terça-feira, 28 de setembro de 2010

Igreja - Realidade espiritual e organizacional

Por Rodolfo Montosa

Temos percebido uma constante e crescente tensão entre dois extremos na liderança cristã-evangélica. De um lado, aqueles que passo a chamar de “profetas espiritualistas”, porque, em nome da essência relacional do evangelho, da sublimidade da missão, da profundidade existencial do conteúdo bíblico e da adoração contemplativa, sacam seu arsenal verborrágico contra toda e qualquer expressão organizacional da Igreja, fixando-se, obcecadamente, em comparação inexata e parcial com empresas de mercado. Do outro lado, aqueles que passo a chamar de “líderes pragmáticos”, porque em nome do reino de Deus, da carência dos necessitados, do cumprimento de seu chamamento e de sua própria visão, voltam-se, alucinadamente, para a obtenção de resultados objetivos em seus ministérios, ignorando, por completo, a crítica dos primeiros ou qualquer outro tipo de reflexão teológico-bíblica, por considerarem iniciativas desse tipo absoluta perda de tempo. Quem, afinal, está certo? Simultaneamente, os dois e nenhum. Sendo assim, passemos a algumas questões.

Crentes são clientes? Congregação é uma franquia? Pregação é marketing? Apelo é fechamento de vendas? Aconselhamento, ensino e orações são serviços prestados? E o que dizer do dízimo, seria o pagamento pelos serviços? Contudo, têm empregados, recolhem encargos, têm CNPJ, fazem sua contabilidade, têm fluxo financeiro constante de recebimentos e pagamentos, acumulam patrimônio, realizam assembléias, fazem prestação de contas, localizam-se em um endereço estratégico, estão na lista telefônica, contratam, destratam e muito mais. O que é isso, então? Simultaneamente, a realidade espiritual e organizacional da Igreja.

Na realidade espiritual, tudo está centrado em Cristo: sua morte sacrificial, sua ressurreição, seu perdão, nosso arrependimento, nossa confissão, a reconciliação, o reaprendizado, a transformação, a constatação externa da mudança interior, o testemunho, a divulgação dessa graça, a permanente renúncia, o crescimento espiritual, o relacionamento renovado com Deus e com o próximo.

Na realidade organizacional, tudo está centrado nas pessoas: a regularidade dos encontros, seu conteúdo, o atendimento das necessidades, a formação educacional, o local, o horário, o programa, o som, as cadeiras, a decoração, os compromissos financeiros conseqüentes, os desafios para alcançar outros, a mobilização para fora, o senso do ir, do fazer acontecer, do se importar.

O grande desafio para todos, então, é conciliar essas duas realidades concomitantes. Não se levantar contra uma, como forma de exaltar a outra. Muito menos focalizar uma e ignorar a outra. Buscar as motivações santas e íntegras do coração na melhor excelência e destreza das mãos.

Se os espiritualistas insistirem em ignorar a realidade organizacional da Igreja, agindo inconseqüentemente, sem buscar resultados para o reino de Deus, por favor, renunciem seus salários, doem o patrimônio acumulado, dispensem os empregados, rasguem as atas, abandonem os programas de ensino, as liturgias programadas, os planos futuros, etc. Estão convidados à frustração ministerial. Mas não se esqueçam de apagar as luzes no final.

Se os pragmáticos insistirem em ignorar a realidade espiritual da Igreja, agindo sem temor e santidade, por favor, aproveitem ao máximo tudo o que arrecadarem, insuflem-se ao extremo do prazer da autopromoção, pois, naquele dia, muitos dirão a Jesus: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? Então, Ele lhes dirá claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal!’”.

Aos que buscam o cumprimento integral de seu chamamento, mesmo sabendo da permanente tensão dessas realidades, busquem com alegria e com o coração o ministério de pastor, aprendendo e reaprendendo conforme os dons do Espírito distribuídos na Igreja, liderando e conduzindo com excelência. Entendam a importância da equipe que complementa e viabiliza a continuidade da missão. Respeitem as leis naturais do organismo e da organização. Tenham piedade e competência. Contemplem-se na adoração e atuem com responsabilidade social. Sejam servos e mordomos. Manejem bem a Palavra da Verdade e administrem as finanças com prudência e inteligência. Tenham toda a iniciativa no servir e toda a dependência de Deus no liderar. Vivam com sabedoria e intensidade as realidades espiritual e organizacional da Igreja.

