quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Enriquecimento religioso ilícito

O estilo de vida empresarial ridiculariza a simplicidade do cristianismo.

Por Ian Leão(*)

Há algum tempo surgiu uma falsa doutrina do evangelho conhecida como “teologia da prosperidade”, que vem sendo denunciada por líderes cristãos. No entanto, hoje não se trata apenas de falsos mestre, pregadores de uma falsa doutrina, oriunda de um falso evangelho, mas de um verdadeiro enriquecimento ilícito de “Líderes cristãos” que deveriam ser exemplo de vida modesta e equilibrada não só para a comunidade Cristã, mas para toda sociedade.
Nossos valores, nos ensinaram que um Líder Religioso deve viver uma vida simples, essa simplicidade deve se estender a todos os âmbitos de sua vida, pois como exemplo, Cristo também viveu de forma simples.
Se voltarmos a história do cristianismo, vamos constatar que todos os Apóstolos e Profetas da história bíblica eram homens simples. Se observarmos, poucos homens ricos aparecem nas Escrituras Sagradas, estes eram homens sem vocação ministerial, foram Patriarcas, foram Reis, mas também vocacionados por Deus em seu tempo. Porém, a grande maioria dos homens dedicados ao trabalho religioso de tempo integral, era constituída de homens simples.
O estilo de vida empresarial, que domina o pensamento dos templos dos nossos dias, praticamente ridicularizou a simplicidade do cristianismo, fazendo com que muitos líderes busquem uma vida mais sofisticada.
Particularmente eu não acredito que seja o propósito cristão que o líder de uma igreja seja rico, com salário exorbitante, e que viva um estilo de vida muito superior ao da maioria dos membros de sua comum congregação.
Em certa ocasião no Evangelho de Jesus segundo o relato de Mateus, no capítulo 8 e verso 20, vamos encontrar uma situação em que um Escriba queria seguir a Jesus e foi informado por Ele que: “As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho de Deus não tem onde reclinar a cabeça.” Nos tempo de Cristo, os Escribas eram dominadores da letra, ou doutores da lei, eram homens de grande importância, haja vista que no Sinédrio, serviam como juristas e intérpretes da Lei Mosaica, no que diz respeito aos assuntos governamentais, administrativos e jurídicos, quando na sinagoga, eram os intérpretes das Escrituras Sagradas, ajudando o povo a fazer aplicações práticas dos ensinos da lei para o cotidiano. Eles também eram os professores que ensinavam o povo a ler e escrever. Embora não fizessem parte da alta sociedade, tinham privilégios superiores aos da maioria do povo. A resposta de Cristo a este Escriba é, portanto, um esclarecimento de que uma liderança religiosa proposta por Cristo e vivenciada por seus Apóstolos era muito simples se comparada com o estilo de vida que ele estava acostumado.
A história nos deixa a indicação de que este Escriba desistiu de seus planos após as palavras de Cristo. Será que seguiríamos a Cristo, como ministros do seu santo evangelho, se nós ouvíssemos dele tais palavras? Mas elas ainda ressoam em alto e bom tom para aqueles que se dizem chamados para o trabalho religioso.
É certo que hoje a nossa sociedade abriu oportunidades maiores para aqueles que chamamos bivocacionais, ou seja, pessoas que exercem atividades religiosas e uma profissão secular. Trata-se, muitas vezes, de homens zelosos pela causa do evangelho e que, quando assumiram sua tarefa, já eram ricos ou tinham uma vida abastarda. Nesse caso, acredito que o princípio cristão histórico referente à economia deve ser observado.
Tem uma passagem de John Wesley, onde ele ensinou aos homens dos seus dias: “Trabalhe o mais duro que você pode, economize o tanto quanto você pode, doe o tanto quanto você pode.” É certo que todo trabalho honesto e decente é sagrado para Deus, não vejo razão para que um líder religioso deixe de ganhar dinheiro. Neste caso, o princípio de “trabalhar o mais duro que você pode”, certamente continuará a trazer benefícios financeiros. O que fazer com esse benefício financeiro? A segunda orientação de Wesley foi: “Economize o tanto quanto você pode.” Hoje, o desperdício de dinheiro pelo consumismo desenfreado, chega a ser uma ofensa àqueles que nada têm e que muitas vezes lutam para ter o que comer. Não seria ético para um líder cristão viver em um mundo de fartura e consumismo e, ao mesmo tempo, subir nas tribunas para ministrar um sermão aos que vivem uma vida modesta. O que fazer então com o que foi economizado? Wesley disse: “Doe o tanto quanto você pode.”
Eu acredito que a ética cristã deve motivar todos quantos possuem além daquilo que precisam para uma vida boa, para contribuir com o auxílio do necessitado e para o avanço da causa do evangelho, a fraternidade. Esses três princípios, na realidade, valem para todos quantos querem cumprir o mandamento de sagrado em suas vidas. Amar o próximo como a ti mesmo. Quem ama, ajuda! Se de alguma forma temos além do que precisamos, devemos doar.
Agora, simplesmente, é inaceitável que alguém venham a enriquecer à custa dos fiéis. Alguns justificam suas contas ao fato de serem dignos de receber seus salários equivalentes aos de grandes industriais, diretores executivos de grandes incorporações, etc. O conselho do mestre Jesus segundo o Apóstolo Lucas no capítulo 7 e verso 10 de seu evangelho, foi: “Digno é o trabalhador do seu salário”, todo líder religioso é digno de um salário suficiente para a provisão decente de sua vida e de sua família. Viver uma vida religiosa lucrativa financeiramente é diferente do ideal cristão para o homem e portanto é um enriquecimento ilícito para com a ética cristã.
Estes tais “líderes” devem ser denunciados por suas posturas; os fiéis deve ser alertados para se afastarem de homens assim, pois não se assemelham em nada com o Cristo e seus apóstolos. Temos que ter cuidado, pois estes, são cuidadosos no uso das palavras e enganam a muitos. Paulo, um exemplo de cristão nos alertou, através de sua segunda carta a Timóteo, que haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” – (2ª Carta de Paulo a Timóteo, capítulo 4, versos 3,4 e 5.

(*)Ian Leão, membro da Sociedade Dramática e Literária de Morrinhos, articulista e acadêmico de Direito – Fafich


Publicado em DM


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