Ética e Liderança Cristã

domingo, 27 de dezembro de 2009

Lei sobre ortotanásia pode abrir brecha para eutanásia

Por Miguel Martini

Legislar sobre a ortotanásia — que é o decorrer natural do processo de morte, sem intervenção de tratamento artificial que prolongue a vida vegetativa do paciente — pode abrir brechas para a aprovação da eutanásia no país. Por essa razão, somos contra uma lei a respeito desse tema. Consideramos melhor disciplinar sobre os procedimentos assegurados ao paciente.
Por isso, preocupado com o tema, apresentamos o projeto de lei 6.544/09, que dispõe sobre os cuidados devidos a pacientes que se encontram em fase terminal de enfermidade.
A vida humana deve receber todo cuidado e toda atenção, desde a concepção até completar seu curso natural, pois todo ser humano tem direito de nascer, crescer e chegar ao fim de sua vida com dignidade.
Sabemos que drogas e máquinas de última geração são capazes de manter um cidadão "vivo" por muito tempo, às vezes, por anos, sem nenhuma perspectiva concreta de recuperação.
No entanto, a ética, o bom senso e a caridade determinam ser desnecessário prolongar a vida artificialmente se tal procedimento não levar à esperança de reversão do quadro clínico ou da recuperação do paciente em casos terminais.
Um exemplo claro do que estamos falando — e que o mundo inteiro tomou conhecimento — ocorreu com o papa João Paulo 2º. Diante de sua enfermidade, mantê-lo vivo artificialmente, sobrevivendo por aparelhos, em nada melhoraria seu quadro, além de prolongar seu sofrimento e o de todos que o amavam.
É importante ressaltar que uma decisão da prática da ortotanásia deve sempre ser tomada com aquiescência do paciente e dos seus familiares e/ou responsáveis, conforme aconteceu com o papa João Paulo 2º.
À luz do projeto de lei que queremos aprovar, é mais ético e moral que se procure aliviar a dor do paciente e que se lhe ofereça qualidade de vida junto a seus familiares, evitando intervenções agressivas que não trazem esperança de vida, e sim mais sofrimento e desgaste para o paciente e para a família.
Urge alertar a classe médica para um sério discernimento sobre as condições do paciente e dos meios terapêuticos à disposição, pois a renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia. O projeto de lei 6.544/09 distingue-se em tudo e por tudo da eutanásia, que não é aceitável.
O médico deve esclarecer ao paciente em fase terminal de enfermidade, à sua família e ao seu representante legal as modalidades terapêuticas, adequadas e proporcionais para o tratamento do seu caso específico.
O papa Pio 12, em 1957, afirmava que é lícito suprimir a dor por meio de narcóticos, mesmo com a consequência de limitar a consciência e abreviar a vida, "se não existem outros meios e se, naquelas circunstâncias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres religiosos e morais".
No entanto, também deve ser considerado que a Igreja Católica nos diz, no Código Canônico (nº 65): "Não se deve privar o paciente da consciência de si mesmo, sem motivo grave. Quando se aproxima a morte, as pessoas devem estar em condições de poder satisfazer as suas obrigações morais e familiares e devem sobretudo poder preparar-se com plena consciência para o encontro definitivo com Deus".
Os dois princípios devem ser considerados antes de qualquer decisão. Consideramos, ainda, fundamental que haja mecanismos que permitam, com segurança, detectar casos semelhantes a esses e que os pacientes deles se beneficiem, sem, no entanto, abrir-se à possibilidade da prática da eutanásia.
Acreditamos que, com a aprovação do projeto de lei de nossa autoria, daremos os balizadores necessários para que a comissão de ética multidisciplinar em cada unidade hospitalar possa intervir com segurança nesses casos.
O assunto certamente levará a profundos debates na Comissão de Seguridade Social e Família, onde tramitam as duas proposições.
Assim, daremos uma resposta à sociedade atendendo aos pressupostos da ética médica, da dignidade humana e do profundo respeito aos direitos do paciente.

[Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 26 de dezembro de 2009.]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Liderar para cima

por José Bernardo

“Disse, pois, o faraó a José: Uma vez que Deus lhe revelou todas essas coisas, não há ninguém tão criterioso e sábio como você. Você terá o comando de meu palácio, e todo o meu povo se sujeitará às suas ordens. Somente em relação ao trono serei maior que você.” Gênesis 41:39,40 [NVI]
Já servi sob pessoas sem habilidades de relacionamento, sem visão do próximo, sem objetivos claros, sem metodologias definidas e, o que é pior, sem valores consistentes. Pode parecer uma situação desconfortável mas, conforme o ensino de Jesus, essa é a posição mais promissora para liderar – a posição de servo (Mc 9:35). Foi em situações assim que pensei em liderar para cima.
Primeiro é preciso perceber que a idéia de um servo liderando o chefe é até frequente em nosso dia a dia. Quando você contrata um cabelereiro, por exemplo, é você quem está pagando, é você quem diz o que quer, no entanto, logo depois, está obedecendo a cada mínima ordem que ele dá. – Abaixe a cabeça, diz o servo, você abaixa; – Vire de lado, diz o servo, você vira. Aquele que está servindo é quem lidera, e você o segue.
Por que o servo manda? Porque ele é especializado no serviço que executa. Ele sabe o que faz, tem experiência e, por isso, quando ele manda o chefe obedece. Ao liderar para cima, devemos nos concentrar em fazer um trabalho excelente e constante. Isso é decisivo.
Por que o chefe obedece? O desejo ou a necessidade de obter um determinado resultado é a motivação que orienta todas as ações dos seres humanos. O chefe obedece porque vê a possibilidade de ser suprido. Ao liderar para cima, é preciso entender e prover o que o chefe deseja ou precisa.
Por que o ciclo se estabelece? O chefe que obedeceu fica satisfeito porque teve suas necessidades atendidas, o servo que liderou fica satisfeito porque recebe o pagamento pelo seu esforço. Se esse ciclo de satisfação puder ser mantido, a liderança fica definitivamente revertida.
Foi o que o servo José experimentou no Egito. Indepedente do Faraó que esteja assentado no trono à sua frente, o trabalho especializado e a satisfação pelos resultados podem colocar você no comando do palácio e do povo, para a glória de Deus e satisfação de todas as partes. Se você é um servo, lidere para cima. Se você não é um servo, trate de ser!

AMME

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Medo de liderar?

por José Bernardo

Você tem medo de liderar? Recentemente, em uma reunião, nossos missionários falaram sobre o medo que a maioria das pessoas tem de assumir uma posição de liderança. Talvez eu não estivesse muito atento para isso, mas pensar que as pessoas têm medo de liderar me deixou admirado e apreensivo.
Fiquei admirado porque não conheço outro caminho para a melhoria, o desenvolvimento ou o progresso se não houver alguém na liderança, apontando para um novo objetivo e animando as pessoas a alcançarem-no. Fiquei apreensivo porque a evangelização é essencialmente liderança – se o crente não quer liderar, se não se dispõe a ser um líder, nunca evangeliza.
A palavra líder guarda a primeira conexão com a evangelização já em sua origem no inglês antigo (lithan = ir / Merriam-Webster). Ir é o significado original de líder e a ordem de Jesus à sua igreja. Uma das melhores definições de liderança e, possivelmente, a mais precisa é atribuída a Peter Druker, reconhecido especialista em administração: “A única definição de líder é alguém que possui seguidores”. Uma definição assim evoca imediatamente a figura de Jesus dizendo àqueles empresários da pesca – “sigam-me e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4:19). “Vão e façam discípulos” (Mt 28:19) reflete a mesma ideia. Jesus liderou assim, mostrou como se faz e nos mandou fazer o mesmo.
O coronelismo e a pobreza de muitos anos podem ter sido as razões de havermos desenvolvido uma cultura popular de seguidores, gente que acha mais santo e mais humilde ficar para trás, mas é fato que grande parte dos brasileiros não assume a liderança. Entre os evangélicos, isso quer dizer que não evangelizam – não tomam a iniciativa, não vão e fazem discípulos.