O autor é diretor do Instituto Jetro.

domingo, 12 de setembro de 2010

Impacto da Pós-Modernidade na Liturgia Cristã

Escrito por Alessandro Rocha

Pós-Modernidade, então, é sujeito e objeto num processo dialético de construção da sociedade. É uma espécie de líquido amniótico que nutre a sociedade na gestação de novos valores, ou de novos posicionamentos frente a valores antigos. O que estaria incólume neste processo de construção e reconstrução cultural? Que instituição poderia se apresentar como supra-histórica a fim de reivindicar uma intocabilidade da cultura em seus valores e conceitos? Uma resposta séria, sob qualquer ponto de vista, deve ser que nenhuma instituição passa por uma virada cultural sem que seus conteúdos e formas sejam discutidos, remodelados, ou então, drasticamente modificados.
Nossa intenção ao constatar a amplitude de penetração social da Pós-Modernidade, não é de analisá-la nas diversas instituições que formam a sociedade, mas antes, de sedimentar nossa reflexão sobre uma instituição que historicamente pretenciona status de intocabilidade dado seu caráter e peculiaridade transcendentes. Nem mesmo tomaremos todos os elementos da religião em nossa análise, deter-nos-emos naquele que julgamos ser o reflexo evidente da teologia latente do cristianismo, a saber, a liturgia. Nossa tese, portanto, não toma a liturgia como mero conjunto de elementos celebrativos, mas como “realidade teologal e não apenas antropológica, social, histórica ou lingüística. Portanto, o fazer da ciência litúrgica é um fazer teológico: procura compreender, analisar, ordenar logicamente os dados da Revelação, reinterpretá-los a partir de cada novo momento ou situação histórica”.[1]
Portanto ao falarmos de impacto da Pós-Modernidade sobre a liturgia cristã estamos, ao mesmo tempo, falando de um impacto sobre a própria teologia, que é em última análise, a forma como esta tradição religiosa se enxerga na sociedade em que se encontra. Falar da liturgia cristã na Pós-modernidade consiste, portanto, em olhar para as relações que as igrejas estabelecem com seus fiéis e vice-versa.
Historicamente o significado da liturgia advem da prestação de serviços; segundo Hermisten Maia P. Costa[2] este significado passou por uma evolução em quatro etapas: liturgia como serviço prestado voluntariamente à pátria, serviço obrigatório ao Estado, serviços de qualquer natureza e, por fim serviço religioso prestado por sacerdotes a divindades. É-nos possível dizer, a partir da própria história da liturgia, que sua lógica subjacente é a prestação de serviço. O que nos propomos então é esclarecer como a Pós-Modernidade influenciou esta prestação. Isto é, como o deslocamento do eixo Teocêntrico para o Antropocêntrico influenciou na mudança de sujeitos no processo litúrgico.
Buscaremos evidenciar nossa tese propondo que a quarta etapa do processo de evolução da liturgia (serviço religioso) acompanhou o deslocamento do eixo acima citado. Com isto a liturgia que antes era serviço prestado a Deus, agora é serviço que Ele presta aos homens por intermédio das igrejas. Para evidenciarmos esta mudança tomaremos duas características da Pós-Modernidade que se encontram fortemente presentes na liturgia cristã, quer das igrejas neopentecostais (que não sofreram impacto da Pós-Modernidade, pois são “filhas” dela), quer das históricas tradicionais ou pentecostais. Estas características são a mercantilização (fora do mercado não há salvação)[3] e, a funcionalidade como critério teológico que alimenta a lógica do consumismo.

1- Funcionalidade como Critério Teológico: Elemento de legitimação do consumo.

