Ética e Liderança Cristã: Comunicação, Poder e Ética

sexta-feira, 23 de março de 2007

Comunicação, Poder e Ética

Comunicação, Poder e Ética
Publicado em 30/06/03 às 19:04
Por Rubem Martins Amorese

Certa vez, um noivo me convidou para pregar em seu casamento, já com o texto escolhido: Efésios 5.22, em diante. Aquele que fala que "as mulheres devem ser submissas aos seus próprios maridos como ao Senhor". O que ele pretendia? Pretendia que, pelo processo comunicativo do rito do casamento, incluindo meu sermão, se adensasse, se consolidasse a compreensão de que, no Reino de Deus, a mulher deve obedecer ao seu marido e lhe ser submissa. Interessava ao noivo que isto fosse bem assentado desde o princípio. Teorizando sobre o evento, eu diria que ele queria habitar, com sua esposa, um mundo no qual certas relações fossem do jeito por ele imaginadas. Melhor ainda: que os dois pensassem de forma idêntica sobre isto, o que evitaria muitos conflitos futuros.

Comunicação e Cultura

O "mundo dos homens" se constrói pela celebração. Em especial, uma celebração muito corriqueira: a conversa. Isso sempre foi assim. Toda a história humana se construiu assim. Numa sociedade qualquer, os diversos grupos que a constituem, constróem para si um pequeno ambiente de consenso sobre um grande número de idéias, valores, normas de comportamento e mesmo, sobre estética, consagrando, na forma de costumes, o que interessa preservar e, prescrevendo, aqueles elementos considerados disfuncionais ou perniciosos. Esse arcabouço simbólico, essa argamassa de imagens, símbolos, ditados populares, heróis, bandidos etc., serve para dar unidade e uniformidade à manutenção desse grupo; serve para explicar seu presente e sua história; para interpretar os fenômenos da natureza, os fatos sociais, etc.

Cria-se, assim, um ambiente onde as crianças nascem e se desenvolvem, protegidas do caos, da ausência de sentido da vida e do cosmo, pois tudo - ou quase tudo, uma vez que ainda perduram mistérios e enigmas - é explicado e avaliado a partir dos referenciais construídos, convencionados e fixados na forma de instituições, tradições e valores. Esse ambiente é chamado, simplesmente de cultura, no sentido antropológico do termo. A manutenção desse status quo é feita pelas conversas, sermões, discursos, palavras, conferências, fofocas e todos os outros tipos convencionais de comunicação, sejam eles oficiais (como os éditos reais, as leis, as decisões dos tribunais, conferências, discursos etc.) ou informais, como as conversas de compadres em um botequim.

Esse tipo de construção, essa estrutura de arames e amarras sociais, assume uma consistência muito grande quando é sancionado pelo sagrado, quando ele é legitimado pela Igreja. Talvez por isto, toda a cidadezinha que nasce no mundo cristão, tenha no centro de sua praça principal, uma igreja. O Cristianismo serviu, durante os dois mil últimos anos, como o grande fator de legitimação de uma determinada ordem: a cosmovisão cristã do mundo.

Cultura, Comunicação e Poder

Todo esse processo, tanto o tradicional (da conversa na calçada, o sermão na igreja, o discurso no coreto da praça), quanto o que começa a surgir com o advento da comunicação de massa, esconde uma conotação política, no sentido amplo da busca, da luta pelo poder. Esse componente político consiste na busca de apropriação da realidade. Assim como, quando em outros tempos, alguém cercava um pedaço de terra e dizia: "isto é meu" e, havendo pessoas que aceitassem a afirmação sem contestação, esse pedaço cercado passava a ser posse daquele que dele se apropriou, desde os primórdios, surgiram pessoas que tentaram explicar ou reexplicar a realidade de maneira que a compreensão resultante os favorecesse.

Esse fenômeno não nos é muito estranho pois, ainda hoje, funciona entre nós. Os pajés das tribos são respeitados enquanto a realidade tem fenômenos e mistérios que aparentemente somente eles compreendem e controlam. As mulheres, durante milênios, aceitaram sua inferioridade e se comportaram de forma a atender aos interesses e reclamos de seus senhores; os escravos chegaram a ser confrontados, no Sul dos Estados Unidos, com a Bíblia, de onde se tiraram versículos que, bem utilizados, lhes demonstravam que sua condição subalterna era a vontade de Deus e que eles haviam sido criados para servirem ao branco. Quero chamar a atenção para o fato de que não estamos falando, necessariamente, de canalhice, prepotência, má-fé ou interesses manifestamente escusos. Não. Estamos dizendo que, em grande parte - é claro que sempre existiram, também, os espertalhões, os coronéis -, este estado de coisas era visto como sendo a única realidade. Os dois lados da questão acreditavam nela.