AMME

Liderar é bom

por José Bernardo

“Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja.”
1Timóteo 3:1

Eu me lembro de um seminarista a quem ofereceram o pastorado de uma igreja. Inicialmente, mesmo querendo aceitar, ele disse que não queria, depois, quando a igreja chamou outro, aquele seminarista tornou-se um problema para o novo pastor, para a igreja e para si mesmo. Muitas pessoas agem desta forma, parece a elas que desejar a liderança é algo indecente, então fingem que não querem liderar.
Paulo não pensava assim, e disse ao jovem Timóteo para considerar melhor o desejo pelo episcopado – ou seja, supervisionar outros crentes. Então, por que desejar a liderança veio a parecer tão ruim? Penso que o primeiro problema está no que entendemos por liderança. Nosso país viveu sob a sombra do coronelismo. Em seu despótico uso das pessoas, este vício político afeta ainda hoje todos os poderes em nossa nação e invalida a nossa democracia. Esse mal também estende suas garras para dentro das igrejas e produz competição, manipulação, violência, dissensões e divisões.
Mas liderar é bom. A primeira indicação do porquê Paulo pensar assim é a palavra “excelente”, seguida por uma descrição do caráter e da conduta de quem pode ser efetivamente aceito como líder. Fica claro o conceito de liderar pelo exemplo e pelo serviço. Liderar é bom porque nos desafia a sermos o exemplo e a oferecer nossa vida como modelo.
Uma outra indicação da importância da liderança vem no final do assunto, quando Paulo explica por que está dando tais instruções: “…para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus…” 1Tm 3:15. A igreja precisa de líderes para realizar o propósito de Deus e é bom que esses líderes apareçam. Sem líderes a igreja não evangeliza, não cumpre sua vocação.
Liderar é bom. Qualquer que seja o trauma que você tenha contra a liderança, qualquer que seja o motivo de você fugir dessa posição, supere tudo e pense sobre essas palavras de Paulo. Para que milhões sejam evangelizados, transformados e preparados para continuar a obra de Deus, os líderes são necessários. É bom que apareçam. É bom que você seja um deles.

AMME

Liderar depois do fracasso

por José Bernardo

Projetos evangelísticos que poderiam ter sido, enfim, bem sucedidos, são enterrados e esquecidos por causa de um fracasso inicial. O fracasso horroriza e paralisa os líderes, inclusive os evangelistas, mas é preciso enfrentar isso.
Quando penso em fracasso, há um texto bíblico que me salta à mente: O fracasso de Josué e seu povo diante da cidadezinha de Ai (Josué 7). É fácil tomar esse texto pelo ângulo da santificação e ensinar sobre o risco do pecado oculto. Mas o foco do texto não é esse – ele fala principalmente do fracasso e do sucesso no enfrentamento em Ai.
A primeira coisa que nos chama atenção é o sucesso. Josué e seu povo haviam acabado de obter uma vitória esmagadora em Jericó e estavam vivendo a euforia do sucesso. O sucesso é a condição fundamental para o fracasso: ninguém fracassa enquanto não é bem sucedido. Josué não aparece falando com Deus antes de invadir Ai, ele apenas enviou espias e se sentiu seguro em atacar com uns poucos soldados apenas. A euforia do sucesso nos deixa arrogantes, desatentos e nos leva a minimizar os riscos.
Depois do fracasso veio a prostação. Josué e sua equipe ficaram prostrados, lamentando-se. Eles não sairiam daquela posição, como muitos líderes não saem, já que algumas coisas bem comuns os algemava ali. Primeiro estavam procurando um culpado para seu fracasso e acharam que o culpado era Deus – que novidade! Depois começaram a achar que o erro havia sido avançar, inovar – a mesmice pareceu mais confortável e segura. Finalmente mostraram seu verdadeiro temor – o que os outros vão pensar? O que os outros vão fazer? Nenhuma dessas três atitudes tão comuns nos tira do fracasso.
Então Deus disse a Josué: Levanta-te! Isso foi o começo da superação do fracasso. Deus requereu três coisas de Josué para a superação do fracasso. Primeiro uma pesquisa, uma inquirição, não por um culpado mas pela causa do fracasso. Depois uma medida de enfrentamento que envolveu confissão, correção e restituição. Finalmente um novo plano de ataque aproveitando, vejam só, a arrogância, desatenção e menosprezo dos homens de Ai, eufóricos com seu sucesso anterior.
Não há garantias de que evitaremos sempre o fracasso. Mas podemos ter certeza de que é possível seguir liderando mesmo depois de fracassar. Levanta-te!