A Pós-Modernidade, como expressão cultural, pode ser evidenciada em diversos segmentos da sociedade e praticamente na totalidade dos seus elementos. No entanto há uma expressão que lhe é bastante peculiar, sobretudo em comparação com a Modernidade. A Modernidade era embalada por certa utopia (dimensão do ideológico) que unia os homens em torno de causas, sendo elas legítimas ou não. A crise da Modernidade, que proporia sua superação, tem como marca principal o deslocamento desta lógica social para uma outra individual.[4]
Este deslocamento de eixo pode ser explicado a partir do deslocamento do núcleo deste sistema. A Modernidade somava o resquício do teocentrismo (mais acentuado no Pré-Modernismo) com o antropocentrismo ideológico (que pretendia a evolução da raça humana). Na Pós-Modernidade o que vemos é um antropocentrismo com acentuado traço de “mercadocentrismo” voraz e extremamente descartável. Como em todas as outras épocas essas mudanças não são manifestações isoladas nem mesmo abstrações acadêmicas, elas são elementos presentes em todas as práticas sociais e, por vezes, pautam-nas.
Mas onde esse deslocamento provoca a tirania da funcionalidade e o domínio do consumo? Se pensarmos de forma global notaremos que na Modernidade as ações eram coletivas, os ideais eram a longo prazo, os bens disponíveis estavam mais equanimente franqueados, e a prática religiosa não era particularizada nem na presença institucional, nem mesmo na possibilidade da devoção pessoal. Todos estes elementos propunham uma relação mais estável do ser humano com o mundo, onde os sistemas proporcionavam certezas duráveis que uma vez assimiladas dificilmente seriam substituídas, não possibilitando então o consumismo de nenhuma espécie.
Com o advento da Pós-Modernidade esta ordem global e, por decorrência a local, foi duramente invertida: não há ideologia, não há sonho global, não há sistemas seguros e portanto não há segurança em sistemas. O ser humano passa a se relacionar com a lógica da instabilidade ontológica, onde o ser não é se não tem. Essa nova ordem que J. B. Libâneo chama de darwinismo social e econômico[5], exige de mulheres e homens a funcionalidade acima de tudo. Produzir mais do que realmente é necessário, gerar uma necessidade por possuir além daquilo que é preciso, reconhecer as pessoas por sua performance neste processo, essa é a lógica global vigente.
Essas mudanças e deslocamentos nos alcançam por intermédio do processo de comunicação midiático e interpessoal. Uma vez que o assimilamos passamos a reproduzi-los. Isso se dá da mesma forma com a religião, só que com um dado novo. Na religião as questões transitórias são revestidas, por seus interlocutores, de caráter sacro. Retomando a especificidade da nossa tese central, diríamos que o cristianismo em geral e sua liturgia em particular, uma vez tendo assimilado essa nova lógica, é por ela mais influenciado do que as demais instituições.
A contundência desta afirmação surge da análise do impacto que a Pós-Modernidade impingiu sobre a liturgia cristã, a ponto de transformá-la em praticamente quase toda a sua totalidade. Como já dissemos, notar esse impacto no neopentecostalismo seria um pleonasmo, visto que ele é fruto direto desta mudança cultural. Portanto, percebemos que onde mais se evidencia esse impacto é no cristianismo histórico, que vem se dobrando sistematicamente à tirania da funcionalidade e do consumo. Se não vejamos: o que é o movimento de crescimento da igreja? Qual o fator de motivação deste crescimento? Quais elementos da teologia servem mais particularmente à expansão proposta por ele?
Aqui tocamos no cerne da nossa discussão. Não nos resta dúvida que é através da liturgia, como realidade teologal e comunicacional, que o cristianismo é alcançado pelos valores externos, e é também por meio dela que ele os internaliza. A liturgia é veículo autorizado de comunicação de verdades. O que é dito num culto tem uma menor probabilidade de ser filtrado pelo sistema crítico de cada pessoa. Esse dado faz dela um instrumento muito perigoso, sobretudo quando lhe falta um tônus crítico e ela se alia à Pós-Modernidade festiva[6], isto é, quando ela passa a legitimar a ordem política do darwinismo social e do consumismo desenfreado.
Pensando então no cristianismo histórico diríamos que sua liturgia, em nome do crescimento a todo custo, está intimamente ligada ao deslocamento social, político e econômico pelo qual passou a Pós-Modernidade. O movimento de crescimento da igreja é um símbolo desse processo, nele a tirania da funcionalidade, que é elevada de conseqüência necessária para a vida da igreja em fator absoluto onde se verifica a plausibilidade deste ou daquela teologia. Isto toca diretamente na liturgia na medida em que é por meio dela que se dá o processo subliminar de convencimento. O culto não é serviço prestado a Deus, mas exatamente o contrário. Para que a igreja cresça os homens precisam ser atendidos em suas necessidades sentidas.
O livro “Celebrando o Amor de Deus” da série Desenvolvimento Natural da Igreja (expressão mais consistente entre os movimentos de crescimento) propõe textualmente o seguinte: “se as pessoas só vêm por obrigação, e não porque estão entusiasmadas, então estamos fazendo algo muito errado, pois no culto não somos nós que servimos a Deus, mas é Deus quem serve a nós. Isto significa que quando eu sair do culto preciso me sentir melhor do que quando entrei”[7]. Percebemos, portanto, que o fator de motivação é o bem estar individual que uma vez atendido pode redundar em crescimento numérico. Esse bem estar precisa ser sentido dominicalmente e, é exatamente aí que percebemos o consumismo sagrado. “Vou ao culto buscar a minha bênção” diriam alguns, “se não a encontro aqui a busco ali”. Para melhor atender a esses clientes os pastores, padres e líderes fazem de tudo para aperfeiçoarem sua performance. As igrejas e os púlpitos se transformam em teatros onde os textos representados devem agradar à platéia pagante, e também em mercado onde bens de consumo (bênçãos) são barganhados[8].
É, sem dúvida, a lógica do mercado pautando a prática religiosa. Por outro lado, esta relação onde as pessoas desejam ser atendidas, serve à criação de sujeitos religiosos que acabam por conduzir suas próprias escolhas. O fato de alguém sair de uma comunidade religiosa que não lhe atende mais pode ser o resultado de um processo de autonomia onde esta pessoa se tornou sujeito de sua própria história. Contudo este efeito é uma ação indireta da religião, pois sua maior ênfase, neste caso, não está na autonomia e sim no individualismo.

