quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A falácia da liderança visionária | Rev. Misael Nascimento

O líder cristão é um visionário — um criador e articulador de visão. Ele é capacitado para formatar e comunicar uma visão com clareza. Ele sabe como motivar os membros da Igreja a assumirem uma visão rumo a um alvo bíblico e desejável.

Esse é o paradigma atual sobre liderança, difundido na literatura e em diversos eventos cristãos. No contexto do evangelicalismo episcopal, isso pode ser acolhido sem dificuldades. O problema é abraçar essa idéia no âmbito da liderança bíblica conciliar.

  • Se a Igreja é corpo sacerdotal e o pastoreio do povo de Deus é uma tarefa compartilhada, como imaginar a figura de um líder da visão?

  • Se, diferentemente dos tempos do Antigo Testamento, Deus “é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.6), por que a Igreja precisa de um líder visionário?

  • Se o Novo Testamento apresenta as igrejas locais sendo governadas por presbíteros eleitos pelo povo, onde encontramos, em Atos ou em qualquer epístola apostólica, a figura do líder da visão — o líder que se sobressai, que está sobre os outros, como canal exclusivo da iluminação e direção divina?

Enquanto caminhamos com a Igreja, é tentador imaginar que podemos nos destacar sobre os demais, considerar o ministério (o termo “ministério” significa serviço) como uma posição de poder e confundir autoridade espiritual com superioridade hierárquica. Somos inclinados a nos esquecer de que fomos chamados para a cruz, e que a Igreja é o instrumento divino para nossa santificação e trabalho humilde.

A Igreja é, ainda, corpo comum, a comunhão dos santos. Nela eu sou abençoado pela graça divina ministrada por meus irmãos e irmãs. Nesses termos, os presbíteros regentes são coiguais (uma palavra preciosa, destilada da doutrina da Trindade) e os membros da igreja não são meus subordinados. Fui vocacionado para nutri-los com a Palavra e os Sacramentos, enquanto sou por eles ajudado em vários aspectos de minha própria peregrinação cristã. Não sou um líder da visão, mas busco discernir o que Deus está realizando em nosso meio, o que ele nos orienta pela Escritura e como devemos responder a ele, aqui e agora. Nesse processo, assumimos alvos e trabalhos juntos. Não se trata, porém, de uma liderança visionária, e sim de uma liderança compartilhada, orientada pela fé, lastreada na Palavra de Deus e regada pela vivência da graça.

O modelo de liderança visionária é ótimo para os negócios, pois confere dinamismo às organizações que precisam adaptar-se constantemente ao mercado cada vez mais globalizado e, por conseguinte, mutável. Na esfera religiosa, produz grandes estruturas “ministeriais” — instituições ditas cristãs que crescem explosivamente, da noite para o dia. Atrai os holofotes e conquista espaço na mídia e no imaginário popular. A questão, porém, é se isso, de fato, corresponde à Igreja do Novo Testamento.

Compreendo os que, de boa vontade, assumem esse paradigma. Eu mesmo já fiz parte dessas fileiras. Hoje a Igreja onde sirvo a Deus mantém uma declaração simples de missão e visão, como registro das definições bíblicas de nossa identidade e serviço. Nada mais. Abandonei de vez a falácia da liderança da visão. Oro para que Deus me mantenha firme, até o fim, ao modelo da liderança pastoral estabelecido pelo Senhor Jesus Cristo.

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