AMME

O caminho da unidade

por José Bernardo

“Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!” Salmo 133:1 [NVI]

Um dos grandes desafios da liderança é a unidade. Manter um grupo de jovens unidos no propósito da evangelização, manter a igreja unida no esforço missionário – são desafios assim que o evangelista, como líder, sempre enfrenta. Quando pensamos em liderança, logo lembramos do salmo 133, texto áureo da unidade. Nesse salmo aprendemos muito sobre como manter unidas as pessoas que lideramos.
O salmo, atribuido a Davi e classificado como ‘cântico dos degraus’, mostra logo uma ótima idéia quando o assunto é unidade. O líder ministra sobre o assunto de forma simples, elementar, usando uma canção, que as pessoas cantavam enquanto caminhavam juntas em suas peregrinações a Jerusalém, para manter princípios básicos da unidade sempre em sua mente.
O texto não exorta à unidade, nem ordena ou convida, nem mesmo procura convencer as pessoas a se unirem. O texto apresenta as vantagens da unidade, divulga que é bom e agradável, oferece algo que elas querem. Muito sábio, porque quando a união é algo obrigatório, sofrível, sacrificial, parece nunca acontecer.
A divulgação das vantagens também não fica vazia. O líder torna essas vantagens bem tangíveis, usando duas ilustrações que as pessoas podiam entender. Para a vantagem espiritual ele usa a ilustração da unção sacerdotal, que significava a escolha e o favor de Deus. Para a vantagem material ele usa a ilustração do orvalho no monte Hermom que, com seu cume coberto de neve era uma bênção para a agricultura durante as secas de verão.
O breve e eficaz ensino é concluído perfeitamente na última frase onde o líder assegura que, vivendo em unidade, as pessoas receberiam de Deus a bênção espiritual e a vida material, deixando à sua escolha o andarem unidas ou não. Que poderosa mensagem essa, que atravessou três milênios e ainda é nosso principal texto sobre unidade! Que precioso recurso para nosso aprendizado e prática como líderes.
Davi começou a aprender sobre liderança muito cedo. Por volta dos dezesseis anos ele estava derrubando gigantes. Precisamos ajudar os “Davi” de nosso tempo, preparando-os para a tarefa que Deus tem para eles. Para isso preparamos a Escola Intensiva de Evangelização da AMME. De 15 a 30 de janeiro vamos preparar adolescentes e jovens para serem líderes.

AMME

Líderes dispensáveis

por José Bernardo

“Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo.” Tg 3:1 ARA.

Sempre me intriga a comparação entre Paulo dizendo a Timóteo que o desejo de liderar é bom (1Tm 3:1), e Tiago desestimulando pessoas de ambicionarem a liderança.
Contudo, detendo-nos um pouco no que Tiago ensinou, vemos que ele estava propondo uma espécie de vestibular da liderança, uma prova para saber quem pode e quem não pode ser líder. A prova é o controle da lígua.
Tiago começa a falar sobre este assunto como sequência de seu ensino sobre a natureza funcional da fé “Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.” Tg 2:17 ARA. No capítulo três ele destaca o falar como uma das obras mais significativas que alguém pode fazer: “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão” Tg 3:2 ARA. Tiago compara a língua ao pequeno leme que manobra um grande navio. Excelente figura de liderança.
De fato, sendo o ensino é a expressão essencial da liderança – principalmente para os crentes que devem ir fazer discípulos – falar é a ferramenta básica da liderança cristã. Se não formos capazes de usar corretamente a língua, mas tivermos um falar impuro, que provoca brigas e separações, mais destruiremos do que construiremos, mais dispersaremos do que ajuntaremos.
Paulo, mesmo enfatizando o bom que é desejar a liderança, faz sua própria lista de critérios, entre eles a aptidão para o ensino e a capacidade de controlar seus próprios impulsos. No contexto, em outras de suas cartas, também outros autores em toda a Bíblia, em Provérbios de modo especial – o tema do uso da língua é amplamente ensinado nas Escrituras.
Para selecionar líderes que utilizem bem a fala para liderar e não para destruir, Tiago acena com o maior rigor com que os líderes serão julgados. Jesus também falou sobre isso quando disse: “Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão.” Lc 12:48.
A intenção manifesta do texto não é desestimular as pessoas de liderar, mas obter líderes que saibam usar a língua para ensinar, evangelizar, abençoar, orientar. Se alguém não domina sua língua é dispensável como líder.
Comunicação é essencial para a liderança. Para ajudar jovens com isso, preparamos a Escola Intensiva de Evangelização da AMME. De 15 a 30 de janeiro vamos preparar adolescentes e jovens para serem líderes que se comuniquem bem.