2 - Um Novo Rosto Para a Igreja... Clientela ou Comunidade?

Essa condição ambígua em que a Igreja se encontra na pós-modernidade, além de gestar um novo sujeito religioso, por decorrência, gesta também uma outra forma de ser Igreja. Esse processo de gênese é, como já dissemos, ambíguo, mas também dialético. O pastor ou animador entregasse à performance como critério de avaliação de seu ministério, mas também a comunidade eclesial aspira pelo espetáculo fugaz.
Toda essa prática pastoral não pode ser entendida em sua profundidade senão se olhada desde a perspectiva do freqüentador da Igreja. ou por outras palavras, o púlpito deve ser visto também a partir do “banco da Igreja”.
Ao contemplarmos estas duas visões, percebemos um terrível processo de retroalimentação, no qual. Uma prática pastoral, motivada por uma lógica econômica de fundo, vai gerar uma clientela religiosa e não uma comunidade. Esta, por sua vez, vai alimentar aquela prática pastoral. Pretender determinar o que gerou este processo, seria mais ou menos retomar aquela discussão infantil, quanto, a saber, quem veio primeiro a galinha ou o ovo. Podemos dizer que essa prática pastoral e esta clientela religiosa são fenômenos concomitantes e estão inseparavelmente ligados desde sua origem.
Com o surgimento dessa clientela religiosa percebemos deslocamentos que se desenvolovem como se segue.

2.1 – Da busca da verdade para o desejo místico da experiência.

