segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Liderando como Deus quer

O pastor deve manter-se longe dos perigos que ameaçam a integridade de seu ministério.
por Russel Shedd(*)

Samuel, filho do pastor da igreja da qual eu era membro, conversava com seus colegas da escola sobre a importância das profissões dos seus pais. Um gabava-se: “Meu pai é químico; ele descobre produtos úteis para a sociedade”. Outro dizia: “O meu é engenheiro. Ele constrói pontes e estradas”. Notando o silêncio de Samuel, os colegas perguntaram-lhe: “E o seu pai, o que ele faz?” O adolescente encolheu os ombros, meio encabulado, e confessou: “Meu pai não faz nada – somente fala.”
Acredito que muitos pastores repassam a impressão geral de que o líder de uma igreja tem uma vida isenta de responsabilidades mais pesadas. Um colega, certa vez, me contou como chegara a escolher a carreira de pastor. Quando jovem, ele passava na frente da casa de um ministro do Evangelho. Observava que ele pulava da cama depois das nove horas da manhã e, depois, seguia uma rotina bem suave – ia pescar quando lhe convinha, conversava alegremente com os amigos, era constantemente convidado para as celebrações das famílias da igreja. Nas horas mais vagas, preparava uma homilia de vinte minutes para o culto nos domingos. O jovem percebeu que aquele pastor era honrado na sociedade e recebia um salário bom, e esta foi a vida que escolheu para si.
Não me admirei em ouvir, tampos depois, que aquele jovem, já guindado à condição de pastor, havia se divorciado da esposa e seduzido a mulher de um líder da sua igreja. Acabou saindo do país com ela, indo pastorear uma igreja no exterior, onde, quem sabe, a história se repetiria. Acabei perdendo contato com aquele “pastor lobo”, vestido de pele de ovelha.
Como ele, há muitos e muitos por aí. Pastores que não fazem caso das exigências bíblicas para o pastorado, especialmente aquela que requer que o bispo seja “irrepreensível”(registrada em I Timóteo 3.2), são uma ameaça para a igreja! O mais devastador dos perigos do ministério é a falta de integridade, quando o pastor prega aquilo que não vive e ilude os membros da igreja, fingindo ser um homem chamado por Deus. Quando a igreja não tem um padrão de qualidade e não requer de seu pastor que preste contas a alguém, há o perigo da preguiça. Gastar pouco tempo com Deus ou imaginar que um curso de seminário é suficiente para o pastoreio não qualifica ninguém para o ministério. Muitos pastores pensam que nada mais é exigido do pregador senão de colecionar um acervo de boas histórias e ler um texto da Bíblia para logo esquecê-lo, sem se preocupar com o sentido da passagem ou como as Sagradas Letras deveriam ser aplicadas às vidas de seus ouvintes.

