Ética e Liderança Cristã: Artigo em Jornal
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segunda-feira, 13 de março de 2017

Caráter e Liderança Serva: Dez Características de líderes eficazes que cuidam


Larry C. Spears (*)
Centro Spears

Temos experimentado uma mudança rápida em várias empresas e organizações sem fins lucrativos – fora dos modelos de liderança mais tradicionais autocráticos e hierárquicos e mais voltada à liderança serva, como uma forma de se relacionar com os outros. A liderança serva procura envolver outros no processo de decisão, é fortemente baseada no comportamento ético e de cuidado com o outro e reforça o crescimento de funcionários, ao melhorar o cuidado e a qualidade da vida organizacional. Este artigo analisa um conjunto de dez características do líder servo, que são de importância vital. Elas são: escutar, empatia, cura, conscientização, persuasão, conceitualização, visão, administração responsável, compromisso com o crescimento de pessoas, e o desenvolvimento da comunidade. Este documento foi inicialmente publicado no ano 2000 no Volume 8, Publicação 3 de Concepts and Connections [Conceitos e Conexões], o boletim informativo da National Clearinghouse for Leadership Programs. E está sendo reimpresso aqui, com permissão.
O nosso entendimento fundamental do caráter tem muito a ver com os traços fundamentais mostrados por uma pessoa. Tem havido nos últimos anos um interesse crescente sobre a natureza e a formação do caráter, com base na crença que os traços positivos do caráter podem ser ensinados e aprendidos. Muitas pessoas hoje estão familiarizadas com o programa Character Counts! (sm) [O Caráter Conta!], do Instituto de Ética Josephson. Este programa foi adotado por várias escolas e comunidades em todo o país e ensina valores centrais, que eles chamam de “Os seis Pilares do Caráter”. Esses seis valores específicos de caráter são: confiabilidade, respeito, responsabilidade, imparcialidade, cuidado e cidadania. A natureza do caráter em relação aos líderes tem tido um significado cada vez maior nos últimos anos. Um grande número de conhecidos autores sobre liderança tem considerado os aspectos do caráter de líderes. James Hillman (1996), no The Soul’s Code: In Search of Character and Calling, [Código da Alma: À procura do Caráter e do Chamado], descreve a “fonte invisível de coerência pessoal, para a qual estou usando a palavra ´hábito´, que a psicologia hoje chama de caráter. O caráter se refere a estruturas profundas de personalidade, que são particularmente resistentes à mudança” (p. 260).
A literatura sobre liderança contém várias listas diferentes dos traços de caráter praticadas por líderes. Eu pessoalmente gosto da pequena lista de Warren Bennis (1989), incluída em seu livro On Becoming a Leader [Tornando-se um Líder], no qual ele identifica a “visão, inspiração, empatia e confiabilidade” como características chave da liderança eficaz (p. 140). Muito da literatura sobre liderança inclui como pressuposto implícito a crença de que as características positivas podem e devem ser encorajadas e praticadas pelos líderes. Robert K. Greenleaf, o criador do termo liderança serva, é alguém que pensou e escrever muito sobre a natureza da liderança serva e do caráter.

Liderança e Caráter de Servo

O líder-servo é em primeiro lugar um servo. Isso começa com o sentimento natural de que uma pessoa deseja servir. Daí a escolha consciente proporciona a essa pessoa a aspiração de liderar. O melhor teste é: os que foram servidos se desenvolvem como pessoas: eles, ao serem servidos, se tornam mais saudáveis, sábios, livres, independentes, mais propensos a se tornarem servos? E qual o efeito sobre os menos privilegiados na sociedade – eles serão beneficiados ou, pelo menos, não se tornarão ainda mais carentes? Greenleaf, 1977/2002, p. 27).
Com essa definição em 1970, o executivo aposentado da AT&T Robert K. Greenleaf (1904-1990) cunhou o termo liderança serva e inaugurou uma revolução silenciosa no modo como vemos e praticamos a liderança. Três décadas depois o conceito de liderança serva é cada vez mais visto como uma forma ideal de liderança procurada por um número incalculável de pessoas e organizações. Na verdade, temos hoje testemunhado uma explosão sem paralelo no interesse e na prática da liderança serva.
Temos experimentado uma mudança rápida em várias empresas e organizações sem fins lucrativos – fora dos modelos de liderança mais tradicionais autocráticos e hierárquicos e mais voltada à liderança serva, como uma forma de se relacionar com os outros. A liderança serva busca envolver outros no processo de decisão, é fortemente baseada no comportamento ético e de cuidado com o outro, além de intensificar o desenvolvimento de funcionários, a melhorar o cuidado e a qualidade da vida organizacional.
As palavras servo e líder são normalmente entendidas como sendo opostas entre si. Ao deliberadamente juntar essas palavras de um modo significativo, Robert Greenleaf deu origem ao termo paradoxal liderança serva. Nos anos seguintes muitos dos pensadores mais criativos dos dias de hoje têm escrito e falado sobre a liderança serva como um paradigma de liderança emergente para o século XXI. A lista é longa e inclui: James Autry, Warren Bennis, Peter Block, John Carver, Stephen Covey, Max DePree, Joseph Jaworski, James Kouzes, Larraine Matusak, Parker Palmer, M. Scott Peck, Peter Senge, Peter Vaill, Margaret Wheatley e Danah Zohar, somente para nomear alguns dos autores e defensores atuais de ponta na área de liderança serva. Em seu livro inovador sobre ciência quântica e liderança, Rewiring the Corporate Brain (1997) [Reajustando o Cérebro Coorporativo], Zohar atreve-se mesmo a afirmar que “A liderança serva é a essência do pensamento quântico e da liderança quântica” (p. 146).