Vivemos hoje uma cultura da sensação onde é verdadeiro o que se sente, onde a emoção é a mola propulsora das relações. Em tempos de pós-modernidade o tom é dado pelo místico, experienciado concretamente na experiência.
Essa centralidade da experiência está estampada nas diversas denominações do cristianismo brasileiro (não só dele), sobretudo naquelas que assumem conscientemente os elementos de certa espiritualidade neopentecostal ou carismática.
Não é sem razão que a espiritualidade gestada nesses grupos/movimentos não contempla o silêncio e a meditação como alguns de seus elementos formadores. Os cultos acontecem à base de adrenalina, fazendo de seus participantes verdadeiros “indiana Jones da fé”, aventureiros ávidos por sensações.
Neste reino das emoções, o trono está reservado para a experiência mística (que se confunde, e faz confundir, com misticismo). Ela se torna não somente o alvo e o centro de toda a espiritualidade, como também um dos principias alicerces a partir dos quais toda essa clientela religiosa vive. A busca da experiência com o sobrenatural e a posse de certos códigos de linguagem, identifica esses movimentos tanto com o gnosticismo tardio, quanto com as religiões de mistério greco-romanas.
A própria escolha da comunidade que se vai “freqüentar”, passa pela capacidade que esta tem de satisfazer certo conjunto de anseios e demandas. O trânsito acelerado entre as mais diversas comunidades e grupos de oração é inevitável. Quando o poço das experiências vai se esvaziando, busca-se um outro ainda mais borbulhante. É como alguém que se sente num deserto, sofrendo a sequidão existencial, que vendo um oásis, abandona instintivamente o seu quase vazio cantil.
Busca-se desesperadamente a experiência coma verdade sem se preocupar muito com ela. Importa usufruir emocionalmente da verdade sem se comprometer com as implicações dela decorrentes, pois a experiência se torna a grande verdade.

2.2 – Da conversão profunda para o consumismo superficial.

A conseqüência mais óbvia e imediata desse enfraquecimento do desejo de se buscar a verdade para o prazer obsessivo da experiência, dá-se no âmbito da conversão.

O compromisso último dessa clientela religiosa é com a satisfação da sua necessidade, seja ela de ordem material, espiritual ou emocional. Busca-se a igreja para consumir o que ela tem para oferecer, como se entra numa loja para comprar aquilo que se precisa e se vai embora sem se deixar afetar por nada que essa loja represente. Assim se comporta essa freguesia religiosa. Consome oração, mas não se dispõe a orar. Consome alegria, mas não se dispõe a construir a alegria do outro. Consome Jesus, mas não se quer comprometer com seu caminho. Consome-se tudo, mas não se abre para a conversão. Transforman-se realidades espirituais em objeto de consumo existencial.
Esta perspectiva consumista se contrapõe ao conceito bíblico de conversão. A conversão traz para a vida de quem é atingido por ela, não somente uma experiência, mais uma relação com Deus, consigo e com o outro capaz de estruturar a vida. A conversão cristã e as implicações dela decorrentes formam o alicerce do ser humano. Esta é pelo menos a perspectiva cristã a cerca da existência humana. Quem busca a conversão nesses termos, encontra a solidez de um encontro.
Neste consumismo religioso, os consumidores são guiados por uma necessidade de satisfação egoísta exatamente análoga à do consumismo pós-moderno. Por ser assim, correm o mesmo risco da apatia e da indiferença religiosa. No fundo, estamos presenciando um deslocamento que vai do sólido para o frágil do concreto para o fugaz.
No compasso de espera próprio de quem se encontra no centro desse processo cultural chamado pós-modernidade, por isso mesmo com todas as dificuldades de estabelecer um juízo crítico de valor, aguardamos apreensivos, essa constituição de novos sujeitos e coletividades onde se dá a celebração da fé cristã.

Conclusão.
Embora o impacto da Pós-Modernidade na liturgia cristã tenha proporcionado alguns bens, tais como a flexibilização inclusiva, a dinamização da comunicação da Palavra, a autonomia do sujeito e sua postura como quem precisa receber algo – e esses bens devem ser aceitos e cultivados – o impacto negativo, por vezes, eclipsa estes avanços e precisa ser rejeitado, não descartando os elementos positivos, antes, os incorporando a fim de viabilizar com melhor eficácia a comunicação do Evangelho.
Na lógica da funcionalidade e do consumismo a prática litúrgica cristã (sobretudo de traço neopentecostal e carismático) tem se mostrado como uma relação entre consumidores e empreendedores. O lado positivo é que os dois são sujeitos, o dado inaceitável é que o produto-objeto desta relação comercial seja o próprio Deus e suas coisas.

