quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sobre a ética

O pesquisador Rodrigo José Chacon de Mesquita, formado em Ciências Polítcas, pela Universidade de Fortaleza, discorre sobre a problemática da ética no contexto contemporâneo


A problemática que envolve a ética sempre foi e provavelmente continuará sendo tema que dá a tônica às discussões e debates dentro e fora da academia, fazendo com que seja amplamente conceituada, interpretada por diversos membros da intelligentsia mundial e sentida sua falta no campo prático. A dificuldade muitas vezes se concentra no fato de que não sendo um conceito uno, ela possa ser acionada e executada de diversas formas despertando assim a crítica de muitos.
Primeiramente faz-se necessário que pensemos qual o conceito de ética que nos norteia. Fundamentalmente a formação do preceito ético deve advir de uma racionalidade existente, partindo da moral subjetiva do indivíduo, sendo também o conjunto de relações sociais, políticas, educacionais, econômicas dentre outras, que possam estar dentro de uma normatividade ou não que, por subsecutivo apontará as diretrizes de uma coletividade. Ou seja, a ética é, além do agrupamento das morais, o resultado da racionalidade existente em uma sociedade.
Visto o que foi feito nas linhas ascendentes chegamos ao questionamento, por que se encontra um crítico problema entre ação e a ética? Sendo a razão condição sine qua non para a formação da ética, há a necessidade de se pensar no quadro existente as situações que possam agravar o caso. Analisemos o exemplo de um miserável que furta comida para alimentar-se. Eticamente, na sociedade atual, o furto é uma prática condenável, mas retornemos a questão da racionalidade introduzindo-a no modelo apresentado. Um sujeito, psicologicamente falando, somente pode ter considerada sua racionalidade intacta quando está pleno em seu desenvolvimento físico, logo a fome é um elemento que subtrai a razão de qualquer ser humano. Seguindo a lógica apresentada, sem racionalidade não se pode existir moral, conseguintemente o indivíduo citado poderia estar posto a margem de qualquer julgamento ético. Por outro lado, devido ao ordenamento jurídico, este lumpemproletário estaria sujeito a ser posto em cárcere privado. Outro caso poderia ser a de um sujeito nascido à margem de qualquer ensinamento moral ou teórico, como os menores abandonados. Estes estariam tipificados na mesma circunstância daquele.
Há de se convir então que o problema entre a ação e a ética está posto na condição em que a pessoa é construída, ato contínuo, de como é a ética da sociedade e de como ela é perpassada.
Entretanto os exemplos citados anteriormente não contemplam a complexidade do assunto, pois como se explicaria assim a sonegação de impostos dos mega-empresários ou a corrupção praticada ativamente ou passivamente pelos representantes políticos de um país, já que estes poderiam ser considerados bem formados intelectualmente, estarem bem fisicamente, logo com sua racionalidade intacta? No caso brasileiro, Roberto Damata fala do ´jeitinho brasileiro´ de resolver os problemas hodiernos, já Sérgio Buarque de Holanda faz referência ao ´homem cordial´. Ambas as teses acabam caindo no viés da explicação cultural como fonte da falta de apego ao que se relaciona a ética. Seria uma herança cultural já vinda da coroa e da sociedade portuguesa corroborada pela ´ignorância´ africana e nativa (nos referimos aqui aos pseudo-índios) que acabou por se tornar uma relevante propriedade do povo brasileiro. Acontece que ao tomarmos o problema da falta de ética como uma característica cultural, bastante explícita ao Brasil, há de se formular dois questionamentos cruciais: Quer dizer então que todo filho de ladrão, por exemplo, será ladrão por ser a ética uma herança também cultural? E como entenderemos então casos de corrupção na Europa e EUA (com grandes níveis de corrupção, mas esta sendo bastante ocultada) já que o tipo de formação societária foi por demais diferenciada do caso nacional?