Dez Características de Um Líder Servo

Depois de alguns anos estudando cuidadosamente a obra original de Greenleaf eu identifiquei um conjunto de dez características do líder servo que entendo ser de importância vital - essencial ao desenvolvimento de líderes-servos. Meu próprio trabalho atual envolve um entendimento aprofundado das seguintes características e como elas contribuem para a prática significativa da liderança serva. Essas dez características são:

Escutar
Os líderes têm sido tradicionalmente reconhecidos por suas habilidades de comunicação e de tomada de decisão. Embora estas sejam também habilidades importantes para o líder servo, elas precisam ser reforçadas por um compromisso profundo de atentamente escutar os outros. O líder servo procura identificar a vontade de um grupo e ajuda a aclarar essa vontade. Ele ou ela escuta de modo receptivo o que está sendo dito e não dito. Escutar também abrange ouvir sua própria voz interior. Escutar, associado com períodos de reflexão, é essencial ao desenvolvimento e bem-estar do líder servo.

Empatia
O líder servo se esforça por entender e se mostrar empatia para com os outros. As pessoas precisam ser aceitas e reconhecidas por seus sentimentos próprios e especiais. Uma pessoa assume as boas intenções em relação a colegas de trabalho e não os rejeita como pessoas, mesmo quando seja forçado a não aceitar certos comportamentos ou desempenho.

Cura
A cura de relacionamentos é uma força poderosa de transformação e integração. Um dos grandes pontos positivos da liderança serva é o potencial de cura para si próprio e para o relacionamento com outros. Muitas pessoas têm seus sentimentos destruídos e sofrem com várias feridas emocionais. Embora isso seja parte do ser humano, os líderes servos reconhecem que eles têm uma oportunidade de ajudar e restaurar completamente aqueles com os quais eles têm contato. Em seu ensaio O Servo como Líder, Greenleaf (1977/2002), escreve: “Há alguma coisa sutil comunicada àqueles que têm sido servidos e liderados se, implícito entre o líder-servo e a pessoa liderada, está o entendimento de que a busca pela plenitude é alguma coisa que eles compartilham” (p. 50).

Conscientização
A conscientização geral, e especialmente a autoconscientização, fortalece o líder-servo. Ela ajuda no entendimento de situações envolvendo ética, poder e valores. A conscientização se empresta a ser capaz de ver a maioria das situações de uma posição mais integrada e completa. Como Greenleaf (1977/2002) observou: “A conscientização não é um conforto – é exatamente o contrário.
Ela é um elemento perturbador e despertador. Líderes capazes são de modo geral agudamente despertos e razoavelmente perturbados. ” (p. 41).

Persuasão
Outra característica dos líderes servos é a confiança na persuasão, mais do que na autoridade posicional, ao tomar decisões numa organização. O líder servo procura convencer outros, ao invés de coagir para a conformidade. Este elemento em especial oferece uma das distinções mais claras entre o modelo tradicional autoritário e o da liderança serva. O líder servo é eficaz na construção de consenso entre grupos. Esta ênfase em persuasão ao invés da coerção tem suas raízes nas convicções da Sociedade Religiosa de Amigos (Quakers) – o corpo denominacional ao qual Robert Greenleaf pertencia.

Conceitualização
Líderes servos buscam nutrir suas habilidades de sonhar grandes sonhos. A habilidade de ver um problema ou uma organização a partir da perspectiva de conceitualizaão significa que uma pessoa deve pensar além das realidades do dia a dia. Para muitos líderes esta é uma característica que requer disciplina e prática. O líder tradicional está preocupado com a necessidade de alcançar metas operacionais a curto prazo. O líder que também deseja ser um líder servo deve expandir o seu pensamento para incorporar o pensamento conceitual mais amplo. Nas organizações a conceitualizaão é, por sua própria natureza, uma função chave de conselhos de administração ou diretores. Infelizmente as diretorias podem algumas vezes se tornar envolvidas nas operações do dia a dia – uma coisa que deve ser desencorajada – e, portanto, fracassam em fornecer o conceito visionário para uma instituição. Os membros do conselho de administração precisam ser o mais conceitual possível em sua orientação, o staff precisa ser o mais operacional possível em sua perspectiva e os líderes executivos mais eficientes provavelmente precisam desenvolver dentro de si ambas as perspectivas. Líderes servos são chamados para buscar o equilíbrio delicado entre o pensamento conceitual e a abordagem operacional do dia a dia.

Visão
Intimamente relacionada à conceitualizaão, a habilidade de ver o resultado provável de uma situação é difícil de definir, mas mais fácil de identificar. Alguém sabe o que é visão quando a experimenta. A visão é uma caraterística que capacita o líder servo a entender as lições do passado, as realidades do presente e a consequência provável de uma decisão para o futuro. Ela também tem raízes profundas na mente intuitiva. A visão continua a ser uma área largamente inexplorada nos estudos sobre liderança, mas que merece grande atenção.