GRANDE OBRA
O professor de um seminário pediu que seus alunos procurassem saber dos membros de suas igrejas o que achavam das pregações dos seus pastores. O consenso colhido foi o de que os pastores leem a Bíblia, mas não a explicam, nem aplicam o texto para a vida diária das pessoas. Outra conclusão do estudo foi a impressão generalizada de que os líderes têm mais interesse nos negócios das igrejas do que na vida espiritual dos membros.
Robert Murray McCheyne, um jovem pastor de Dundee, na Escócia, e muito usado por Deus, disse: “A grande obra do pastor, na qual deve depositar as forças do seu corpo e mente, é a pregação. Por mais fraco, passível de menosprezo, ou louco (no mesmo sentido como chamaram a Paulo de louco) que possa parecer, este é o grande instrumento que Deus tem em suas mãos e para que, por ele, pecadores sejam salvos e os santos sejam aptos para a glória. Aprouve a Deus, pela loucura da pregação, salvar aos que creem. Foi para isso que o nosso bendito Senhor dedicou os poucos anos de seu próprio ministério – e esta foi a grande obra de Paulo e de todos os apóstolos. Por isso, Jesus nos deu este mandamento: ‘Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho’.” Com efeito, o sucesso eterno do ministério de qualquer pastor será medido pelo poder de sua pregação. Comentou Cotton Mather: “O desenho e intenção principal do pregador é restaurar o trono e domínio de Deus nas almas dos homens.”
Outro perigo envolve as finanças do pastor. Raras vezes seu salário tem alguma folga. O cartão de crédito parece ser uma providência divina para adquirir “necessidades” que estouram o orçamento. Parece que o pastor acredita que os membros têm a responsabilidade de socorrer ministros que gastam mais do que recebem. Acontece que o que parece ao pastor ser uma necessidade não convencerá os membros da comunidade, que via de regra vivem com salários inferiores ao que seu pastor recebe. Se o dinheiro é a motivação, sua alegria não virá do ministério, mas das coisas que pode comprar. Paulo combate esta ameaça, dizendo: “Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros” (Romanos 13.8). A integridade do pastor se reflete na honestidade com que trata o dinheiro da igreja.
Uma pesquisa feita na escola de missões do Seminário de Fuller, nos Estados Unidos, sobre a vida de 900 líderes evangélicos, tanto na história como no presente, revelou que eles reconhecem que a autoridade espiritual é a base principal do poder, isto é, o impacto de um ministério que transforma vidas depende da intimidade que o líder tem com Jesus. Essa intimidade se nutre através de pureza pessoal, adoração e uma vida fiel de oração. Uma das principais ameaças do ministério se revela no profissionalismo que busca sucesso de outras fontes de poder. O líder cristão pode decidi raprimorar-se na psicologia, na oratória ou com conhecimentos intelectuais. Contudo, em qualquer outro foco de um ministério faltará a vitalidade que somente o Espírito Santo é capaz de suprir. O exemplo do apóstolo Paulo nos desafia a todos: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome; tendo muito, ou passando necessidade” (Filipenses 4.12).
Muitos ministros não sentem que a tentação sexual possa ser problema. Pensam que esse tipo de atração pode ser perigosa para os outros, mas não para eles. No entanto, a lamentável frequência com que os escândalos têm abalado a reputação das igrejas evangélicas sinaliza para a necessidade de cuidados especiais. Paulo advertiu seu filho na fé nos seguintes termos: “Fuja dos desejos malignos da juventude” (II Timóteo 2.22). Prevenção requer um plano eficaz para repelir as tentações que assolam a vida de muitos pastores. O texto coloca justiça, fé, amor e paz e, especialmente, a companhia de pessoas que, de coração puro, invocam o Senhor como baluarte contra a atração sexual pecaminosa.
A internet tem trazido para dentro de casa a possiblidade de contaminar o coração do pastor com a pornografia. Ainda que poucos ministros confessem esse vício secreto, a praga moderna ameaça a estabilidade de muitas famílias e o relacionamento de pastores com suas igrejas. Qualquer líder que não mantém a fé e a boa consciência enfrenta o perigo de “naufragar na fé”, conforme Paulo admoesta a Timóteo. Jesus ensinou que os puros de coração são felizes porque eles verão a Deus. E que dizer do que maculam suas mentes com pornografia?