AMME

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O OUTRO O CONDUZIRÁ

por Henri Nouwen

O mundo diz: “Quando vocês são jovens são dependentes de seus pais e não podem ir aonde querem, mas quando ficarem mais velhos serão capazes de tomarem suas próprias decisões, tomar seus próprios caminhos e controlar seus próprios destinos”.
Mas Jesus nos dá uma visão completamente diferente da maturidade: é a habilidade e a disposição de ser guiado pelos outros.
O caminho do líder cristão ao é o caminho da ascensão, no qual o mundo investe tanto. É o caminho descendente que termina na cruz.
Aqui nós focamos na qualidade mais importante da liderança cristã no futuro. Não é uma liderança de poder e domínio, mas uma liderança de fraqueza e humildade, através da qual o servo sofredor de Deus, Jesus Cristo, se manifesta. Obviamente, não estou falando sobre uma liderança psicologicamente fraca, na qual o líder cristão é simplesmente a vítima passiva das manipulações do seu meio. Não, estou falando de uma liderança na qual o poder é constantemente abandonado em favor do amor. É uma verdadeira liderança espiritual.
O líder cristão do futuro precisa ser radicalmente pobre, viajando sem nada a não ser um cajado (“sem pão, sem mochila, sem dinheiro, sem uma segunda túnica” Mac. 6:8).
O que há de bom em ser pobre? Nada, exceto que isto nos oferece a possibilidade de exercer liderança, deixando que outros nos liderem.
Passaremos a depender das respostas positivas ou negativas daqueles a quem somos enviados e, dessa forma, seremos realmente conduzidos para onde o Espírito de Jesus nos quer guiar.
A abundância e as riquezas nos impedem de realmente discernir o caminho de Jesus.
Paulo escreve a Timóteo:”Mas os que querem ser ricos caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição” (I Tim. 6:9).
Se há alguma esperança para a Igreja no futuro, será a esperança de uma Igreja poder, que tem líderes dispostos a serem liderados.

Retirado do livro: Líder Cristão do século XXI

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Liderança cristã e o meio ambiente

Há, sem duvida alguma, uma relação intima entre liderança cristã e o meio ambiente. Não é possível exercer a liderança sem se preocupar com o cuidado do meio ambiente. Na verdade, o meio ambiente é o nosso mundo. Cuidar do meio ambiente é cuidar do ser humano, pois a qualidade de vida é essencial para a saúde do homem. A Igreja deve ser o exemplo de comunidade que ensina e pratica a coleta seletiva do lixo; a economia de água e energia; o plantio de árvores; a diminuição dos poluentes. O líder cristão, uma vez na direção da igreja, há de ensinar o povo a cuidar muito bem da natureza que Deus criou com tanto amor. Cuidar do meio ambiente é muito mais que moda, é estilo de vida saudável. O cristão como cidadão deve ser o exemplo de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável. A destruição das florestas, a contaminação dos rios e mares, estão intimamente ligados à questão econômica. Motivados pela ganância e pelo egoísmo, o homem é um predador insaciável da natureza. Tem-se muito pouco respeito pela fauna e pela flora. Os números do desmatamento, das erosões e poluição dos rios é simplesmente alarmante. É uma vergonha para um país minimizar a questão ambiental. O agente vital da sustentação do eco-sistema é o homem. Deus deu ao homem a condição de ecônomo, isto é, de administrador dos recursos naturais.

Em seu livro “Poluição e Morte do Homem”, o Dr. Francis Schaeffer já estava alertando para o perigo da irrelevância do meio ambiente para o homem moderno. Poucos buscam unir empreendimento comercial com a sustentabilidade do meio ambiente. “O homem tem o poder para dominar a natureza, porém o usa de modo errado. O cristão tem a responsabilidade de mostrar este domínio, porém corretamente: concedendo às coisas seu valor real; dominando, porém sem destruir. A Igreja sempre deveria ter ensinado este fato, porém, de modo geral, tem fracassado em fazê-lo, e necessitamos confessar nosso fracasso. Francis Bacon compreendeu isto, e assim outros cristãos de outros tempos o têm entendido também, mas devemos dizer que durante muito tempo os mestres cristãos, incluindo os teólogos mais ortodoxos, têm mostrado uma autêntica pobreza com respeito a este ponto” (Schaeffer, 1976, 80). Na verdade, é o chamado ‘empreendimento saudável’ que procura unir o útil ao agradável. O cristão comprometido com as Escrituras tem uma visão bem apurada do eco-sistema. Ele é um participante efetivo do desenvolvimento sustentável. Ele planta e estimula a plantar árvores, trabalha na despoluição dos rios e conscientiza as pessoas acerca da coleta seletiva e do uso econômico da água e da energia. Tratar o meio ambiente com responsabilidade é uma tarefa continua do líder cristão comprometido com a ética do Reino de Deus. As Igrejas, lideradas pelos seus pastores, devem ser conscientizadas acerca das diversas ações eficientes com relação a questão ambiental. O líder cristão deve ser um leitor e pesquisador deste assunto tão atual e desafiador. Não há como ser diferente. A liderança cristã deve estar sempre atenta para os movimentos ambientais ao redor do mundo. Todos os tratados ambientais devem ser conhecidos. Como cristãos, a nossa posição será sempre a do equilíbrio entre o meio ambiente e a produção de bens e serviços. O binômio economia-ecosistema deve definir a agenda do desenvolvimento de um país. Todo o mundo deve estar atento para as políticas de gerenciamento ambiental. Há vários manuais que ajudam a tratar com responsabilidade as questões ambientais. Somos, como cristãos comprometidos com os valores do Reino de Deus, responsáveis pelo treinamento dos nossos filhos e netos no quesito ambiental. Deus será glorificado à medida que nós tratamos a Sua natureza com amor e responsabilidade.