Administração responsável
Peter Block (1993) – autor de Stewardship e The Empowered Manager, [Administração Responsável e O Gestor Empoderado] – definiu a administração responsável como “guardar algo em confiança para outra pessoa” (p. xx). A visão de Robert Greenleaf de todas as instituições era que todos os CEOs, equipes de trabalho e diretoria desempenhavam funções significativas em cuidar de suas instituições em confiança para o bem maior da sociedade. A liderança serva, como a administração responsável, presume antes de mais nada um compromisso em servir as necessidades de outros. Ela também enfatiza o uso da transparência e persuasão, ao invés do controle.

Compromisso com o Crescimento de Pessoas
Os líderes servos creem que as pessoas têm um valor intrínseco além de suas contribuições concretas como funcionários. Como tal o líder servo está profundamente comprometido com o crescimento de cada um e de todos em sua organização. O líder servo reconhece a tremenda responsabilidade de fazer tudo que está em seu poder para nutrir o crescimento pessoal e profissional de seus empregados e colegas. Na prática, isso pode incluir (mas não se limitar a) ações concretas, como disponibilizar recursos para o desenvolvimento pessoal e profissional, ter interesse pessoal em ideias e sugestões de todas as pessoas, encorajar o envolvimento do funcionário na tomada de decisões e ativamente auxiliar funcionários demitidos a encontrar outro emprego.

Desenvolvimento da comunidade
O líder servo percebe que muito tem sido perdido na história humana recente, como resultado da mudança das comunidades locais para as grandes instituições como modeladoras principais de vidas humanas. Esta conscientização leva o líder servo a buscar identificar meios entre aqueles que trabalham numa dada instituição, para o desenvolvimento da comunidade. A liderança serva sugere que uma comunidade autêntica pode ser criada entre aqueles que trabalham em empresas e em outras instituições. Greenleaf (1977/2002) disse:

Tudo que é necessário para reconstruir uma comunidade como uma forma de vida viável para um grande número de pessoas é que um número suficiente de líderes-servos aponte o caminho, não através de movimentos de massa, mas cada líder-servo demonstrando sua responsabilidade ilimitada para um grupo bem específico relacionado com a comunidade. (p. 53)

Conclusão

Estas dez características da liderança serva não são de forma alguma completas.
Mas elas servem para comunicar a força e a promessa que este conceito oferece aos que estão abertos ao seu convite e desafio.
O interesse no significado e na prática da liderança serva continua a crescer. Centenas de livros, artigos e documentos sobre o assunto têm sido agora publicados. Muitas das empresas citadas na listagem anual da Revista Fortune como “As 100 Melhores Empresas para se Trabalhar” adotam a liderança serva e a integram em suas culturas corporativas. Como mais e mais organizações e pessoas têm procurado colocar a liderança serva em prática, o trabalho do Centro Spears para Liderança-Serva continua a se expandir para ajudar a responder a essa necessidade.
As características da liderança serva muitas vezes ocorrem de modo natural em muitas pessoas. E, como muitas tendências naturais, elas podem ser reforçadas através do aprendizado e da prática. A liderança serva oferece grande esperança para o futuro ao produzir instituições melhores e que cuidem mais.

(*) Larry C. Spears é o presidente e CEO do Centro Larry C. Spears para Liderança-Serva (www.spearscenter.org). Ele trabalhou como presidente e CEO do Centro Robert K. Greenleaf para Liderança-Serva, de 1990 a 2007. Ele também é escritor e editor e tem publicado centenas de artigos, ensaios, boletins informativos, livros e outras publicações sobre liderança serva.
E-mail: lspears@spearscenter.org


Referências

Bennis, W. (1989). On becoming a leader [Tornando-se um Líder]. Reading, MA: Addison-Wesley Publishing Company Inc.

Block, P. (1993). Stewardship: Choosing service over self interest [Administração Responsável: Escolhendo o serviço acima do interesse próprio]. São Francisco, CA: Berrett-Koehler Publishing.

Greenleaf, R. K. (1977/2002). Servant-leadership: A journey into the nature of legitimate power and greatness [Administração responsável-liderança: Uma jornada pela natureza do poder legítimo e pela grandeza]. Mahwah, NJ: Paulist Press.

Hillman, J. (1996). The soul’s code: In search of character and calling [O código da alma: Em busca do caráter e do chamado]. Nova Iorque, NY: Random House.

Josephson, M., & Hanson, W. (Eds.). (1998). The power of character [O poder do caráter]. São Francisco, CA: Jossey Bass.

Kellerman, B. & Matusak, L. (Eds.). (2000). Cutting edge: Leadership 2000 [Vanguarda: Liderança 2000]. College Park, MD: Adademia de Liderança James MacGregor Burns.

Spears, L.C. (Ed.). (1998). Insights on leadership: Service, stewardship, spirit and servant-leadership [Perspectivas sobre liderança: Serviço, administração responsável, alma e liderança serva. Nova Iorque, NY: John Wiley & Sons.

Zohar, D. (1997). Rewiring the corporate brain [Reajustando o Cérebro Coorporativo]. São Francisco, CA: Berrett-Koehler.

Extraído de The Journal of Virtues & Leadership, Vol. 1 Iss. 1, 2010, 25-30. © 2010 School of Global Leadership & Entrepreneurship, Regent University Spears/JOURNAL OF VIRTUES & LEADERSHIP 26

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Felicidade é contagiosa?