AVALIAÇÃO CONSTANTE
De minhas muitas décadas de ministério pastoral, tenho aprendido, continuamente, a desenvolver disciplinas pessoais e espirituais que podem nos manter a salvo na questão da integridade sexual. Em primeiro lugar, é preciso avaliar nossa condição espiritual regularmente, sabendo que a falta de oração e comunhão com Deus é fatal. Em segundo lugar, o pastor precisa manter um casamento de qualidade, com comunicação, evitando sentimentos de descontentamento, pobreza no relacionamento sexual e frieza na intimidade. Não se pode ser omisso na busca por um bom relacionamento espiritual e emocional. Além disso, é necessário, sempre, demonstrar respeito e amor, as chaves de um casamento saudável. O servo do Senhor também precisa tomar precauções básicas, fugindo de qualquer pessoa que o atraia sexualmente e evitando aconselhamentos com pessoas do sexo oposto sem a presença do cônjuge. A descoberta de um bom amigo com quem se possa abrir o coração para revelar qualquer sentimento que não seja puro e saudável deve ser uma prioridade. Por fim, deve-se ter em mente, sempre, o poder destrutivo que uma queda no pecado sexual tem sobre ministério abençoado por Deus.
Na lista de qualificações que o pastor deve ter, Paulo inclui o governo da família. O líder deve ter “os filhos sujeitos a ele”. “Se não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?”, questiona o apóstolo (I Timóteo 3.4,5)? Na cultura brasileira, muitos pais não exigem a obediência dos filhos. O individualismo reina de tal modo que os pais chegam a se cercar de cuidados para não contrariar seus filhos. Todavia, a Bíblia ensina com clareza que filhos e pais são pecadores. Todos necessitam disciplina para aprender a obedecer aos pais, tal como os pais precisam de disciplina bíblica para submeter-se a Deus. Por isso, Paulo faz a conexão do líder responsável pela igreja e a responsabilidade de chefiar a família.
Algumas qualificações são mais determinantes do sucesso no ministério do que outras. Acredito que a que mais importa para o pastor é o amor pelas pessoas e sua humildade, além de coragem. Jesus convidou os cansados e sobrecarregados a aprender dele a se tornaram humildes e mansos (Mateus 11.29). Se Jesus Cristo for realmente o modelo que norteia o ministério, não há que se duvidar de que essa qualidade tenha importância singular. Alguns pastores esquecem que são ovelhas que também precisam do pastoreio do Bom Pastor (I Pedro 5.4). Essa atitude de altivez é especialmente perigosa nos tempos em que vivemos, nos quais o sucesso ministerial é medido por números e marcas externas de uma igreja. Jesus não teve um sucesso notável ou popularidade. Tanto, que ele rejeitou a proposta do povo, que queria aclamá-lo como rei (João 6.14).
Os líderes de igrejas no presente século percebem que a liderança de uma comunidade de maneira bíblica ficou mais difícil. Mas aqueles que combatem o bom combate, pregando a Palavra e guardando a fé, receberão a coroa da justiça que o Senhor, o justo juiz, lhes dará no dia final. O ministro que combater para vencer, como o apóstolo Paulo lutou, receberá a recompensa prometida na vinda do Senhor.

Russel Philip Shedd é doutor em teologia com estudos de pós-doutorado em Novo Testamento, escritor e conferencista. Americano radicado no Brasil desde 1962, é presidente emérito de Edições Vida Nova e missionário aposentado da missão World Venture.

Publicado em Cristianismo Hoje




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Princípio da Ética


Enriquecimento religioso ilícito

O estilo de vida empresarial ridiculariza a simplicidade do cristianismo.

Por Ian Leão(*)