Para a primeira pergunta deve-se entender que não é porque o pai de uma criança seja ladrão ou corrupto que o seu descendente também o será, até por que a explicação culturalista não fala de nada relacionado a herança genética. A formação ética de uma pessoa, como está explicada nos primeiros parágrafos, é dada por categorias políticas, educacionais... Ou seja, tudo o que o circundeia. Portanto, mesmo que o pai ensinasse deliberadamente o seu filho a ser desonesto este não seria necessariamente uma pessoa fora dos padrões civilizatórios da sociedade burguesa capitalista que vivemos. Pelo mesmo pensamento, não é necessariamente que um indivíduo será ético pelo simples motivo que seus pais o ensinaram. Pode-se então questionar a relevância do ensino de cadeiras de ética nas escolas e universidades, mas deixaremos isto para posteriori.
Quanto ao segundo questionamento, não se pode dizer que a falta de ética é um problema exclusivamente brasileiro, pois também é mundial. Mas se no Brasil o problema foi de herança cultural, como elucidar o caso da Dinamarca que é o país com o melhor IDH do mundo? Há de se entender que uma das características da falta de ética burguesa (não só burguesa, mas em muitos casos se torna exclusividade) é a corrupção e, para decepção dos que sonham com a pureza das relações sociais, esta é inerente à política. A corrupção está na política de maior ou menor expressividade, mas nunca deixou ou deixará de existir, logo os problemas éticos são quase que impossibilitados de solução, no máximo posto em menores proporções como nos países europeus mais desenvolvidos.
Destarte, podemos sim relacionar o problema da ética com a questão cultural, porém esta não é instância suficiente para responder toda a problemática, é apenas uma das particularidades da formação da solução, que fazemos questão de adiantar que não temos a resposta, pois não somos detentores da verdade una, este recurso somente Deus o tem, se Ele existir e for da mesma forma da idealização cristã.
Relacionado ao problema que se levantara anteriormente, fica então prejudicada a idéia de se ensinar ética. Muitos acadêmicos dizem que é inútil esta ciência, dando uma reposta maniqueísta ao proclamar que ´se tem ou não´. Quanto aos professores fica a resposta que uma cadeira de ética ajuda sim na formação de um bom indivíduo. Não se é aqui totalmente contra ou a favor das duas proposições, mas não vamos retornar ao debate da formação ética para isso, pois já está bastante clara a posição aqui defendida. O problema é que contemporaneamente as universidades ensinam esta ciência de forma fragmentada, para que se possa ilustrar esta afirmação é simples, basta se analisar a grade de diversos cursos e encontra-se a ética da Ciência Política, a ética do Direito, a ética da Medicina... Ao invés de se encontrar simplesmente ética, pois esta é universal. Logo nota-se que cada ciência forma o seu posicionamento do mundo, que deveria ser interdisciplinar e multisetorial, impossibilitando qualquer comunicação entre elas. Outro problema é que se um sujeito chega à academia pleno de suas convicções neste sentido (não sendo necessariamente uma convicção da lógica burguesa), dificilmente cambiará.

Não há então possibilidade de diminuir os atuais problemas relacionados à ética? Provavelmente sim. Muitos podem questionar então que não devido ser um problema cultural, mas estes se enganam, pois não é porque contém esta singularidade que não pode ser alterada, requer tempo, mas é possível. Discorda-se que o ensino científico ou familiar da ética seja a solução, contudo pode ser elemento participativo. Existe uma série de mudanças a serem feitas, mas de nada adiantará se a forma de sociedade continuar na mesma lógica depredadora e depreciativa como que vivemos. Fica então a esperança que com as auto-alterações feitas pelos seres humanos, a sua forma de sociabilidade mudará de forma a suprir as necessidades mínimas do ser, entre elas a ética.

RODRIGO JOSÉ CHACON DE MESQUITA
Cientista Político

Fonte: Diário do Nordeste - Caderno 3

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