Gilberto Dimenstein(*)


Um estudo lançado pela Faculdade de Saúde Pública de Harvard, acompanhando 5.000 pessoas por 20 anos, mostrou evidências de que pessoas felizes tendem a transmitir essa sensação entre familiares e amigos, como se fosse um contágio --tristeza também se propaga, mas em menor intensidade.
Esse tipo de informação faz parte de um esforço de Harvard de encarar a felicidade, objeto do besteirol de autoajuda, cientificamente. Daí ter sido criado na escola de medicina a 'ciência da felicidade', usando as novas tecnologias para mapear o cérebro. O que se descobre ali é aplicado em hospitais. Ou até em políticas públicas: professores da universidade estão orientando prefeitos a criar um índice de felicidade.
Ou seja, essas descobertas podem ter implicação em decisões individuais e coletivos. Os estudos mostram por exemplo que, ao contrário do que se imagina a vontade de adquirir coisas e ser feliz gera menos satisfação, na área de recompensas do cérebro, do que uma vida simples, como o convívio com a natureza, com amigos ou a solidariedade.

...
Coloquei no Catraca Livre (www.catracalivre.com.br) vídeo com uma palestra de um professora da ciência da felicidade de Harvard. Com um botão, você aciona a tradução em português.

(*) Gilberto Dimenstein, 53 anos, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Lei sobre ortotanásia pode abrir brecha para eutanásia

Por Miguel Martini

Legislar sobre a ortotanásia — que é o decorrer natural do processo de morte, sem intervenção de tratamento artificial que prolongue a vida vegetativa do paciente — pode abrir brechas para a aprovação da eutanásia no país. Por essa razão, somos contra uma lei a respeito desse tema. Consideramos melhor disciplinar sobre os procedimentos assegurados ao paciente.
Por isso, preocupado com o tema, apresentamos o projeto de lei 6.544/09, que dispõe sobre os cuidados devidos a pacientes que se encontram em fase terminal de enfermidade.
A vida humana deve receber todo cuidado e toda atenção, desde a concepção até completar seu curso natural, pois todo ser humano tem direito de nascer, crescer e chegar ao fim de sua vida com dignidade.
Sabemos que drogas e máquinas de última geração são capazes de manter um cidadão "vivo" por muito tempo, às vezes, por anos, sem nenhuma perspectiva concreta de recuperação.
No entanto, a ética, o bom senso e a caridade determinam ser desnecessário prolongar a vida artificialmente se tal procedimento não levar à esperança de reversão do quadro clínico ou da recuperação do paciente em casos terminais.
Um exemplo claro do que estamos falando — e que o mundo inteiro tomou conhecimento — ocorreu com o papa João Paulo 2º. Diante de sua enfermidade, mantê-lo vivo artificialmente, sobrevivendo por aparelhos, em nada melhoraria seu quadro, além de prolongar seu sofrimento e o de todos que o amavam.
É importante ressaltar que uma decisão da prática da ortotanásia deve sempre ser tomada com aquiescência do paciente e dos seus familiares e/ou responsáveis, conforme aconteceu com o papa João Paulo 2º.
À luz do projeto de lei que queremos aprovar, é mais ético e moral que se procure aliviar a dor do paciente e que se lhe ofereça qualidade de vida junto a seus familiares, evitando intervenções agressivas que não trazem esperança de vida, e sim mais sofrimento e desgaste para o paciente e para a família.
Urge alertar a classe médica para um sério discernimento sobre as condições do paciente e dos meios terapêuticos à disposição, pois a renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia. O projeto de lei 6.544/09 distingue-se em tudo e por tudo da eutanásia, que não é aceitável.
O médico deve esclarecer ao paciente em fase terminal de enfermidade, à sua família e ao seu representante legal as modalidades terapêuticas, adequadas e proporcionais para o tratamento do seu caso específico.
O papa Pio 12, em 1957, afirmava que é lícito suprimir a dor por meio de narcóticos, mesmo com a consequência de limitar a consciência e abreviar a vida, "se não existem outros meios e se, naquelas circunstâncias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres religiosos e morais".
No entanto, também deve ser considerado que a Igreja Católica nos diz, no Código Canônico (nº 65): "Não se deve privar o paciente da consciência de si mesmo, sem motivo grave. Quando se aproxima a morte, as pessoas devem estar em condições de poder satisfazer as suas obrigações morais e familiares e devem sobretudo poder preparar-se com plena consciência para o encontro definitivo com Deus".
Os dois princípios devem ser considerados antes de qualquer decisão. Consideramos, ainda, fundamental que haja mecanismos que permitam, com segurança, detectar casos semelhantes a esses e que os pacientes deles se beneficiem, sem, no entanto, abrir-se à possibilidade da prática da eutanásia.
Acreditamos que, com a aprovação do projeto de lei de nossa autoria, daremos os balizadores necessários para que a comissão de ética multidisciplinar em cada unidade hospitalar possa intervir com segurança nesses casos.
O assunto certamente levará a profundos debates na Comissão de Seguridade Social e Família, onde tramitam as duas proposições.
Assim, daremos uma resposta à sociedade atendendo aos pressupostos da ética médica, da dignidade humana e do profundo respeito aos direitos do paciente.

[Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 26 de dezembro de 2009.]