Oswaldo Luiz Gomes Jacob

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Liderança não é para qualquer um

Ed René Kivitz

O exercício da liderança é um privilégio e uma responsabilidade de poucos. Usando nossa linguagem teológica, as “pessoas dons” (Efésios 4: 11) são sempre em número muito menor do que as “pessoas com dons” (Efésios 4.12).
As pessoas dons são responsáveis pela eficácia (fazer as coisas certas) e a eficiência (fazer as coisas da maneira certa) da organização. Quando você tem um problema de liderança, você tem um problema de líderes, e não de liderados. Espera-se, portanto, que os líderes sejam líderes, isto é, tenham no mínimo, uma visão clara do futuro para onde conduzem seus liderados, uma sensibilidade aguçada para que este futuro seja fruto dos sonhos e anseios dos liderados e um senso de responsabilidade para com a organização/organismo, pois os líderes não são servos dos liderados, mas servos da visão comum. Servir os liderados é a maneira como os líderes servem à visão, e não sua finalidade essencial.
Diante destas responsabilidades, acredito que ninguém será capaz de exercer satisfatoriamente a função de liderança, sem o desenvolvimento de pelo menos três capacidades.
A capacidade de conviver com a solidão. Líderes são líderes porque enxergam, percebem, sentem, sabem, estão dispostos a sacrifícios, possuem paixão diferenciados em relação aos liderados. Um líder na média dos seus liderados é um liderado que está no lugar errado, a saber, ocupando a posição de líder. Águias não voam em bandos.
A capacidade de tomar decisões impopulares. John Kennedy disse que o segredo do fracasso é “tentar agradar todo mundo”. O líder deve sempre tentar construir consenso, mas deve ter coragem para tomar decisões e assumir responsabilidades. Caso contrário, será um “facilitador de discussões”, e não um líder de fato.
A capacidade de conviver com críticas. Como se diz no popular, “nem Jesus Cristo agradou todo mundo”. Nesse caso, uma vez que o líder se posiciona, assumindo sua responsabilidade de levar todo mundo rumo ao bem comum, certamente contrariará interesses particulares, e conseqüentemente será alvo de palavras duras e imerecidas. Sempre.
Eis as razões porque o exercício da liderança não é para qualquer um.

©2005 Ed René Kivitz
Igreja Batista de Água Branca/SEPAL

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Liderança e integridade de coração

Liderança “Nada do que tocamos é eterno”

Por: Ronaldo Lidório

Esta é uma frase de Charles Kerman que nos ajuda quando tentamos responder a seguinte pergunta: quais são os critérios com os quais Jesus julga a minha vida?

Frequentemente julgamos a vida alheia a partir de valores mais externos, contábeis e visíveis, do que pelo que se passa no coração. E assim nos encantamos com homens, histórias, livros e lideranças que não encantam a Deus.

A presente sociedade leva-nos a crer que somos aquilo que aparentamos e não são raras as vezes em que somos julgados pelos nossos títulos, realizações, influência e tantas outras credenciais que tentam plasticamente definir nossa aparência pública. Entretanto, no Reino de Deus, pregado por Jesus, estas roupagens não representam a nossa identidade, quem de fato somos.