Alessandro Rocha
Doutorando em teologia na PUC – Rio de Janeiro
Pastor auxiliar da Segunda Igreja Batista de Petrópolis

Bibliografia

[1] BUYST, Ione. Como Estudar Liturgia. São Paulo. Paulinas. 1989. Pg.26.

[2] C. F. COSTA, Hermisten M. P. Teologia do Culto. Belo Horizonte. CEP. Pg 14-15.

[3] C F. SUNG, Jung Mo. Neoliberalismo como Religião Econômica. PUC/SP. 1998.

[4] PEDREIRA, Eduardo R. Surgimento da Sociedade Pós-Moderna: um breve histórico.

[5] J. B. Libâneo, O Sagrado na Pós-Modernidade. In: Vários, A Sedução do Sagrado.Vozes. 1999. pg65.

[6] Ibid. Pg 66.

[7] DOUGLAS, Klaus. Celebrando o Amor de Deus. Curitiba. Ed. Evangélica Esperança. 2000. pg. 31.

[8] CF. CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado. Petrópolis. Vozes. 2000.

Horizonal

sábado, 4 de setembro de 2010

Líderes que choram

Por Ivan Marcos Krüger

Nos padrões normais da hierarquia, ou você lidera ou é liderado. Quanto mais poder de decisão uma pessoa tiver, mais ela influenciará, positiva ou negativamente. Quando abrimos a Bíblia, percebemos uma realidade diferente, uma perspectiva vista sob um outro ângulo e por isso tão dificilmente aceita por muitos líderes atuais.
Seja líder ou liderado, um deve entender e compreender as necessidades e tarefas do outro. Líderes ajudam, criam, correm atrás, delegam, apaziguam, enfim, carregam fardos aparentemente pesados demais.
O líder muitas vezes é a pessoa perfeita aos olhos de seus liderados, quando na verdade é bem o contrário, pois somos tentados segundo nossas forças e nem sempre vencemos. Todos passam pelas mesmas aflições, dúvidas e medos. A diferença está na coragem e na vontade. As pessoas esquecem de que os líderes também têm sentimentos e que precisam de seus liderados para os ajudar. O líder ensina, dá o exemplo, mas precisa de alguém que o fortaleça de igual maneira.
Não foi diferente na vida de Jesus. Ele precisou do pai, precisou orar muito, precisou dizer não e trazer à luz a verdade desconhecida pelas pessoas. Líderes trabalham com pessoas e estas podem magoar, decepcionar, muitas vezes até sem querer, mas o fazem. Isso tudo causa um desconforto muito grande no coração, gerando sentimentos como o desânimo, a mágoa, e até a raiva.
Muitos métodos são corretos para aliviar este desconforto como a atividade física, o relaxamento, as férias, mas nada é tão eficiente quanto a oração, a conversa, e o choro. Não quero aqui incentivar a lamúria e a reclamação, apenas que não nos tornemos uma panela de pressão, o que não é difícil acontecer devido às muitas atribuições da liderança.
Este sentimento externado revelou o lado humano de Jesus, e é uma válvula de escape aos responsáveis por uma organização. Líderes trabalham com sentimento, decidem pela razão, e conhecem as conseqüências de inverter estas palavras. Por tantas vezes Jesus acalentou, ouviu, perguntou e sarou e mais tarde, precisou destes mesmos gestos.
Talvez estejamos cansados de carregar o fardo das outras pessoas, estejamos fartos de escutar e de organizar, e necessitamos de alguém que nos ajude. Não somos super-crentes, nem tampouco vamos ser. Somos exigidos na medida de nossa fé. E temos a palavra de consolo de nosso Mestre que diz “Vinde a mim os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei”.
Talvez Deus queira ouvir o seu clamor, ver suas lágrimas atingindo o chão e suas mãos estendidas aos céus suplicando forças. Imagino Jesus sentado numa pedra convocando a você e a mim, líderes e liderados a escutarem o que ele nos tem a dizer e passando sua mão em cada rosto cansado.
Pela palavra de Deus podemos quebrar nosso coração de pedra e eliminar todos os sentimentos lá arraigados. Vamos derramá-lo nos pés do Senhor. Ele nos chama! Simples e óbvio para nós cristãos, mas facilmente esquecido.

www.institutojetro.com.br

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