.

[4] PEDREIRA, Eduardo R. Surgimento da Sociedade Pós-Moderna: um breve histórico.

[5] J. B. Libâneo, O Sagrado na Pós-Modernidade. In: Vários, A Sedução do Sagrado.Vozes. 1999. pg65.

[6] Ibid. Pg 66.

[7] DOUGLAS, Klaus. Celebrando o Amor de Deus. Curitiba. Ed. Evangélica Esperança. 2000. pg. 31.

[8] CF. CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado. Petrópolis. Vozes. 2000.

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