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Gravidez por estupro pode ser interrompida

Seis mulheres grávidas em conseqüência de estupro foram encaminhadas no ano passado pelo Serviço Viver ao Iperba, em Brotas, para proceder a interrupção da gestação. De acordo com a coordenadora-geral do Viver, Débora Cohim, esse número não expressa a real quantidade de mulheres que engravidam em conseqüência de violência sexual. Segundo ela, é muito alto o índice de subnotificação e o público atendido pelo serviço, composto basicamente por pessoas de classe baixa, não reflete o que ocorre nas classes média e alta.
No ano passado, o Viver registrou 792 pacientes novos – entre homens (7%) e mulheres (93%) vítimas de violência sexual independentemente da idade. Todos recebem apoio social, psicológico, jurídico e na área de saúde. Nos casos em que a mulher expressa sua intenção de interromper a gestação, elas são encaminhadas ao Iperba, local de referência para acolher estes casos.
O coordenador-médico do Iperba, Edson Odwyer Júnior, explica que a paciente encaminhada é submetida a entrevista com a assistente social e a psicóloga. Ambas emitem um parecer, que informa se a mulher está consciente e segura da decisão.
O parecer é analisado pela coordenação médica e, em seguida, pela Comissão de Ética, composta por no mínimo três médicos. Este órgão, de caráter consultivo, verifica a adequação legal, técnica e ética do caso.
De acordo com Odwyer, esse trâmite demora em média uma semana, diferentemente do sistema antigo, que exigia uma dolorosa peregrinação da gestante. Além de estar gerando o fruto de uma grave violência, ela precisava de autorização judicial, para a qual era necessário ter boletim de ocorrência do crime e laudo do Instituto Médico-Legal.
Tudo isso levava tempo e muitas vezes colocava a vida da mulher em risco. “Agora desburocratizou”, diz o coordenador-médico. A simples afirmação da gestante assegurando que foi violentada é suficiente. Débora Cohim nega que haja mulheres que mintam para fazer o aborto legal. “Não houve aumento de demanda após a mudança das regras”, atesta.
CELERIDADE – A agilidade no processo é fundamental para garantir a segurança da gestante. A interrupção da gravidez com segurança para a mulher é feita até a 12ª semana. Porém, o aborto em mulheres vítimas de violência é consentido até entre a 20ª e 22ª semana de gravidez, ou seja, metade da gestação. “A interrupção após esse período é considerada parto prematuro. O bebê com seis meses nasce com vida”, explica Odwyer.
O presidente da Comissão de Ética do Iperba, o médico Davi Nunes, esclarece que a opção pelo aborto é uma faculdade da mulher. “É preciso respeitar o direito das pessoas, o qual é inquestionável porque está na lei. Mas, se a mulher optar por manter o feto, o Estado deve ampará-la”, observa o médico.
Ele conta que, há cerca de quatro anos, duas crianças, de 11 e 12 anos, vítimas de violência sexual, procuraram o hospital para fazer o aborto. Contudo, seus responsáveis legais acabaram decidindo por manter a gestação. “Eu mesmo acompanhei o pré-natal e fiz o parto”, recorda Nunes. O Código Penal Brasileiro, que data de 1940, no Art. 128, II, diz que “não se pune o aborto praticado por médico se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu responsável legal”.
Por falta de regulamentação dos procedimentos médicos, o aborto só era feito com autorização judicial. Em 1998, sob muitos aplausos e críticas, o Ministério da Saúde editou a norma “Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes”, que desburocratizou o procedimento.

Fonte: A Tarde

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Britânico escapa do corredor da morte depois de 20 anos

Fonte: BBC Brasil/Notícias Cristãs


Um cidadão britânico que passou 20 anos no corredor da morte em uma prisão de Ohio, Estados Unidos, será libertado até o Natal, segundo seu advogado.
Kenny Richey, de 43 anos, chegou a ficar a uma hora da execução. Ele foi condenado à pena capital em 1987, pela acusação de iniciar um incêndio que matou a menina Cynthia Collins, de dois anos.
Sua condenação foi revogada em agosto por uma corte americana depois de um recurso de apelação, abrindo caminho para um novo julgamento.
Richey, que sempre alegou ser inocente, acabou fazendo um acordo com a promotoria.
Ele mudou sua declaração original de inocente para uma declaração de 'não contestação' da acusação de homicídio culposo - o que não chega a ser uma admissão de culpa, mas é tratada como tal pelas cortes americanas.
Pelos termos do acordo fechado com a promotoria, ele será libertado por ter cumprido a pena prevista para homicídio culposo, de 11 anos.
Defensores dos direitos humanos comemoraram a notícia e o advogado de Kenny, Ken Parsigian, afirmou que foi uma "vitória completa".
"É o melhor presente de Natal que eu ou Kenny poderíamos pedir. Kenny está animado e emocionado. Ele está um pouco nervoso, pois agora tem que encontrar uma forma de voltar ao mundo real", disse ele ao jornal britânico The Times.

Recurso

Promotores alegaram que Kenny provocou um incêndio movido por ciúmes de sua ex-namorada e seu novo companheiro, que viviam no apartamento de baixo. Mas o acusado sempre se recusou a reconhecer os crimes.
Sua posição deve mudar em uma audiência marcada para esta quinta-feira. Seus advogados concordaram que seu cliente admitiria as acusações de homicídio culposo, invasão e risco à vida de uma criança.
De acordo com os advogados, o escocês, que deixou a casa de sua mãe em Edimburgo aos 18 anos para morar com seu pai americano, sairá da prisão em tempo para as festas de fim de ano.
Karen Torley, ex-noiva de Richey que ajudou na campanha pela libertação, afirmou que esperava a libertação.
"Estou feliz por ele e por sua família. Sempre foi uma vergonha que o sistema de Justiça de Ohio tenha considerado Kenny culpado, e chocante que o tenham colocado no corredor da morte e lutado para mantê-lo lá", disse.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Em debate: símbolos religiosos na sociedade secular

Simbolismo religioso: compatível com o secularismo?