Possuimos uma tendência natural para nos escondermos. Somos, portanto, seres construtores de máscaras. Construímos máscaras com o mesmo intuito que o fazem os povos tribais em rituais xamânicos: para o engano do próximo e manipulação social. Creio que as máscaras que somos tentados a construir possuem, em um primeiro momento, a intenção de apresentar uma imagem que julgamos ideal para os de longe. Comumente esta imagem não representa a verdade do nosso ser, mas sim uma idéia utilitária que tentamos exportar. Se temos sucesso na construção de máscaras que vendam esta imagem aos de longe somos tentados a construir máscaras mais elaboradas, refinadas, que possam enganar também os de perto. É por isto que podemos nos surpreender com alguém bem perto de nós, de nosso círculo de amizade e relacionamento, que repentinamente se desvenda como portador de valores e práticas antagônicas com a imagem que dele tínhamos. É que não o conhecíamos. Olhávamos para ele, mas enxergávamos sua máscara. Mas não paramos aí.

Como seres construtores de máscaras, ao chegarmos ao ponto do engano coletivo aos de longe e perto nos propomos a uma nova empreitada, ainda mais desafiadora: construir máscaras que enganem não apenas o outro mas a nós mesmos. Chamo tais máscaras de máscaras do auto-engano. Aconselhava um cristão que se surpreendeu consigo mesmo ao trair a confiança de um líder que amava e admirava. Em meio a lágrimas exclamou: como pude fazer isto? Então pensei: quantas vezes esta pergunta nos persegue? O auto-engano não é apenas possível, mas infelizmente frequente. Pode levar homens e mulheres e jamais confrontarem suas mazelas e pecados levando-os a viverem como se tudo estivesse bem.

A construção de máscaras de engano e auto-engano é uma prática pecaminosa que nos leva para longe de uma conversa franca e necessária sobre a nossa vida, fugindo assim de um dos assuntos mais controvertidos e evitados pelo homem desde sua queda: a verdade.

No Reino da luz a verdade é o fundamento para qualquer avaliação. Não por acaso a Palavra nos diz que ela nos libertará. A ausência da verdade, por outro lado, nos mantém cativos às mesmas masmorras psíquicas, volitivas e comportamentais de sempre. E o auto-engano, quando a psiquê humana mente para ela mesma tentando racionalizar o pecado e a fraqueza, torna-se uma das fortes oposições à verdade.

O elemento principal com o qual Jesus nos avalia é bem menos visível menos contábil e certamente menos observado por aqueles que nos cercam, pois Ele nos vê no íntimo, sem máscaras, manipulações ou enganos. A Palavra usa expressões como “coração puro ”, “de todo o teu coração” , “integridade do coração” , e “santidade ao Senhor” para nos fazer entender que somos mais avaliados por Cristo pelas coisas do coração e não pela nossa roupagem. Entenda claramente algo: Jesus conhece o secreto da sua vida. Ele certamente não se impressiona pelas grandes construções que levantou, realizações aplaudidas por multidões ou teses defendidas debaixo dos holofotes. O Carpinteiro olha direto para o seu coração e vasculha a sua alma. E é justamente neste campo que você será encontrado fiel, ou não.

Em 1 Samuel 16 o profeta buscava o ungido do Senhor entre os filhos de Jessé. Antes de indicar Davi, que viria a ser rei sobre Israel, o Senhor diz a Samuel: “... Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque eu o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração”.

William Hersey Davis, tentando fazer-nos diferenciar entre a ilusão do palco e a realidade da vida, compara caráter e reputação quando diz:

“As circunstâncias nas quais você vive determinam sua reputação.
A verdade na qual você crê determina o seu caráter.
Reputação é o que pensam a seu respeito.
Caráter é quem você é.
Reputação é a sua fotografia.
Caráter é a sua face.
A reputação fará de você rico ou pobre.
O caráter fará de você feliz ou infeliz.
Reputação é o que os homens dizem a seu respeito no dia do seu funeral.
Caráter é o que os anjos falam de você perante o trono de Deus” .

É certo que não podemos purificar nosso próprio coração. Dentre tantas verdades marcantes do Cristianismo uma delas é esta: nós dependemos de Deus. E dependemos dEle para crer, para segui-lo e para nos parecermos mais e mais com o Filho. Assim creio que o objetivo de Cristo é tão somente levar-nos a orar como o salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável ”.