Toda uma estrutura de exploração, toda uma estrutura econômica, toda uma nação, em seus aspectos econômicos, políticos e sociais eram montados sobre essas definições da realidade que, por isso mesmo, se tornavam inquestionáveis. Eram a própria realidade da vida.

A comunicação está aí, presente, intercambiando e sustentando uma forma de ver e compreender o significado do mundo e da vida, tornando alguns interesses em ideologias, e essas ideologias em verdades, a partir da consistência que adquiriam pela força do número de pessoas que as adotam e das estruturas que lhes dão abrigo e estabilidade. Chamamos essas formas de criar "realidades" de mecanismos de validação consensual.

Desde os primórdios da humanidade, portanto, sempre houve, muito sutil e misturado, o componente poder associado aos processos comunicativos. Mesmo que inconscientemente, sempre houve uma atividade no sentido de recriação do mundo conforme a nossa imagem e a nossa semelhança. Embora não creia que tenha sido sempre um propósito consciente, deliberado, entendo que se tenha descoberto o segredo da verdadeira dominação: a sujeição das consciências. A melhor maneira de me fazer obedecido é convencer alguém que este me deva obediência, redescrevendo e reinventando o mundo em que nós dois vivemos: fazendo a sua cabeça. Quando todos concordam que devem me servir, servem-me de bom grado - e criativamente! E melhor, inclusive do que com o uso da força porque, para usar a força, tenho que despender uma energia muito grande com controle, esquemas de vigilância, segurança. Mas quando eu consigo controlar a mente, "fazer a cabeça", então posso ficar despreocupado. Tenho um vigia dentro de cada cabeça. Isto se chama auto-censura.

Poder e Ética

Há limites éticos para esse processo de recriação da realidade. Quando vejo uma Rede Globo, através de novelas, recriar o mundo no coração do povo simples com padrões consumistas, sensuais, rebeldes, caóticos, imorais e libertinos, vejo claramente seu objetivo: tornar seu público mais e mais consumidor. Para isto, é necessário triturar quaisquer resquícios de princípios de vida, de moral, de bom-senso. Absolutamente impulsivo, o cidadão gasta, consome e absorve sem reservas, contanto que pense que está consumindo felicidade. E quando as coisas começam a virar epidemia, os agentes comunicadores engendram uma campanha de distribuição de camisinhas, numa patética tentativa de eliminar apenas os efeitos colaterais do seu crime de lesa-pátria.

O que mais me entristece é assistir um efeito secularizador da igreja, justamente nesse sentido. Na busca do poder; na luta pela dominação das mentes e dos corações, pastores e líderes aprenderam a recriar o mundo, usando uma das mais poderosas ferramentas de validação consensual: o sagrado. A partir de interpretações bíblicas discutíveis - não sei se ingênua ou maldosamente fora de contexto - e de pretensas revelações diretas dos céus, criam toda uma estrutura de interpretação e redefinição da realidade; um mundo simbólico, uma nova ordem, que servirá de aprisco cognitivo, emocional e espiritual para suas ovelhas. Ali, neste reduto cultural, elas encontrarão descanso e abrigo. Apenas, por coincidência, essa nova cosmovisão o consagra como senhor - se não tanto, pelo menos, representante direto dele.

Na política dos coronéis, falou-se muito em voto de cabresto. Havia dois tipos de cabresto: o da força - grosseiro e deprimentemente inábil - pelo qual o homem humilde e alienado votava sob coação de um jagunço, chamado inocentemente de cabo eleitoral, e havia o cabresto ideológico - sutil, sofisticado, das consciências - pelo qual, o indivíduo introjetava a violência. Em ambos os casos, no entanto, as vítimas acabavam, surpreendentemente, por dizer amar seus senhores, e chegavam, mesmo, a chamá-los de "sinhô".

Bem, estamos vivendo um tempo em que os primeiros senhores já não têm tanto espaço entre nós. Mas os segundos, fazem uso da mídia eletrônica - ou dos púlpitos.

Para uns e para outros, as Escrituras apresentam um padrão diametralmente diferente. Encontramos, para nossa surpresa, o próprio Senhor, de forma mansa e suave, dizendo:

"Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta..."

Naquele casamento, preguei sobre Efésios 5, conforme me solicitara o noivo. O texto-base do sermão dizia assim: "Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela..."


Rubem Martins Amorese é presbítero
da Igreja Presbiteriana do Planalto-DF,
escritor e consultor legislativo no Senado Federal

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