Diante do atual renascimento da religião como fenômeno global, as sociedades seculares enfrentam o desafio de definir até onde símbolos religiosos podem estar presentes na vida pública.

Na parede da sala de Stefan Muckel, professor de Direito Canônico da Universidade de Colônia, está dependurado um crucifixo de metal, em frente a uma foto do papa Bento 16. Isso não é problema no ambiente acadêmico, garante o professor, pois cada um pode escolher, como quer, a decoração do próprio escritório.

E dependurar o crucifixo nas salas de aula, é possível? Não, revida Muckel, pois isso causaria provavelmente um "problema em relação à neutralidade". Ou seja, em determinados espaços públicos, como um tribunal ou uma sala de aula, é necessário manter, neste sentido, uma posição "neutra". Nestes lugares, não se deve passar a impressão de que se tem predileção por alguma religião especificamente.

Contradições de uma sociedade secular

Imposto religioso: recolhido pelo Estado e repassado às IgrejasBildunterschrift: Imposto religioso: recolhido pelo Estado e repassado às IgrejasNa Alemanha, a escolha religiosa é considerada, em primeiro plano, uma opção individual e particular de cada um. As salas dos professores, onde podem ser encontrados símbolos religiosos, não são, no entanto, um espaço considerado privado.

Percebe-se aí uma contradição. A Alemanha é, por um lado, de acordo com sua Lei Fundamental, um Estado secular, religioso e neutro do ponto ideológico-filosófico, que teoricamente se posiciona em prol da separação entre Igreja e Estado. Na prática, contudo, essas duas instâncias se misturam de várias formas, ao contrário do que acontece, por exemplo, na França, onde há uma separação rigorosa dos dois setores.

Essa contradição repercute de diversas maneiras na sociedade. Na Alemanha, não há nem uma religião, nem uma Igreja estatais. Mesmo assim, o Estado coopera tanto material quanto ideologicamente com as Igrejas. Segundo Muckel, não seria, por exemplo, uma obviedade, o fato de a Constituição Federal permitir ao Estado a arrecadação de impostos para a Igreja, tampouco a regra que estabelece aulas de religião, nas escolas públicas, como disciplina regular.

Fazendo uso de recursos públicos, a Igreja engaja-se bastante no país em setores de assistência social, como jardins-de-infância, escolas e hospitais. "Não é à-toa que as Igrejas são, na Alemanha, depois do serviço público, o maior empregador", resume o especialista em Direito Canônico.

Retorno às religiões

Jornada Mundial da Juventude: encontro das massasBildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Jornada Mundial da Juventude: encontro das massasÉ verdade que a Igreja vive lamentando a perda crescente de fiéis, o que provoca, em tese, uma crise eterna da instituição e uma redução dos "impostos religiosos". Em contraste peculiar a este cenário, porém, percebe-se, ao mesmo tempo, uma nova tendência de retorno da religião nas sociedades contemporâneas. Um retorno que não se restringe, de forma alguma, apenas ao cristianismo.

Em maio deste ano, 500 mil pessoas festejaram o Congresso da Igreja Luterana Alemã em Colônia. Em julho último, o Dalai Lama foi recebido em Hamburgo com tapetes vermelhos. Na ocasião, 50 mil pessoas participaram de seminários budistas na cidade. Neste contexto, não há de se esquecer também a Jornada Mundial da Juventude, uma das grandes confraternizações internacionais que aconteceram na Alemanha em 2005.

Construção de mesquita não é questão jurídica

Arquiteto Paul Boehm com maquete de mesquita a ser construída em Colônia: projeto polêmicoBildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Arquiteto Paul Boehm com maquete de mesquita a ser construída em Colônia: projeto polêmicoOnde há religião, há símbolos. Todas as religiões fazem uso explícito de rituais e simbolismos. Elas vivem disso. O que faz com que a pergunta já esteja, em princípio, lançada: quantos símbolos religiosos uma sociedade secular como a alemã consegue suportar, sem abandonar seu secularismo?

Deste ponto de vista meramente jurídico, diz Muckel, não há barreiras intransponíveis que impeçam a construção de uma grande mesquita em Colônia. A discussão sobre o assunto acontece, segundo o especialista, na esfera política.

Que altura podem ter os minaretes, a cúpula pode ter quais proporções, o quão imponente pode ser a obra? Em suma: quantas mesquitas suporta uma cidade liberal como Colônia? Por que as pessoas que se opõem à sua construção se sentem tão incomodadas? Por que a construção de uma Igreja não representaria problema algum, enquanto a de uma mesquita sim? As reações são muitas, os muçulmanos se sentem discriminados e feridos no direito fundamental de praticarem sua religião.