SEPAL

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Paulo Freire e o Líder como Educador

No blog da HSM foram publicados dois posts muito interessantes sobre a questão da educação (clique aqui e aqui para ler). Em um deles é citado um dos maiores educadores mundiais, o brasileiro Paulo Freire. Como estudioso, ativista social e trabalhador cultural, Freire desenvolveu, mais do que uma prática de alfabetização, uma pedagogia crítico-libertadora . Em sua proposta, o ato de conhecimento tem como pressuposto fundamental a cultura do educando; não para cristalizá-la, mas como “ponto de partida” para que ele avance na leitura do mundo, compreendendo-se como sujeito da história. É através da relação dialógica que se consolida a educação como prática da liberdade. Paulo Freire representa um dos maiores e mais significantes educadores do século XX. Sua pedagogia mostra um novo caminho para a relação entre educadores e educandos. Caminho este que, consolida uma proposta político-pedagógica elegendo educador e educando como sujeitos do processo de construção do conhecimento mediatizados pelo mundo, visando a transformação social e construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária.
Seu pensamento rompeu a relação cristalizadora de dominação, buscando pensar a realidade dentro do universo do educando, construindo a prática educacional considerando a linguagem e a história da coletividade elementos essenciais dessa prática. Seu trabalho revela dedicação e coerência aliados a convicção de luta por uma sociedade justa, voltada para o processo permanente de humanização entre as pessoas onde ninguém é excluído ou posto à margem da vida. Paulo Freire provou que é possível educar para responder aos desafios da sociedade, neste sentido a educação deve ser um instrumento de transformação global do homem e da sociedade.
O principio central da proposta pedagógica do professor Paulo Freire é o da educação transformadora, na qual a educação é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo da aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atuarem para transformá-la, ou seja, a principal característica da proposta é refletir sobre a própria realidade, para que seja possível levantar hipóteses e procurar soluções para transformar a realidade.
Paulo Freire rejeitava as tendências que buscam formatar o aluno como ente passivo e mero receptor/repetidor de conteúdos formatados. A experiência revela que os indivíduos assim formatados se tornam medíocres, sem estímulo para a criação. Um educador nega a educação e forma seres de consciência ingênua quando acha que os educandos devem repetir o que ele diz em sala de aula. Isso significa tratar o aluno como objeto e não reconhecê-lo como sujeito do processo educacional.
Diante disso, o homem não é um ser para adaptação, uma vez que adaptar significa acomodar, contrapondo-se a criar e transformar indo contra o ímpeto próprio do ser humano que é a criação.
Agora, vamos traçar um paralelo com o papel dos líderes nas empresas. O líder deve ter um compromisso com a formação e o desenvolvimento das pessoas. Líderes são inconformistas por natureza e, por essa razão, estão sempre em busca de quebrar paradigmas, principalmente aqueles ilustrados pela famosa frase “Aqui sempre foi assim” que caracteriza a repetição eterna de ações e posturas. Seu compromisso deve ser com a transformação das pessoas e da realidade.
Seu compromisso deve ser encarar a realidade de frente, por mais que ela seja cruel e pertubadora, atuando com franqueza e com compromisso com a ética e não com a visão míope de pessoas paralisadas pela tentativa de manutenção do status quo.
Deve atuar mais com perguntas do que oferecendo respostas. Questionar é preciso. Diante disso, terá que adotar uma postura mais humilde e menos competitiva com sua equipe. Terá que exercer a função do lider moderno que é transformar o conhecimento em resultados. Deve exercer sua liderança a partir das pessoas que compõem a sua equipe, assim como o educador deve atuar a partir da realidade do educando. Ao invés de impor, deve desafiar sua equipe a buscar soluções para os problemas que surgem no cotidiano das empresas, atuando efetivamente na construção do futuro da empresa. Deve ter o compromisso com a formação de pessoas com espírito critico e questionador das muitas verdades absolutas existentes dentro das empresas.
Durante todo esse processo, deve adotar postura humilde de aprender com seus colaboradores focando nos benefícios da interdisciplinaridade e da troca de experiências que concretizam a idéia da mútua dependência entre as partes e o todo. A relação deve ser horizontal dentro de um processo democrático de aprendizagem mútua, pautada pelo respeito e o diálogo por meio da troca de experiências. Assim como Paulo Freire preconizava que quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender, o líder deve estar preparado para liderar e ser liderado pela sua equipe.
Não estamos mais em tempos da economia industrial, os chamados “Tempos Modernos”, em que o princípio vingente era o da repetição desvinculado do pensamento. Estamos em uma nova economia, a economia do conhecimento, da sabedoria e das pessoas. Isso muda tudo na relação de liderança com as equipes fazendo com que o líder cada vez mais tenha que adotar o papel de educador dentro das empresas, encarando de frente a realidade e buscando a transformação da empresa e o compromisso com a ética e a sustentabilidade.

Blog do Marcelão