Há algum tempo surgiu uma falsa doutrina do evangelho conhecida como “teologia da prosperidade”, que vem sendo denunciada por líderes cristãos. No entanto, hoje não se trata apenas de falsos mestre, pregadores de uma falsa doutrina, oriunda de um falso evangelho, mas de um verdadeiro enriquecimento ilícito de “Líderes cristãos” que deveriam ser exemplo de vida modesta e equilibrada não só para a comunidade Cristã, mas para toda sociedade.
Nossos valores, nos ensinaram que um Líder Religioso deve viver uma vida simples, essa simplicidade deve se estender a todos os âmbitos de sua vida, pois como exemplo, Cristo também viveu de forma simples.
Se voltarmos a história do cristianismo, vamos constatar que todos os Apóstolos e Profetas da história bíblica eram homens simples. Se observarmos, poucos homens ricos aparecem nas Escrituras Sagradas, estes eram homens sem vocação ministerial, foram Patriarcas, foram Reis, mas também vocacionados por Deus em seu tempo. Porém, a grande maioria dos homens dedicados ao trabalho religioso de tempo integral, era constituída de homens simples.
O estilo de vida empresarial, que domina o pensamento dos templos dos nossos dias, praticamente ridicularizou a simplicidade do cristianismo, fazendo com que muitos líderes busquem uma vida mais sofisticada.
Particularmente eu não acredito que seja o propósito cristão que o líder de uma igreja seja rico, com salário exorbitante, e que viva um estilo de vida muito superior ao da maioria dos membros de sua comum congregação.
Em certa ocasião no Evangelho de Jesus segundo o relato de Mateus, no capítulo 8 e verso 20, vamos encontrar uma situação em que um Escriba queria seguir a Jesus e foi informado por Ele que: “As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho de Deus não tem onde reclinar a cabeça.” Nos tempo de Cristo, os Escribas eram dominadores da letra, ou doutores da lei, eram homens de grande importância, haja vista que no Sinédrio, serviam como juristas e intérpretes da Lei Mosaica, no que diz respeito aos assuntos governamentais, administrativos e jurídicos, quando na sinagoga, eram os intérpretes das Escrituras Sagradas, ajudando o povo a fazer aplicações práticas dos ensinos da lei para o cotidiano. Eles também eram os professores que ensinavam o povo a ler e escrever. Embora não fizessem parte da alta sociedade, tinham privilégios superiores aos da maioria do povo. A resposta de Cristo a este Escriba é, portanto, um esclarecimento de que uma liderança religiosa proposta por Cristo e vivenciada por seus Apóstolos era muito simples se comparada com o estilo de vida que ele estava acostumado.
A história nos deixa a indicação de que este Escriba desistiu de seus planos após as palavras de Cristo. Será que seguiríamos a Cristo, como ministros do seu santo evangelho, se nós ouvíssemos dele tais palavras? Mas elas ainda ressoam em alto e bom tom para aqueles que se dizem chamados para o trabalho religioso.
É certo que hoje a nossa sociedade abriu oportunidades maiores para aqueles que chamamos bivocacionais, ou seja, pessoas que exercem atividades religiosas e uma profissão secular. Trata-se, muitas vezes, de homens zelosos pela causa do evangelho e que, quando assumiram sua tarefa, já eram ricos ou tinham uma vida abastarda. Nesse caso, acredito que o princípio cristão histórico referente à economia deve ser observado.
Tem uma passagem de John Wesley, onde ele ensinou aos homens dos seus dias: “Trabalhe o mais duro que você pode, economize o tanto quanto você pode, doe o tanto quanto você pode.” É certo que todo trabalho honesto e decente é sagrado para Deus, não vejo razão para que um líder religioso deixe de ganhar dinheiro. Neste caso, o princípio de “trabalhar o mais duro que você pode”, certamente continuará a trazer benefícios financeiros. O que fazer com esse benefício financeiro? A segunda orientação de Wesley foi: “Economize o tanto quanto você pode.” Hoje, o desperdício de dinheiro pelo consumismo desenfreado, chega a ser uma ofensa àqueles que nada têm e que muitas vezes lutam para ter o que comer. Não seria ético para um líder cristão viver em um mundo de fartura e consumismo e, ao mesmo tempo, subir nas tribunas para ministrar um sermão aos que vivem uma vida modesta. O que fazer então com o que foi economizado? Wesley disse: “Doe o tanto quanto você pode.”
Eu acredito que a ética cristã deve motivar todos quantos possuem além daquilo que precisam para uma vida boa, para contribuir com o auxílio do necessitado e para o avanço da causa do evangelho, a fraternidade. Esses três princípios, na realidade, valem para todos quantos querem cumprir o mandamento de sagrado em suas vidas. Amar o próximo como a ti mesmo. Quem ama, ajuda! Se de alguma forma temos além do que precisamos, devemos doar.
Agora, simplesmente, é inaceitável que alguém venham a enriquecer à custa dos fiéis. Alguns justificam suas contas ao fato de serem dignos de receber seus salários equivalentes aos de grandes industriais, diretores executivos de grandes incorporações, etc. O conselho do mestre Jesus segundo o Apóstolo Lucas no capítulo 7 e verso 10 de seu evangelho, foi: “Digno é o trabalhador do seu salário”, todo líder religioso é digno de um salário suficiente para a provisão decente de sua vida e de sua família. Viver uma vida religiosa lucrativa financeiramente é diferente do ideal cristão para o homem e portanto é um enriquecimento ilícito para com a ética cristã.
Estes tais “líderes” devem ser denunciados por suas posturas; os fiéis deve ser alertados para se afastarem de homens assim, pois não se assemelham em nada com o Cristo e seus apóstolos. Temos que ter cuidado, pois estes, são cuidadosos no uso das palavras e enganam a muitos. Paulo, um exemplo de cristão nos alertou, através de sua segunda carta a Timóteo, que haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” – (2ª Carta de Paulo a Timóteo, capítulo 4, versos 3,4 e 5.

(*)Ian Leão, membro da Sociedade Dramática e Literária de Morrinhos, articulista e acadêmico de Direito – Fafich


Publicado em DM


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