Proibição de alguns símbolos não-cristãos

Professora da rede pública com véu muçulmano: proibição por leiBildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Professora da rede pública com véu muçulmano: proibição por leiTambém em relação aos chamados "veredictos do véu" os muçulmanos se sentem tratados de forma diferenciada na Alemanha. Mesmo que, na maior parte dos estados do país, tenham sido aprovadas leis que proíbem símbolos religiosos no espaço público, estas proibições se dão de forma não igualitária.

Em Berlim, por exemplo, foram banidos das salas de aula símbolos de qualquer religião. Já em outras regiões do país, por outro lado, os símbolos cristãos e judeus continuam sendo permitidos, enquanto o véu muçulmano, signo do islã, é proibido.

Se uma professora muçulmana dá aulas com o véu na cabeça, dita o veredicto sobre o assunto, isso é visto como demonstração religiosa por um islã fundamentalista, que oprime os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, a atitude de cobrir a cabeça com o véu é apontada como infração à neutralidade das escolas alemãs.

Com um quipá (solidéu usado pelos judeus) cobrindo a cabeça, uma cruz dependurada no pescoço ou até mesmo com um hábito religioso católico cobrindo todo o corpo, é permitido dar aulas em quase todos os estados alemães – quando se trata de símbolos da tradição cristã-ocidental, vale, quase sempre, o argumento da legislação estadual.

O que isso significa, porém, perante a neutralidade do Estado frente a todas as religiões e concepções de mundo, uma vez que o Tribunal Constitucional Federal quer exatamente "tratar de maneira igualitária" todas as crenças?

Esta questão vai ocupar cada vez mais o centro do debate, acredita Gerd-Ulrich Kapteina, porta-voz do Tribunal Administrativo de Düsseldorf, em entrevita à Deutsche Welle. O tribunal confirmou no último 14 de agosto o recente veredicto acerca da proibição do uso do véu muçulmano por professoras nas escolas da rede pública, tendo salientado, no entanto, que uma diferenciação entre símbolos religiosos islâmicos e cristãos não é tolerável.

Ao lado de várias outras questões problemáticas, o exemplo da polêmica em torno do lenço mostra quais desafios o ressurgimento das religiões traz para a sociedade secular. A Alemanha, pelo menos até agora, ainda não encontrou as respostas ao problema.


Erning Zhu (sv)

Fonte: Deutche Welle

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Ética pode ser incluída nos currículos escolares

O ensino de valores éticos e de cidadania pode ser incluído no currículo dos ensino fundamental e médio.
O objetivo é capacitar professores e oferecer elementos para a discussão do tema dentro das salas de aula. A proposta será votada hoje na Comissão de Educação e Cultura do Senado, informou a Agência Câmara nesta terça-feira.
A proposta não é bem recebida pelo deputado Severiano Alves (PDT-BA). Segundo ele a União só competência para fixar conteúdos curriculares mínimos, de maneira a assegurar a formação básica nacional comum e o respeito aos valores culturais e artísticos, regionais e nacionais.
"Todos os demais conteúdos são de responsabilidade dos sistemas de ensino e das próprias escolas, as quais têm o dever de construir um currículo a partir de sua proposta pedagógica, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB)", destacou Alves à Agência Câmara.

Fonte: JBOnline

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sobre a ética

O pesquisador Rodrigo José Chacon de Mesquita, formado em Ciências Polítcas, pela Universidade de Fortaleza, discorre sobre a problemática da ética no contexto contemporâneo


A problemática que envolve a ética sempre foi e provavelmente continuará sendo tema que dá a tônica às discussões e debates dentro e fora da academia, fazendo com que seja amplamente conceituada, interpretada por diversos membros da intelligentsia mundial e sentida sua falta no campo prático. A dificuldade muitas vezes se concentra no fato de que não sendo um conceito uno, ela possa ser acionada e executada de diversas formas despertando assim a crítica de muitos.
Primeiramente faz-se necessário que pensemos qual o conceito de ética que nos norteia. Fundamentalmente a formação do preceito ético deve advir de uma racionalidade existente, partindo da moral subjetiva do indivíduo, sendo também o conjunto de relações sociais, políticas, educacionais, econômicas dentre outras, que possam estar dentro de uma normatividade ou não que, por subsecutivo apontará as diretrizes de uma coletividade. Ou seja, a ética é, além do agrupamento das morais, o resultado da racionalidade existente em uma sociedade.
Visto o que foi feito nas linhas ascendentes chegamos ao questionamento, por que se encontra um crítico problema entre ação e a ética? Sendo a razão condição sine qua non para a formação da ética, há a necessidade de se pensar no quadro existente as situações que possam agravar o caso. Analisemos o exemplo de um miserável que furta comida para alimentar-se. Eticamente, na sociedade atual, o furto é uma prática condenável, mas retornemos a questão da racionalidade introduzindo-a no modelo apresentado. Um sujeito, psicologicamente falando, somente pode ter considerada sua racionalidade intacta quando está pleno em seu desenvolvimento físico, logo a fome é um elemento que subtrai a razão de qualquer ser humano. Seguindo a lógica apresentada, sem racionalidade não se pode existir moral, conseguintemente o indivíduo citado poderia estar posto a margem de qualquer julgamento ético. Por outro lado, devido ao ordenamento jurídico, este lumpemproletário estaria sujeito a ser posto em cárcere privado. Outro caso poderia ser a de um sujeito nascido à margem de qualquer ensinamento moral ou teórico, como os menores abandonados. Estes estariam tipificados na mesma circunstância daquele.
Há de se convir então que o problema entre a ação e a ética está posto na condição em que a pessoa é construída, ato contínuo, de como é a ética da sociedade e de como ela é perpassada.
Entretanto os exemplos citados anteriormente não contemplam a complexidade do assunto, pois como se explicaria assim a sonegação de impostos dos mega-empresários ou a corrupção praticada ativamente ou passivamente pelos representantes políticos de um país, já que estes poderiam ser considerados bem formados intelectualmente, estarem bem fisicamente, logo com sua racionalidade intacta? No caso brasileiro, Roberto Damata fala do ´jeitinho brasileiro´ de resolver os problemas hodiernos, já Sérgio Buarque de Holanda faz referência ao ´homem cordial´. Ambas as teses acabam caindo no viés da explicação cultural como fonte da falta de apego ao que se relaciona a ética. Seria uma herança cultural já vinda da coroa e da sociedade portuguesa corroborada pela ´ignorância´ africana e nativa (nos referimos aqui aos pseudo-índios) que acabou por se tornar uma relevante propriedade do povo brasileiro. Acontece que ao tomarmos o problema da falta de ética como uma característica cultural, bastante explícita ao Brasil, há de se formular dois questionamentos cruciais: Quer dizer então que todo filho de ladrão, por exemplo, será ladrão por ser a ética uma herança também cultural? E como entenderemos então casos de corrupção na Europa e EUA (com grandes níveis de corrupção, mas esta sendo bastante ocultada) já que o tipo de formação societária foi por demais diferenciada do caso nacional?
Para a primeira pergunta deve-se entender que não é porque o pai de uma criança seja ladrão ou corrupto que o seu descendente também o será, até por que a explicação culturalista não fala de nada relacionado a herança genética. A formação ética de uma pessoa, como está explicada nos primeiros parágrafos, é dada por categorias políticas, educacionais... Ou seja, tudo o que o circundeia. Portanto, mesmo que o pai ensinasse deliberadamente o seu filho a ser desonesto este não seria necessariamente uma pessoa fora dos padrões civilizatórios da sociedade burguesa capitalista que vivemos. Pelo mesmo pensamento, não é necessariamente que um indivíduo será ético pelo simples motivo que seus pais o ensinaram. Pode-se então questionar a relevância do ensino de cadeiras de ética nas escolas e universidades, mas deixaremos isto para posteriori.
Quanto ao segundo questionamento, não se pode dizer que a falta de ética é um problema exclusivamente brasileiro, pois também é mundial. Mas se no Brasil o problema foi de herança cultural, como elucidar o caso da Dinamarca que é o país com o melhor IDH do mundo? Há de se entender que uma das características da falta de ética burguesa (não só burguesa, mas em muitos casos se torna exclusividade) é a corrupção e, para decepção dos que sonham com a pureza das relações sociais, esta é inerente à política. A corrupção está na política de maior ou menor expressividade, mas nunca deixou ou deixará de existir, logo os problemas éticos são quase que impossibilitados de solução, no máximo posto em menores proporções como nos países europeus mais desenvolvidos.
Destarte, podemos sim relacionar o problema da ética com a questão cultural, porém esta não é instância suficiente para responder toda a problemática, é apenas uma das particularidades da formação da solução, que fazemos questão de adiantar que não temos a resposta, pois não somos detentores da verdade una, este recurso somente Deus o tem, se Ele existir e for da mesma forma da idealização cristã.
Relacionado ao problema que se levantara anteriormente, fica então prejudicada a idéia de se ensinar ética. Muitos acadêmicos dizem que é inútil esta ciência, dando uma reposta maniqueísta ao proclamar que ´se tem ou não´. Quanto aos professores fica a resposta que uma cadeira de ética ajuda sim na formação de um bom indivíduo. Não se é aqui totalmente contra ou a favor das duas proposições, mas não vamos retornar ao debate da formação ética para isso, pois já está bastante clara a posição aqui defendida. O problema é que contemporaneamente as universidades ensinam esta ciência de forma fragmentada, para que se possa ilustrar esta afirmação é simples, basta se analisar a grade de diversos cursos e encontra-se a ética da Ciência Política, a ética do Direito, a ética da Medicina... Ao invés de se encontrar simplesmente ética, pois esta é universal. Logo nota-se que cada ciência forma o seu posicionamento do mundo, que deveria ser interdisciplinar e multisetorial, impossibilitando qualquer comunicação entre elas. Outro problema é que se um sujeito chega à academia pleno de suas convicções neste sentido (não sendo necessariamente uma convicção da lógica burguesa), dificilmente cambiará.

Não há então possibilidade de diminuir os atuais problemas relacionados à ética? Provavelmente sim. Muitos podem questionar então que não devido ser um problema cultural, mas estes se enganam, pois não é porque contém esta singularidade que não pode ser alterada, requer tempo, mas é possível. Discorda-se que o ensino científico ou familiar da ética seja a solução, contudo pode ser elemento participativo. Existe uma série de mudanças a serem feitas, mas de nada adiantará se a forma de sociedade continuar na mesma lógica depredadora e depreciativa como que vivemos. Fica então a esperança que com as auto-alterações feitas pelos seres humanos, a sua forma de sociabilidade mudará de forma a suprir as necessidades mínimas do ser, entre elas a ética.

RODRIGO JOSÉ CHACON DE MESQUITA
Cientista Político

Fonte: Diário do Nordeste - Caderno 3